Circula��o de links de bets ilegais fica est�vel ap�s veto de Lula, mostra levantamento

Circula��o de links de bets ilegais fica est�vel ap�s veto de Lula, mostra levantamento

São Paulo Nos dez primeiros dias após a proibição das apostas online, a circulação de links de plataformas clandestinas no WhatsApp e no Telegram não aumentou, resultado que contrasta com alegações de representantes do setor de que a medida poderia ampliar o mercado ilegal. Entre 26 de setembro e 6 de outubro, foram identificados 1.845 links de apostas clandestinas nos dois aplicativos, principais meios para divulgação devido à dificuldade de fiscalização. O volume ficou abaixo da média registrada no restante do ano, de 2.440 links, e próximo da média de setembro, também de 1.870. Quando havia mercado regulado, as 85 empresas licenciadas pela Fazenda aderiam a regras de boa conduta na publicidade, tinham mecanismos de autoexclusão e pagavam impostos. Essas empresas ainda participavam de um sistema de autoexclusão do governo, que impedia o acesso das pessoas inscritas às bets regulares. Com o veto, essa fatia do mercado deixou de atuar, e só sobrou o mercado ilegal. 'Jogo do tigrinho' em celular - Rafaela Araújo -23.set.26/Folhapress Antes da proibição, a divulgação dos sites clandestinos já estava em baixa, diante de um pico de 4.270 links em dezembro do ano passado. Após o veto do governo das apostas online no país, os porta-vozes do setor passaram a destacar a existência de risco de crescimento do mercado clandestino, enquanto o governo intensificou a frequência de anúncios sobre a retirada do ar de plataformas ilegais. A ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) tem anunciado dados contestados por profissionais de saúde sobre o surgimento de sites ilegais depois do veto. O levantamento começou no dia 20 de setembro e desconsidera a data de criação dos sites, sua última edição e a existência de plataformas clandestinas durante o mercado regulado. Diego Terrani, CEO da empresa de cibersegurança Iron Security e parceiro da ANJL responsável pelo trabalho, reconhece a dificuldade de identificar se um site é novo ou não. Terrani já trabalhava para as bets derrubando sites que usavam indevidamente as marcas de seus clientes. Leia mais VEJA FRAGILIDADES EM LEVANTAMENTOS DAS BETSOs dados coletados pela Iron Security são baseados em um monitoramento da internet com inteligência artificial. O executivo confirma que a data exibida pelo levantamento é a do momento em que o robô identificou o site. "Pode haver casas que surgiram ou que já existiam e que nós identificamos só naquela hora." Após a Folha questioná-lo no último dia 27, o site passou a ter as datas de criação do domínio, emissão de certificado de segurança e o momento de detecção pela iniciativa Bet Legal. "Não queremos levar uma informação que não seja correta para o mercado", afirmou Terrani no dia 30. O coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Ambulatório de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Rodrigo Machado, diz que é impossível verificar se os dados estão corretos, porque não há auditoria oficial. "É muito diferente de contratarem uma empresa de pesquisa independente para aferir tais dados e apresentar um relatório." Segundo balanço do Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgado na segunda (6), o governo solicitou a derrubada de 13.241 domínios de apostas desde segunda. Também foi solicitada às plataformas a remoção de 3.552 páginas, perfis, canais, grupos e servidores: 1.974 páginas no Facebook, 560 perfis no Instagram, 900 canais e grupos no Telegram, 103 perfis no TikTok, 14 grupos no WhatsApp e um servidor no Discord. De acordo com servidores ouvidos sob reserva, a derrubada dos endereços sem asfixia financeira dos cassinos é enxugar gelo. É possível comprar uma bet pronta por R$ 1.500, segundo anúncios nas redes sociais. Após o bloqueio pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), basta mudar uma letra no domínio ou alterar o IP (espécie de número de identidade do portal) para voltar ao ar. Dados internacionais e estimativas de consultorias ligadas ao setor de apostas, como a H2 Gambling Capital, mostram que o veto ao jogo reduz as apostas no curto prazo, embora promova uma migração de parte dos jogadores para o mercado ilegal. Investigações de acionistas e vazamentos de funcionários mostram os elos comerciais entre parte das empresas do setor de apostas e o mercado considerado ilegal no Brasil, que engloba qualquer companhia do ramo sediada no exterior, bets clandestinas que usam os sistemas de grandes players do setor e os chamados mercados de previsão —plataformas como Kalshi e Polymarket em que é possível apostar em qualquer coisa. Documentos da BetFair vistos pela Folha mostram, por exemplo, que funcionários da empresa denunciaram embaixadores da marca (influenciadores contratados para promover a empresa), por divulgar, em maio, a plataforma de gestão de apostas SharkTool, que dá acesso a bets sediadas em Curaçao, à Kalshi e à Polymarket, não autorizadas no Brasil. Em nota, a Flutter, multinacional listada na Bolsa de Nova York que controla a Betfair, afirma que mantém uma parceria com o SharkTool, software independente voltado ao trading esportivo, modalidade de apostas também proibida no Brasil em que os preços dos prêmios são definidos pelos prognósticos dos concorrentes —como não há intermediação da casa, os prêmios costumam ser maiores. A cooperação, diz a Flutter, visa à possível disponibilização futura do software no Brasil, embora já seja possível baixá-lo. O conglomerado, além de dono da Betnacional, vende a sua tecnologia de trading esportivo para outros sites de apostas de mais de 47 países. Depois do contato da reportagem, a equipe do SharkTool desativou a possibilidade de apostar em sites proibidos. A ferramenta ainda está ligada a um canal do Discord acessado pela reportagem, em que os membros trocam informações sobre como fraudar documentos para acessar sites no exterior, também ilícitos sob a legislação nacional. Um relatório do grupo de acionistas Callisto Research sobre a Sportradar, empresa que vende probabilidades esportivas para definir premiações das bets, mostra ao menos três evidências de vínculo com empresas clandestinas, como fornecimento de produtos para sites ilegais nos EUA e no Brasil, processos de reguladores americanos por violações de norma e contratos com empresas russas e do Oriente Médio que atuam com criptomoedas. Segundo o relatório, antigos quadros seniores da Sportradar estimam que a exposição da empresa a operadoras não licenciadas possa representar entre 30% a 40% da sua receita total. Em nota, a companhia suíça diz que o relatório demonstra confusões fundamentais sobre a natureza da indústria e foi feito por investidores que apostaram contra a Sportsradar. "Nós trabalhamos exclusivamente com operadores licenciados e seguimos regras globais de compliance. Para a Stribe, criadora do jogo Aviator que é acusada pelo Ministério Público de uma postura conivente com o antigo mercado clandestino, o desafio é estrutural. "A distribuição da mesma tecnologia presente nas antigas bets autorizadas aos sites ilegais, apesar dos esforços dos fornecedores de jogos e probabilidades, afeta todas as empresas." A empresa diz "ter auxiliado contínua e proativamente na remoção de sites não autorizados e adotado medidas firmes para restringir o acesso aos nossos produtos em plataformas irregulares".

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