Com avan�o do nacionalismo, elei��es na Europa podem redefinir dire��o da UE

Com avan�o do nacionalismo, elei��es na Europa podem redefinir dire��o da UE

Esta é a edição da Euro Radar, a newsletter da Folha sobre a Europa. Quer recebê-la todas as quintas no seu email? Inscreva-se abaixo: Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris Demorou, mas a ficha parece estar caindo. Só nas últimas semanas, o Financial Times, o Le Monde e o Le Figaro dedicaram análises de fôlego ao mesmo tema: o que acontece com a Europa quando quatro dos cinco maiores países da UE forem às urnas em menos de doze meses, com partidos nacionalistas-populistas na liderança ou perto dela em quase todos. A Espanha abre a sequência em 29 de novembro. Em abril, é a vez da França. Depois vêm Finlândia, Grécia, Polônia e, até o fim de 2027, provavelmente a Itália. Fica de fora a Alemanha, que não tem eleição federal, mas onde a Alternativa para a Alemanha acaba de vencer eleições regionais na Saxônia-Anhalt. O que liga esses pleitos vai além do calendário. Em quase todos, partidos nacionalistas-populistas lideram ou disputam a liderança nas pesquisas. Os partidos tradicionais perderam capacidade de oferecer respostas que convençam eleitorados cada vez mais voláteis. A própria extrema direita se radicalizou por dentro, com novos concorrentes que empurram os estabelecidos ainda mais para a direita. Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni, que governou como conservadora pragmática, enfrenta a pressão do Futuro Nacional, liderado pelo ex-general pró-Rússia Roberto Vannacci. Na Polônia, quatro partidos de direita somam quase metade das intenções de voto, ameaçando o governo liberal do primeiro-ministro Donald Tusk. Populismo fiscal em terreno minado O ciclo eleitoral coincide com um momento de fragilidade fiscal aguda. A França caminha para um déficit de 5,4% do PIB em 2026 e a Itália sustenta uma dívida pública acima de 135% do PIB. Os programas econômicos dos partidos populistas não ajudam a acalmar os mercados. Na França, Le Pen promete 140 bilhões de euros em economias líquidas até 2032, num programa que prevê simultaneamente mais de 53 bilhões em cortes de impostos, mas economistas consultados pelo Le Figaro estimam que, descontadas medidas imprecisas e juridicamente frágeis, o resultado real ficaria em no máximo 7,5 bilhões. O abismo entre o prometido e o viável lembra o fiasco de Liz Truss no Reino Unido em 2022. O contexto externo não ajuda. Guerra na Ucrânia, instabilidade no Oriente Médio, imprevisibilidade de Donald Trump: qualquer governo europeu, chegue ao poder com o programa que for, terá pouca margem de manobra fiscal para cumprir o que promete. A França no centro da tormenta Nenhuma dessas eleições preocupa tanto quanto a francesa. Marine Le Pen, líder da Reunião Nacional e candidata pela quarta vez à presidência, lidera todas as pesquisas de primeiro turno com mais de 30% e aparece vencedora na maioria dos cenários de segundo turno, algo que nunca conseguiu. Em entrevista ao Financial Times nesta semana, Le Pen afirmou que cortaria a ajuda financeira à Ucrânia em seis meses, que se opõe à adesão ucraniana à UE e que pretende reduzir em 11 bilhões de euros a contribuição francesa ao orçamento europeu já no primeiro ano de mandato. São posições que não significam uma saída formal do bloco, mas que colocariam a segunda maior economia da UE em confronto aberto com as regras e as instituições que sustentam o projeto europeu desde 1957. A colunista do Le Monde Sylvie Kauffmann resume o diagnóstico que circula pelas capitais europeias: pela primeira vez, a França seria dirigida por alguém disposto a frear a construção europeia. O relógio de Bruxelas O problema se agrava se os resultados coincidirem. Orbán incomodou Bruxelas como líder de um país médio, periférico; uma frente nacionalista simultânea na França, Espanha, Itália e Polônia mudaria a correlação de forças no Conselho Europeu. Ursula von der Leyen tenta antecipar o que pode, do orçamento plurianual do bloco para 2028-2034 à agenda de competitividade industrial, mas seus interlocutores já estão em modo de campanha. Como alerta Éric Maurice, do Centro de Política Europeia, cada líder quer que o orçamento responda aos seus próprios interesses eleitorais. O primeiro-ministro britânico Andy Burnham sinalizou que quer levar o Reino Unido de volta a uma relação mais estreita com Bruxelas e chegou a mencionar o reingresso na UE como uma das opções em discussão. Se concretizada, seria a única movimentação relevante na contramão do fechamento nacionalista. A cúpula Reino Unido–UE prevista para este ano será um teste: falta saber se a UE que Burnham encontrar do outro lado terá disposição para negociar. Frase da Semana O honesto a fazer com Zelenski é dizer a ele, na verdade avisá-lo: olha, nós não podemos fazer mais, não conseguimos dar conta Ucrânia: a porta que pode fechar A onda eleitoral que se anuncia na Europa encontra na Ucrânia sua consequência mais concreta. Uma pesquisa da fundação alemã de pesquisas Bertelsmann Stiftung, feita em junho com quase 19 mil entrevistados nos 27 países da UE e nos territórios ucranianos controlados por Kiev, expõe um descompasso que só cresce entre os dois lados. A maioria dos cidadãos europeus (53%) já não quer a adesão ucraniana nos próximos anos; em março de 2022, logo após a invasão russa em larga escala, o apoio era de 69%. Do lado ucraniano, 83% querem entrar no bloco. O fosso vai além da adesão. Enquanto dois terços dos ucranianos (67%) aceitariam custos econômicos de curto prazo para viabilizar a entrada na UE, 62% dos europeus recusam esse sacrifício. E 64% dos europeus acham que a adesão traria mais desafios econômicos do que oportunidades para seus próprios países, percepção especialmente forte na França e na Alemanha, onde quase 70% dos entrevistados pensam assim. Outro dado que incomoda: 58% dos ucranianos consideram que seu país é quem mais contribui para a defesa da UE contra a agressão russa, enquanto apenas 16% dos europeus pensam o mesmo. Quase um terço dos entrevistados na UE (32%) acha que nenhum dos dois contribui, proporção que sobe a 40% na Itália e na França, dois dos países que irão às urnas em 2027. Os autores do estudo descrevem o caminho da adesão como uma "maratona de persuasão" que mal começou. Com a fadiga eleitoral e a ascensão nacionalista, a pista ficou mais longa. Motor europeu O Salão do Automóvel de Paris, aberto ao público desde segunda-feira e que vai até sábado, virou palco de uma disputa que ultrapassa a indústria automotiva. Vinte marcas chinesas expõem no evento, o dobro do último salão, em 2024, enquanto fabricantes europeus tentam convencer investidores de que ainda podem competir. Emmanuel Macron, que inaugurou aquele que será seu último Mondial de l'Auto como presidente, declarou que o acordo entre Paris e Berlim sobre o futuro regulatório do setor é "iminente". O pacto em negociação prevê que a França aceite relaxar a meta europeia de redução de CO2 para carros novos a partir de 2035, de 90% para 80% em relação aos níveis de 2021, permitindo a venda de mais veículos a combustão. Em troca, a Alemanha apoiaria regras mais rígidas de preferência europeia na concessão de subsídios e contratos públicos. Nesta quinta-feira, os líderes europeus se reúnem em Bruxelas e darão sua primeira reação ao acordo que limita a importação de híbridos chineses a 350 mil unidades por ano. Para dimensionar o problema: as importações mensais desses veículos saltaram de 3.800 em outubro de 2024 para 50 mil em julho de 2026, depois que Pequim redirecionou suas exportações para os híbridos para escapar das tarifas europeias sobre elétricos. O superávit comercial da China com a UE chegou a US$ 34 bilhões em setembro, alta de 21% em relação ao ano anterior. Com o mercado americano praticamente fechado por tarifas, a Europa virou o destino prioritário dos fabricantes chineses, que enfrentam queda de 20% nas vendas domésticas. Pequim já ameaçou recorrer à Organização Mundial do Comércio e adotar retaliações No Radar O que monitorar até a próxima quarta-feira (21) 15 e 16 de outubro — Bruxelas Conselho Europeu com pauta densa: competitividade, orçamento plurianual 2028-2034, Ucrânia (com participação de Volodimir Zelenski), Oriente Médio, defesa, migração e alargamento. O orçamento é o ponto mais sensível: António Costa, presidente do Conselho Europeu, tenta fechar um acordo até o fim do ano para evitar que as negociações colidam com o ciclo eleitoral de 2027. Até 18 de outubro — Bangcoc As reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional encerram nesta semana com um diagnóstico sombrio. O Panorama Econômico Mundial projeta crescimento de apenas 0,9% para a zona do euro em 2026. O Fiscal Monitor alerta que a dívida pública global caminha para 100% do PIB mundial até 2029 e que os governos têm cada vez menos margem de manobra, num cenário agravado pela guerra no Oriente Médio e pela instabilidade comercial. Fora da Pauta Mary Cassatt: The Choice of Independence, no Museu d'Orsay (Paris, de 6 de outubro a 31 de janeiro de 2027) O Musée d’Orsay inaugurou a primeira grande retrospectiva dedicada a Mary Cassatt por um museu nacional francês, no centenário da morte da pintora. Nascida na Pensilvânia, nos Estados Unidos, Cassatt estabeleceu-se definitivamente em Paris em 1874 e tornou-se uma figura central do impressionismo, a convite de Edgar Degas. A mostra reúne cerca de 80 obras e percorre sua carreira, marcada pela luta por independência artística e pelos desafios impostos às mulheres e aos estrangeiros no mundo da arte do século 19.

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