O fim da ditadura militar e a criação da Assembleia Constituinte, no final de 1985, estimularam a discussão no Brasil sobre os direitos individuais, como o uso de drogas, algo até então fora do radar da política. Usuários passaram a tratar do assunto com mais seriedade, engajando-se na discussão para que o tema fosse incluído na Constituição. Também começaram a exigir o fim da repressão policial como a única maneira de lidar com o problema. Não por acaso, no dia 1º de novembro de 1986 houve a primeira mobilização pública em São Paulo para reivindicar a descriminalização da cannabis. Chamado de Comício da Maconha pelo jornal Notícias Populares, foi realizado nas escadarias do Theatro Municipal e não tinha o envolvimento de nenhum partido. Participaram principalmente estudantes e o objetivo era exigir o direito de fumar sem ser preso. O número de policiais no local era equivalente ao de manifestantes, segundo o jornal. Às 18h, assim que o protesto conseguiu ganhar corpo, todos os participantes foram colocados nos camburões da Garra, assim como transeuntes e curiosos que passavam pelo local, sob o argumento de apologia do uso de drogas. A repressão foi dura e os policiais portavam metralhadoras. "Depois de muitos palavrões, socos, pontapés e gritos de desespero, o balanço foi este: um rapaz detido em flagrante por porte de cannabis, a agressão do repórter-fotográfico do jornal Diário Popular pelo investigador de polícia Antônio C. Laudares, e a prisão de mais de cem pessoas", dizia o Notícias Populares. A manifestação aconteceu no mês da eleição para o governo do estado, vencida por Orestes Quércia. Os detidos foram levados para a divisão de entorpecentes do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais). Não houve feridos e muitos detidos foram rapidamente liberados. Alguns foram indiciados por apologia ao crime. No Rio de Janeiro, nesse mesmo momento, o candidato a governador Fernando Gabeira incluía a liberalização da maconha na sua pauta de governo. O assunto estava quente. Em maio, alguns meses antes do Comício da Maconha, aconteceu um debate sobre a descriminalização na Faculdade de Direito do largo São Francisco. O evento contou com a presença do diretor do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, dos advogados Carlos Alberto Toron e Paulo Erix, dos candidatos à Constituinte pelo PT, Henrique Carneiro e João Batista Breda, e do presidente do Centro Acadêmico 11 de Agosto, Paulo Gonçalves da Costa Júnior. Tratou-se, entre outras questões, da inclusão da discussão na Constituinte, o que acabou não acontecendo, e da distinção entre usuários e traficantes. Desde então muita coisa mudou. A partir de 2008, começou a acontecer a Marcha da Maconha em São Paulo, que teve sua 18ª edição no último dia 21 de junho. Uma única vez ela foi reprimida violentamente, em 2011, sob o argumento de apologia ao crime. Antes produto estigmatizado, a cannabis agora é reconhecida como remédio eficaz para várias doenças. A maioria da população, porém, segundo pesquisa Datafolha, ainda é contra a descriminalização do porte. Mesmo assim, por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), ele deixou de ser crime até o limite de 40 gramas. Nos dias 15 e 16 de agosto, acontece, no parque Villa-Lobos, em São Paulo, a 10ª edição da Expo Head Grow, uma feira de negócios relacionados à cannabis que une palestras de médicos, pesquisadores, advogados, cultivadores, empreendedores e ativistas com uma intensa programação musical e artística. Circulando pela área haverá também muitos usuários medicinais e recreativos do produto. São esperadas 20 mil pessoas em dois dias. A maconha saiu da marginalidade e entrou no mercado. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Com�cio da Maconha, em 1986, foi pioneiro na luta pela descriminaliza��o em SP
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