Se boa parte dos estudantes de medicina apresenta sintomas compatíveis com quadros moderados e graves de depressão e ansiedade, como anda a saúde mental dos médicos no Brasil? O Setembro Amarelo, dedicado ao tema da prevenção do suicídio, nos convida a refletir sobre profissionais da saúde. Na última semana, esta Folha revelou que dois em cada três estudantes de medicina apresentam sintomas depressivos moderados ou graves. A pesquisa, realizada com 1.026 alunos de 74 instituições brasileiras, também identificou sintomas de ansiedade moderada ou grave em metade dos participantes. Os números impressionam, embora seja importante distinguir sintomas identificados por instrumentos de rastreamento de um diagnóstico clínico de depressão ou ansiedade. E o problema é que esse sofrimento não termina na formatura. O estudante pressionado por provas e avaliações torna-se o médico submetido a plantões prolongados, privação de sono, jornadas em diferentes instituições e decisões de enorme responsabilidade tomadas sob pressão. Não é sem motivo que 45% dos médicos no Brasil sofrem com ao menos um tipo de transtorno mental. Os dados são de uma pesquisa feita em 2025 pela AFYA, ecossistema de educação e soluções para a prática médica no país. Dos 2.147 profissionais entrevistados, 40% disseram tratar ansiedade, 37,6% indicaram ter depressão, e 5,7% alegaram ter burnout. Em 20 anos de prática clínica como psicólogo, nunca vi tantos profissionais de saúde precisando de cuidado. Hoje, mais de 60% dos meus pacientes são médicos, e três experiências emocionais predominam em seus relatos: estresse, exaustão e medo. Entre os médicos recém-formados, percebo o estresse de tomar decisões clínicas devido à inexperiência profissional. Um estudo do Hospital das Clínicas da UFMG identificou exaustão emocional elevada em 68,1% dos residentes e burnout em cerca de um quarto. Mesmo acompanhados por médicos mais experientes, muitos se sentem inseguros e relatam, na terapia, vergonha de admitir dúvidas sobre a conduta a adotar. A exaustão, por sua vez, não decorre apenas da sobrecarga de trabalho. Lidar diariamente com um grande volume de sofrimento, comunicar notícias difíceis e retomar a rotina como se cada caso não deixasse marcas impõe um desgaste emocional profundo. Tenho pacientes que dizem que já perderam a conta de quantas vezes, depois de um atendimento, precisavam se recolher no banheiro para chorar antes de voltar ao próximo paciente. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha O medo aparece, sobretudo, quando falam sobre o futuro da profissão. No consultório, ouço apreensões com o sucateamento do sistema de saúde e com a crescente submissão da remuneração às regras das operadoras. Nesta semana, uma endocrinologista contou que precisa atender seis pacientes por hora para cumprir a meta estabelecida pelo plano. Soma-se a isso o risco de violência: alguns pacientes relatam já ter sido insultados, ameaçados ou agredidos por pessoas que descarregam sobre eles a insatisfação com um sistema que não controlam. Como cuidar de alguém nessas condições insalubres? É uma boa notícia que cada vez mais médicos reconhecem seus limites e procuram ajuda psicoterapêutica. Mas também é preocupante porque o tratamento vai para a pessoa e não para a causa do adoecimento, que está na maneira de funcionar do sistema de saúde no Brasil.
Como anda a sa�de mental dos m�dicos neste Setembro Amarelo?
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