Cl�udio Fontana conduz 'A Raiz' com lirismo e for�a c�nica no S�rgio Cardoso

Cl�udio Fontana conduz 'A Raiz' com lirismo e for�a c�nica no S�rgio Cardoso

A peça "A Raiz", de Newton Moreno, parte de uma premissa antropológica precisa: nas cosmologias andinas, o cultivo e o manejo do plantio pertenciam exclusivamente às mulheres, estabelecendo uma conexão sagrada entre a fertilidade da terra e a geração da vida. Dessa matriz mítica, o dramaturgo extrai a chave para abordar a vivência de uma criança andrógina em pleno processo de autodescoberta. O chão rural assume o peso de matéria viva, funcionando como memória do corpo, pertencimento e renascimento. Ao resgatar o conto oral e a fábula lírica, o texto dialoga com a poética de obras anteriores do autor, mas afasta-se do desfecho fúnebre e do aniquilamento trágico, marca de peças como "Agreste". A escolha é política. Em vez de construir um memorial da violência transfóbica ou enquadrar a dissidência de gênero sob a ótica da vitimização, Moreno concebe uma narrativa afirmativa. A trama expõe o choque familiar, o julgamento comunitário e as pressões normativas, mas sustenta o princípio de que a identidade brota do indivíduo como uma força espontânea da própria natureza, imune às tentativas de soterramento moral. A síntese dessa postura ecoa na máxima: "há verdades que a terra não enterra". Na Sala Paschoal Carlos Magno, a encenação de Elias Andreato aposta no despojamento e na contenção. O espaço converte-se em um tablado de confissão íntima, favorecido pela proximidade direta com a plateia. O desenho de luz de Cleber Eli traduz as oscilações da memória: focos secos nos momentos de cerceamento social contrastam com banhos de luz quente nas passagens de afeto e revelação. A trilha sonora, também concebida por Andreato, atua no ritmo da narrativa, sustentando a cadência da palavra e os silêncios da solidão. Cláudio Fontana assume sozinho a cena com economia de gestos. O ator transita com precisão entre o narrador distanciado e a vivência direta dos conflitos e alegrias do menino andrógino. Sem quebrar a tessitura da fábula, Fontana dá contorno e peso às figuras do entorno. O figurino de Gabriel Villela suspende categorizações binárias ao sobrepor tecidos, texturas, cores e acabamentos artesanais fluidos. Como elemento cênico ativo, um manequim de moulage vestido com trajes femininos opera ora como a presença materna, ora como espelho da própria criança em transição. O único ponto dissonante da montagem reside na inserção de imagens geradas por inteligência artificial na abertura e no encerramento da sessão. Ao tentar ilustrar visualmente o que o texto, o corpo e a palavra já evocam com clareza, a intervenção digital torna literal o que deveria operar no plano da sugestão, enfraquecendo a cumplicidade imaginativa indispensável à convenção teatral. Ainda assim, "A Raiz" conjuga contundência política e delicadeza formal ao alcançar uma dimensão arquetípica. A metáfora telúrica desloca o debate do preconceito do plano do desvio para o da natureza: se a planta não pode ser punida por desabrochar conforme sua semente, o indivíduo dissidente não pode ter sua humanidade cassada pela convenção moralista. Três perguntas para… … Cláudio Fontana Você construiu uma carreira em que a parceria em cena foi constante. O que mudou no seu modo de trabalhar quando se viu sozinho no palco? Do que sentiu falta e o que descobriu? Quando li esse conto do Newton Moreno, que recebi através do Elias Andreato —temos o costume de trocar textos para estudo—, a empatia com a dramaturgia chegou ao máximo da admiração. Era o auge da pandemia e queríamos colocar as palavras em ação pela criatividade. Fiquei muito comovido com a simplicidade e a poesia dele ao abordar esse menino andrógino. Não quis adaptar nada para um teatro realista ou psicologizado: decidi contar a história pela voz épica, permitindo que cada espectador criasse, pela imaginação, seus próprios personagens. Sempre ouvi que a solidão de um ator no palco era assustadora, que faltaria o socorro de um colega caso esquecesse uma fala, ou alguém com quem dividir o camarim e o pós-sessão. Mas a vontade de narrar essa história superou esses mitos. Amparado pela direção sensível do Elias, descobri o prazer da solidão de me fazer ouvir e de ver nos olhos do público o mesmo brilho de uma criança escutando uma história antes de dormir. O acolhimento substitui o preconceito durante os 50 minutos em que o texto povoa o teatro. Descobri o poder da palavra narrada e vi potencializada a minha função de ator como agente provocador. No monólogo intimista, o ator sente a respiração e a reação de cada pessoa na primeira fila. Você busca o contato visual direto com a plateia ou prefere mantê-la como uma presença difusa no escuro? Essa interferência da plateia —seja para acompanhar ou para cochilar no escurinho— faz parte do trabalho, e exercitamos a concentração para isso. No segundo dia da temporada, minha irmã sentou-se na primeira fila. Para simbolizar a fertilidade do(a) menino(a), usamos em cena um colar de sementes que ela havia me ajudado a escolher na gaveta da nossa mãe, já acamada. Quando tirei o colar da caixinha, ouvi minha irmã cochichar: "o colar da mamãe...". Quis rir e chorar ao mesmo tempo. Em momentos assim, ou quando percebo alguém dormindo ou incomodado, embaço a visão e busco o apoio dos olhares mais brilhantes, daqueles que demonstram interesse em trocar sentimentos comigo. Depois de décadas criando ao lado do Elias Andreato, o que essa intimidade cênica já resolve no silêncio e no olhar, pulando etapas que exigiriam semanas de negociação em sala de ensaio? O Elias já sabe o que me estimula como ator, e eu conheço a sensibilidade que ele empresta à direção. Essa intimidade traz transparência para escolhermos os caminhos: o silêncio dele muitas vezes me faz refletir mais do que qualquer recomendação rigorosa. Às vezes sinto que ele está presente comigo debaixo de um dos refletores, olhando com carinho para o que construímos juntos. Afinal, um monólogo não é tão solitário assim. Teatro Sérgio Cardoso | Sala Paschoal Carlos Magno – Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista. Sábado e domingo, 18h30. Até 20/11. Duração: 50 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 25 (meia-entrada) em sympla.com.br LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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