O uso de câmeras corporais por policiais é uma política pública que ajuda a conter abusos no uso da força e municia investigações. Mas, se os protocolos de acionamento das gravações não são respeitados, ficam desprotegidos o cidadão e o bom policial. Segundo levantamento realizado pela Folha, foi o que se deu em 5 dos 25 casos de mortes decorrentes de intervenção policial registrados em boletins de ocorrência em julho na capital paulista. As câmeras foram ligadas somente após os agentes terem disparado armas de fogo. Em outros 5, não há menção ao uso do equipamento; em 1 é relatada falta de bateria. De acordo com uma diretriz da Polícia Militar de julho de 2025, é dever do agente acionar o dispositivo em ao menos 16 situações que exigem maior escrutínio público e controle de legalidade, como abordagem policial, perseguição de pessoa a pé ou acompanhamento de veículo, ações de busca e varredura, entre outras. A consequência da negligência no acionamento das câmeras é a opacidade das investigações, que afeta o trabalho da Polícia Civil e do Ministério Público. O acesso ao material gravado também é dificultado. Em 9 casos, a polícia pediu às autoridades que solicitassem as imagens por ofício ao batalhão. Desde julho de 2025, a Defensoria Pública enviou oito comunicados aos órgãos competentes relatando ocorrências sem gravação da abordagem, envio incompleto dos vídeos solicitados, acionamento tardio dos dispositivos e inoperância do sistema. Após relutar em endossar a tecnologia durante a campanha para governador em 2022, Tarcísio de Freitas (Republicanos) acabou apoiando a política, que custa aos cofres públicos não mais que cerca de R$ 4 milhões por mês. No último ano, porém, o método de uso dos equipamentos passou por uma alteração questionável: o acionamento deixou de ser contínuo e passou a ser manual, realizado pelo agente, de forma remota pela central de operações ou por proximidade com outra câmera policial. Mas, quanto menos discricionariedade do policial para acionar a câmera, melhor. A gravação completa deve ser regra. Trata-se, ademais, de um programa altamente popular. Na cidade de São Paulo, 80% apoiam o uso das câmeras por todos os policiais como forma de impedir ações violentas. Os resultados só serão plenamente alcançados, porém, com treinamento, respeito aos protocolos de gravação e armazenamento e a universalização da tecnologia. editoriais@grupofolha.com.br
C�mera desligada n�o protege cidad�o nem bom policial
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