Com AfD no poder, Alemanha entra em territ�rio desconhecido, diz professor de hist�ria alem�

Com AfD no poder, Alemanha entra em territ�rio desconhecido, diz professor de hist�ria alem�

A sólida vitória da extrema direita em Saxônia-Anhalt, no fim de semana, é "território desconhecido" para a Alemanha do pós-guerra. "O sistema político da Alemanha Ocidental, estabelecido após 1949, foi criado para impedir isso, evitar a ascensão de um partido fascista ou nazista. Após quase 80 anos, já não funciona", Marcus Böick, professor associado de História Alemã Moderna da Universidade de Cambridge. Apesar de classificar a situação como "desesperadora", Böick diz que o resultado era esperado e que o isolamento promovido pelos outros partidos contra a AfD (Alternativa para a Alemanha), se mostra ineficaz. "A defesa do sistema democrático não é mais argumento." Natural da região e estudioso do tema, Böick, em entrevista à Folha, explica como a campanha da sigla extremista deu tão certo nesta eleição. "Eles estão criando uma sensação de pertencimento nos eleitores. As outras legendas estão ausentes." O senhor nasceu em Aschersleben, em Saxônia-Anhalt. Como se sente neste momento? Sabíamos que a AfD ficaria na liderança, mas, com quase 44% dos votos, o resultado está na faixa superior das expectativas. Não está claro o que acontecerá, porque o partido não tem maioria nem as demais legendas. Como me sinto? Na minha cidade natal, o partido obteve seu maior êxito, cerca de 55% dos votos. Sinto que a situação é desesperadora. Para os alemães, é território desconhecido, porque, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial —e isso já foi dito por todos os veículos de comunicação, mas é importante reiterar—, temos um partido de extrema direita que provavelmente formará um governo. E o sistema político da Alemanha Ocidental, estabelecido após 1949, foi criado para impedir isso, evitar a ascensão de um partido fascista ou nazista; conta com mecanismos de freios e contrapesos, normas e medidas destinadas a restringir o poder. Após quase 80 anos, esse sistema já não funciona. A Alemanha tem um mecanismo quase particular, o Brandmauer, cuja existência é discutida por estudiosos e políticos. A Alemanha, embora faça parte de tendências globais, é um caso específico: o legado da era nazista, os crimes, o Holocausto. É a razão pela qual todos os partidos dizem: "Não cooperaremos com eles". Um caso interessante para observar talvez seja a Áustria, que também fez parte do avanço nazista. Eles chegaram a conclusões muito diferentes. Não há Brandmauer, não há cordão sanitário. Os partidos alemães puderam recorrer a esse mecanismo durante muito tempo, mas acho que a Saxônia-Anhalt é o primeiro caso em que eles sobraram menores do outro lado. Sei que isso talvez seja um pouco controverso, mas, nos últimos anos, muitas campanhas giraram em torno da democracia. Os partidos tradicionais reagiram ao êxito da AfD invocando a importância de defender o sistema democrático. Mas fizeram isso muitas vezes. E é um argumento fraco porque a AfD pode simplesmente dizer que as pessoas votam neles e isso é democracia. Há uma decadência dos partidos tradicionais. Friedrich Merz disse que essa já era uma realidade para o SPD, parceiro de coalizão, e que agora também é o caso da CDU. As economias europeias estão em situação crítica. Há muitos desafios: Rússia hostil, concorrência da China, EUA imprevisíveis. E é preciso administrar as consequências, como custo de vida, inflação, preços da energia. Não há muito a oferecer, isso fica claro com Merz. Ele falava muito quando era líder da oposição. E, antes mesmo de entrar para o governo, descumpriu suas promessas. Fez acordos com os sociais-democratas, gastou dinheiro, aumentou impostos, não enfrentou a imigração de forma satisfatória. Isso fica claro nas mensagens da AfD e de Ulrich Siegmund: "Fazemos promessas e as cumprimos". Siegmund e Alice Weidel também mencionaram 2029, data das eleições federais. A AfD já é o partido mais forte em âmbito federal. E, como ocorre na tradição alemã, o partido mais forte costuma formar o governo. Devido ao cordão sanitário, isso não aconteceu na Turíngia, há dois anos, mas agora a situação é difícil. Merz é extremamente impopular em toda parte. Não vejo saída fácil para ele. Há mais duas eleições estaduais neste mês: em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e em Berlim, onde a CDU vai perder. Talvez haja uma grande mudança no partido. Recentemente tivemos um processo semelhante no Reino Unido, com Keir Starmer também muito impopular. Em Magdeburgo, na semana passada, um comício da AfD parecia um show. E o telão do palco mostrava Siegmund em uma motoneta Simson, apelando a memórias da Alemanha Oriental. O fato de um partido de direita estar celebrando um regime comunista é algo que não faria sentido há alguns anos, mas esse é o mundo do populismo digital de direita, que alguns chamam de uma nova forma de fascismo, termo que hesito usar. Ocorre que, na maioria das vezes, não precisa fazer sentido. Quando tentamos entender de maneira racional, tendemos a fracassar. Tem a ver com sentimento. A AfD teve muito sucesso ao escolher um candidato carismático, sem os esquisitões de antes. Existe um termo em alemão para isso, "Schwiegermutters Liebling", algo como "genro dos sonhos", alguém realmente simpático, articulado, com boa aparência. Pela primeira vez em muitos anos a AfD conseguiu criar essa sensação de que estão aqui e vão começar a mudar as coisas, sobretudo nas áreas rurais. Venho de uma dessas regiões. Nos últimos 20, 30 anos, tem sido sombrio. Estão encolhendo drasticamente, cinemas fecharam, estações ferroviárias foram desativadas, assim como escolas e hospitais. Um processo permanente de retração, sem futuro. Aí chega a AfD e organiza esses eventos comunitários, que remetem a um passado glorioso. Pode ser a Alemanha Oriental, os nazistas, o Império, qualquer coisa. Oferecem uma sensação de pertencimento, elemento crucial. Eles conseguiram administrar essa nostalgia e essa sensação de passado glorioso que prometem trazer de volta. Não apenas nas festas, mas sobretudo nas redes sociais. Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris Em um desses comícios, um homem apontou para crianças e perguntou de forma irônica se elas pareciam neonazistas. A AfD está entrando em pequenos vilarejos, promovendo torneios de futebol, eventos comunitários, e as pessoas têm a sensação de que alguém está se importando com elas. A maioria dos outros partidos não consegue fazer isso. Até mesmo as igrejas são fracas no leste. Praticamente não há religião, as pessoas se sentem perdidas e sozinhas. O que complica a discussão sobre a AfD é que existe um debate moralista na Alemanha sobre se os seus eleitores são nazistas ou fascistas. É algo que se pode fazer de uma perspectiva berlinense, como forma de sinalização. Mas são pessoas comuns, talvez nem sequer... É claro que há neonazistas e pós-nazistas na AfD. Se você observar as pessoas que trabalham com Siegmund, algumas têm histórico muito forte. Mas a sociedade mais ampla à qual apelam não é. Essas pessoas não são movidas exclusivamente pelo fascismo, pelo nacional-socialismo ou pela nostalgia. O mais importante é a sensação de pertencimento. É fantasia, mas as pessoas não tiveram nenhuma durante anos. Esses anos 1990 explicam um pouco da nostalgia, não? Sim, as pessoas sentiam que o Estado estava presente, que fazia as coisas. O curioso é que, no fim da década de 1980, as pessoas odiavam a Alemanha Oriental. Quando os efeitos do capitalismo atingiram essa sociedade, a visão mudou. Antes havia emprego, eram relativamente pobres, mas estavam todos no mesmo barco. Havia um senso de comunidade mais forte, que agora se perdeu porque muita gente foi embora ou porque a competição individual é hoje muito maior. Isso realmente alimenta essa nostalgia. A AfD está sendo muito hábil em criar uma espécie de colagem digital de nostalgias: Alemanha Oriental, Império Alemão, a grande nação orgulhosa, forte, confiante. Raio-x | Marcus Böick Professor de História Moderna da Alemanha na Universidade de Cambridge. É especialista na história da Alemanha Oriental, onde nasceu, com ênfase na transição do socialismo para o capitalis mo nos anos 1990. Teve passagens pela Universidade Harvard (EUA) e Universidade de Toronto (Canadá).

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