Cole Porter renasce em toda sua grandeza em vers�es de Carlos Renn�

Cole Porter renasce em toda sua grandeza em vers�es de Carlos Renn�

[RESUMO] Carlos Rennó relança livro com suas traduções de canções de Cole Porter, um dos principais compositores de música popular dos EUA. Em afinidade com o pensamento dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Rennó se esmera em uma "transposição criativa", fazendo as letras de Porter não só comunicativas de seus temas e referências, mas também cantantes em português. Que se afine o beguine e batam-se os tambores para reanunciar Cole Porter em nosso festim: com seu trabalho recriado como poesia cantada sofisticada, o compositor norte-americano (1891-1964) que adorou a baía de Guanabara se gabaria, talvez, da nova bossa de suas letras em bom e sonoro brasileirês. Renasce entre nós, em edição ampliada, a obra de Carlos Rennó publicada primeiramente em 1991, agora com mais textos e canções vertidas: "Cole Porter – Canções, Versões – Que De-lindo". Rennó brinca intensamente em serviço, tão a sério quanto exigem as letras desse que é, como diz o versionista, "um dos principais compositores de música popular nos Estados Unidos e no mundo". Quem lê ou ouve as letras de Porter pode perceber a complexidade de sua articulação e a consequente dificuldade para serem recriadas em outro idioma de modo a associar as correspondências de significado com as de aspectos formais que compõem um exuberante engendramento de ritmo, som e melodia. Augusto de Campos, em seu texto incluído no volume, vale-se da "tipologia provençal" para atribuir ao compositor a marca do "trobar ric", categoria dos trovadores medievais que, sendo "mais rica, cheia de achados literários", se contrapunha ao "trobar leu" ou "suau", "leve ou suave, a poesia-canção mais ligeira e despretensiosa". Numa palavra, como diz Rennó: "sofisticação". Para Augusto, "é rico o trovar de Cole Porter porque ele se compraz, mais do que os outros, [...] nos jogos de palavras, nas rimas rebuscadas, nos achados paronomásticos". Esses achados são, acho, saltos mortais para o tradutor de poesia: falando deles, Augusto refere-se ao "intraduzível sintagma ‘begin the beguine’, impossível em outra língua". Se é impossível a tradução do conjunto como tal, não o será, como diria o linguista Roman Jakobson, a "transposição criativa", levada a termo por Rennó com "retine o beguine", sequência que refaz, com outro elemento, uma relação de semelhança pela assonância (os sons vocálicos e-i-e) e pela terminação idêntica das palavras, fazendo-se, de quebra, uma referência à própria repetição do som pelo sentido de ecoar, ressoar —"re-tinir"—, solução em que a metalinguagem reforça a afinidade fônica. É fácil perceber a propriedade dessa solução (ou, como diria Rennó, dessa "saída", já que a perfeita correspondência não é possível), mesmo que tenhamos apego afetivo à histórica versão, fluente, de Haroldo Barbosa ("Quando começa o beguine / Bate um tambor a doce cadência"), cantada por Orlando Silva e Eliete Negreiros, entre outros. Para que você, leitor/a, possa conferir num breve exemplo como a recriação funciona, vejamos a primeira estrofe dessa canção, no original e em português; se conhece a melodia, será gratificante cantarolar. "When they begin the beguine / It brings back the sound of music so tender, / It brings back a night of tropical splendor, / It brings back a memory ever green." "Quando retine o beguine / Ressoa a canção tão linda que prende; / Reluz, tropical, a noite que esplende; Relembro o que é sempre novo e retine." Entre as correspondências necessárias e alcançadas encontra-se, evidentemente, a métrico-rítmica: um verso heptassílabo seguido de três decassílabos, com as sílabas tônicas na mesma posição. Os desafios ao versionista são muitos: não é raro Cole Porter alcançar em suas letras, como observa Rennó, "um nível avançado de tecnologia poético-verbal aplicada à melodia". Quanto ao uso de rimas, por exemplo, "mostra uma sábia noção de equilíbrio entre as raras e triviais", particularmente em suas letras longas, nas quais se encontram muitas "surpresas", algumas citadas pelo tradutor, como "Saks’s/taxes" ou "smart is/parties". Caetano Veloso, que também aproxima Porter do poeta provençal Arnaut Daniel em seu depoimento presente no livro, diz: "É delicioso ouvir ‘I Concentrate on You’ e sentir a presença daquelas rimas que me parecem bem arnaut-danielinas: as em ‘ong’, que se repetem no mesmo lugar em cada estrofe". Ele se refere à rima entre os versos (terceiros nas estrofes) "Whenever the winter winds become too strong", "Whenever the blues become my only song" e "To prove that even wise men can be wrong", vertidos por "E um vento de inverno forte corta o ar", "E somente blues me ponho a entoar" e "Para provar que um sábio pode errar", soluções que, com análoga concentração de assonâncias e aliterações, incluem a rima entre categorias gramaticais diversas. Em sua elaboração requintada, há lugar para muitas rimas internas, por vezes repetições próximas, como na canção "It’s De-Lovely", em que aparecem sempre entre a terceira e quarta sílabas do mesmo verso em cada uma de suas cinco estrofes. No livro incluiu-se apenas a primeira delas, opção que Rennó justifica, em suas esclarecedoras "Notas sobre as versões", pelo fato de usualmente ser a única estrofe cantada pelos intérpretes. Nela se encontra a referida rima interna no nono verso ("You can hear dear Mother Nature murmuring low"), entre "hear" e "dear". Em português, numa segunda tradução dessa letra, acrescentada ao conjunto, o verso correspondente é "Ouça em bom som a Natura mãe murmurar", com rima na mesma posição. É do nome dessa canção em português (gravada em 2000 por Caetano) que provém a expressão usada no título do volume, "Que De-lindo". O relato do versionista sobre essa solução ilustra bem o modo como encara o seu labor. "Não foi difícil chegar a ‘de-lindo’, pois minha intenção era encontrar um vocábulo iniciado com a letra L que, ligado por hífen a ‘de’, em função pseudo-prefixual, formasse uma palavra que, precedida de ‘que’, viesse em seguida a ‘que deleite, que delícia’ no verso-recorrente, imitando o jogo aliterante do refrão da letra original (‘It’s delightful, it’s delicious, it’s de-lovely’) e estabelecendo com este uma relação de semelhança, inclusive, no nível fonético." Por falar em nova versão do mesmo poema, mencione-se que, em várias canções, são incluídas variantes das traduções, o que revela a constante e acirrada busca por resultados diversos que costuma reger a tarefa da tradução poética, pela consciência que os tradutores adquirem —evidente em Rennó— de que o processo é sempre incerto e infindável, chegando-se, com muito empenho, ao melhor possível, por vezes apenas temporário. Mas, tratando-se do modo como se entende a tarefa do tradutor, é útil mencionar uma das referências de pensamento com as quais Carlos Rennó se afina, a de Haroldo de Campos (que, com seu irmão Augusto e com Décio Pignatari, integrou o trio de criadores da poesia concreta entre nós). Em ensaio reunido no livro "Transcriação" (2013), Haroldo cita inicialmente Jacques Derrida —"Deixar de lado o corpo é mesmo a energia essencial da tradução. Quando ela reinstitui um corpo, é poesia"— para em seguida afirmar que "O que se entende, geralmente, por tradução é uma atividade neutralizadora: trata-se de rasurar a ‘forma significante’ —suprimir o corpo— para dela extrair um presuntivo ‘conteúdo’ [...] Quando isso não ocorre, quando o corpo prima sobre o presumido conteúdo e este [...] não se deixa desencarnar [...], estamos diante do ‘não-traditável’, do ‘in-traduzível’. [...] A reversão do impossível em possível começa por uma hiperfidelidade [...] às mais secretas errâncias do semântico pelos meandros da forma". Assim, quando estamos diante de uma poética nítida, em que os recursos formais de composição se amalgamam ao dito "conteúdo", traduzi-la será recriá-la com outros componentes, restituindo-lhe um "corpo" análogo em outro idioma. Isso significa, no caso das letras de Cole Porter, fazê-las não só comunicativas de seus temas e referências, mas também cantantes, com tudo o que isso envolve, em outra língua, além de dotadas de semelhante poder imagético junto ao público culturalmente distinto, em época diversa. Nesse sentido, será preciso —como também diria Haroldo, em outro artigo seu—, além de redesenhar no poema de chegada as "formas significantes" do poema de partida, reconfigurar, "numa outra concretização imaginária, o imaginário do original, reimaginando-o". Sobre essas duas necessidades, observe-se, por exemplo, o que diz Rennó em sua nota sobre a versão de "Always True To You In My Fashion" / "Fiel a Você à Minha Moda": "Seus 60 versos [...] exibem uma série de jogos vocabulares de sons e sentidos das mais generosas e prolíficas que Cole Porter já coligiu numa mesma composição, exigindo um trabalho árduo, atento e paciente, para de algum modo restituí-la. Optei por reambientar as situações apresentadas pela letra no contexto de nossos dias e de nosso país, em que a personagem da canção pode ser vista como uma garota de programa de luxo". Além, portanto, de redesenhar os elementos que compõem o entrelaçamento de som e sentido da letra, reimagina-se, com nova ambientação, o contexto do original —um modo de renovar o poema (para lembrar o lema "make it new", proposto pelo poeta e tradutor norte-americano Ezra Pound). Os versos "Ao Fasano, um ano faz, / Vou com o chefão do gás; / Ao rapaz / não falta gás / lá no hotel" figuram lado a lado, na edição bilíngue, com "I enjoy a tender pass / By the boss of Boston, Mass., / Though his pass / is Middle-class / and notta Backa Bay". Note-se, aí, a correspondência no uso da sequência fônica "as"... Mas também haverá outra relação entre esses versos vertidos e os de estrofe posterior da mesma canção, pois Rennó, às vezes, reposiciona as referências semânticas no conjunto: nos versos "From Milwaukee Mister Fritz / Often moves me to the Ritz", também se menciona um hotel, o Ritz... Quanto ao modo de traduzir, pode-se pensar nas diferentes concepções que há sobre tradução, e nos possíveis resultados diversos para o mesmo texto de origem. De fato, são inúmeras as possibilidades de recriação de um poema, coerentes com o que cada tradutor considere relevante nele. Mas é inegável que, quando há afinidade de pressupostos acerca de poesia entre autor e tradutor, os resultados tendem a se conectar com o original, numa identificação harmoniosa entre duas criações. O entendimento da poesia por Carlos Rennó pode corresponder exemplarmente à visão de Cole Porter sobre o poético, evidenciada em suas letras, o que garante a pertinência estética e comunicativa de suas versões. Exemplo flagrante da feliz revivescência de uma canção de Porter entre nós é aquela que conquistou ampla fama nas vozes de Chico Buarque e Elza Soares, "Façamos (Vamos Amar)", versão da longa "Let’s Do It (Let’s Fall in Love)" com versos modelares de Rennó, como "Libélulas, em bambus, fazem, / Centopeias sem tabus, fazem, / Façamos, vamos amar"... O trabalho desse recriador, ao buscar a renovação e a comunicabilidade no novo contexto sociocultural, abraça também a oportunidade de se referir criticamente à realidade brasileira, sem abdicar, é claro, do humor e da ironia da obra de Porter. Assim, a versão citada "Fiel a Você à Minha Moda" traz também versos como "Um pastor da Universal / Diz que tem poder verbal; / Mais que verbo, o tal / Uma verba tal / Me deu!" e "Rei da soja e outro grão, / Me frequenta o Henricão; / Grana e grão, / o Henricão / tem a granel". Outra versão, "Ah, Não me Diga" ("Well Did You Evah!"), dá conta de mostrar um encontro de milionários apartados da realidade do povo do país: "– Tá sabendo da enchente / Lá no Sul, ontem, de repente? / – Ah, não me diga! / Ah, que festa classe A!"... Trabalho de uma vida dedicada à poesia e à palavra cantada do também autor, sempre com engenho e arte, de longas letras voltadas à temática socioambiental e à de direitos humanos no Brasil, este panorama de letras faz com que o grande Cole Porter não se cale em nosso lugar e em nosso tempo.

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