Eu já havia desistido quando ela chegou. Tinha havido mortes demais. Fitônia, begônia, peperômia. Antúrio, azaleia, violeta, suculenta, samambaia. Convencida de que era uma assassina serial de plantas, decidi não ter mais nenhuma em casa. As infelizes não continuariam a morrer por minhas mãos. Resignei-me aos poucos tons de cinza da varanda. Então ela veio, no dia do meu aniversário, presente de amigas queridas: uma gloriosa phalaenopsis em flor, as largas pétalas brancas escancaradas exibindo o centro amarelo e rosado. Uma noiva sem pudor. As flores duraram o tempo que tinha de ser, enquanto meus olhos, sequestrados, mal piscaram. Idas as flores, pendurei o vaso na parede da varanda e esperei a morte do que restou da planta. De vez em quando, lançava ali um tantinho de água –afinal, não se nega água a um moribundo. Veio uma obra em casa, objetos se empilharam na varanda. A poeira cobriu as folhas, a esmola de água ficou mais escassa, mais esparsa e mais distraída. Foi um susto, portanto, quando vi flores no vaso que eu julgara um sepulcro. Apenas umas poucas florinhas pequenitas, nada comparável à exuberância do ano anterior. Mas eram flores. E furavam o asfalto. Oferecendo tanto apesar de receber tão pouco, a phalaenopsis quebrava o encanto: eu deixava de ser uma assassina. Com esse jardim de uma planta só, tenho aprendido a podar, regar e adubar na hora e do jeito certos. E a esperar o tempo que a vida exige. Por longos nove meses, a planta fica reduzida a folhas inexpressivas, oculta a potência das flores, até que explode para expor sua faceirice por breves três. Meu aniversário se aproxima e a phalaenopsis, pontual, o presente sempre renovado, vai florir pelo quinto ano desde que fixou residência na varanda. A haste já aponta e apronta o véu cândido e impudico. Por três meses, a varandinha mixuruca de um apartamentinho mixuruca num bairrozinho mixuruca afogado na aridez de uma cidade grande vai se converter num palácio real. Mas ainda demora um pouco –preparar um espetáculo demora!– e meus olhos ávidos terão de ser pacientes. A noiva está em seu toucador e não tem pressa. É indiferente à ansiedade dos convidados. Sabe que pode se fazer esperar. Helena Hawad é professora e mora no Rio de Janeiro (RJ). O blog Praça do Leitor é espaço colaborativo em que leitores do jornal podem publicar suas próprias produções. Para submeter materiais, envie uma mensagem para leitor@grupofolha.com.br LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Com quantas plantas se faz um jardim? Leitora reflete sobre rela��o de cuidado com flor
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