O ano atual tem sido profícuo para o japonês Hirokazu Kore-eda. Em maio, teve o filme "Sheep In the Box", exibido no Festival de Cannes, e agora, quatro meses depois, ele concorre ao prêmio máximo do Festival de Veneza com "Look Back", adaptação do anime de mesmo nome lançado há dois anos. Em Cannes, seu longa distópico sobre a possibilidade de a inteligência artificial criar robôs humanoides que possam substituir pessoas mortas foi mal recebido. Já "Look Back", sobre a amizade entre duas garotas, da infância à idade adulta, recebeu mais acolhimento, embora ainda sem a efusividade de obras como "Assunto de Família", de 2018. O novo filme começa mostrando Fujino, menina de notável inteligência, que se destaca em seu colégio desenhando tirinhas de mangá que fazem sucesso entre os colegas —e entre os professores, que reconhecem seu talento. Mas um dia os colegas conhecem o trabalho de uma outra garota, Kyomoto, que não frequenta o colégio por causa de uma introversão que a incapacita de sair de casa. As crianças também admiram o mangá de Kyomoto, despertando em Fujino uma crise de ciúme. Ela fica tão irritada com a existência de uma rival que fica obcecada em sofisticar os próprios traços. Seus amigos e a família sentem falta de sua presença, mas a garota se entrega à tarefa, e consegue grandes avanços. Um dia, porém, ela acaba conhecendo Kyomoto, e descobre que a "oponente" a idolatra e a tem por heroína. Nasce, assim, uma sólida amizade entre as duas, e o filme mostra ambas enquanto crescem, até que publiquem juntas um mangá. Planos distintos para o futuro acabam afastando Fujino e Kyomoto, embora a ligação permaneça forte. Por grande parte do tempo, Kore-eda faz um filme sem intriga, com foco na união delas. O cineasta usa uma extensa parte do longa para mostrar o trabalho das duas em suas tirinhas, e embora por um bom tempo haja de fato frescor e vivacidade nas cenas, chega um instante que o espectador pode perder o interesse pelo filme e se aborrecer. Mas já quase na reta final, Kore-eda surpreende com uma reviravolta e dá a entender que vai reiniciar a história, imaginando que o primeiro encontro entre Fujino e Kyomoto nunca aconteceu. Mesmo sendo tarde para uma travessura narrativa, ao menos a proposta é ousada e dá um sopro de vida ao longa. Porém, o diretor logo abandona a nova trama e retoma a original. Este é um ano frutífero para Kore-eda, mas não configura exatamente o ápice de sua criação. Também na competição, o italiano "L’Estranea", dirigido por Paolo Strippoli, usa o cinema fantástico para falar sobre o quanto a mulher é cobrada o tempo inteiro, principalmente no meio familiar —a ponto de começar a achar que tem responsabilidade real sobre tudo o que acontece. A protagonista, Anna, leva uma vida confortável com o marido e duas crianças, formando uma família que muitos chamariam de exemplar. Sua filha é aceita para estrelar a propaganda de uma famosa marca de massas, mas uma tragédia inesperada faz com que a menina se machuque e fique à iminência de perder o contrato. Desesperada, a mãe vai a uma igreja e lá encontra uma mulher estranha, que dá a ela a chance de salvar a garota. Para isso, no entanto, é o filho quem vai passar a ter problemas de saúde. Anna acaba aceitando, e a filha de fato sai do episódio com a perna ilesa. Mas o filho logo começa a engordar, e quando está à beira de um ataque cardíaco por conta da obesidade, a mulher esquisita aparece de novo e oferece a Anna a chance de salvar o rapaz. Mas aí é o marido quem vai passar a ter problemas, desenvolvendo um rápido processo de alcoolismo. Até que ele sofre um acidente de automóvel após uma bebedeira, e em breve Anna receberá mais uma vez a visita da mulher, novamente com uma outra proposta para ela. O filme é fundamentalmente ruim como a sinopse faz parecer, mas existem elementos que tornam interessante toda essa confusão faustiana, quando não de fato engraçada. A Mefistóteles de "L’Estranea" é interpretada com inteligência por Valeria Bruni Tedeschi, e a cada vez que ela aparece para fazer uma nova proposta para Anna, seu humor politicamente incorreto e os avanços sexuais sobre a interlocutora fazem o grotesco do filme deixar de ser apenas tolo para se tornar verdadeiramente divertido. E o longa, no geral, não tem muito mais coisa a oferecer que diversão eventual, muito embora a reflexão sobre o quanto uma mulher é forçada a assumir responsabilidades que não são dela torne o longa mais importante do que o mero exercício de cinema de gênero que por vezes ele aparenta ser.
Como � a vers�o live-action do anime 'Look Back', que Kore-eda exibe em Veneza
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