De tempos em tempos, a Cinemateca faz uma boa busca em seu arquivo, pede emprestados alguns filmes nas embaixadas ou consulados de países amigos do cinema e produz um belo ciclo de filmes, como esta 5ª Mostra SAC, até o dia 9 de agosto. Ali estão, para começar, algumas raridades. A principal é, claro, "Esposas Ingênuas", preciosidade que Erich von Stroheim produziu em 1922 para a Universal, que passará nesta sexta (31), às 17h30, com reprise em 9 de agosto, às 20h. Nesse momento, Stroheim era absoluto no estúdio para escrever, dirigir e montar seus filmes, como esta comédia sobre vigarista que se faz passar por conde russo em Monte Carlo, onde pretende encontrar vítimas na categoria enunciada no título. Não fica muito atrás do "Uma Tão Longa Ausência", de 1961. Feito a partir de um roteiro de Marguerite Duras, com ele, Henri Colpi ganhou a Palma de Ouro de 1961 em Cannes, dividida com "Viridiana", de Buñuel. A trama diz respeito a uma mulher que, após anos e anos esperando a volta do marido da guerra, encontra um mendigo que acredita —ou quer acreditar— ser o seu marido. É um desses casos de filmes que acabam um tanto esquecidos, apesar da roteirista. Colpi foi, no entanto, um personagem importante do cinema francês. Montador, trabalhou com Alain Resnais em dois filmes decisivos desse mesmo momento: "Hiroshima Meu Amor" e "O Ano Passado em Marienbad". No entanto, depois dessa Palma de Ouro, ele se dedicou muito mais a trabalhar para a televisão —chegou a ganhar um Emmy— e sua obra cinematográfica foi esparsa. Razão a mais para embarcar no filme. Já "O Manuscrito de Saragoça", produção polonesa de 1965, nos conduz ao fantástico e à aventura na adaptação do texto de Jan Potocki, que traz à frente Zbigniew Cybulski, na época dado como um James Dean polonês. Era um ator excelente, galã tipo Mastroianni ou Alain Delon e, como Dean, o rebelde por excelência. Também teve morte prematura, aos 49 anos. "A Paixão de Ana", de 1969, diz respeito ao amor entre Anna (Liv Ullman) e Andreas (Max von Sydow). Sendo um filme de Ingmar Bergman, não surpreenderá a ninguém que esse amor seja marcado por dores e infelicidades. Mas também tem talento de sobra ali. "O Signo do Leão", de 1962, é obra de um Eric Rohmer ainda iniciante —seu primeiro longa. Embora distante de seus trabalhos mais equilibrados, o filme traz um argumento bem à sua maneira, versando sobre um homem que, tendo acreditado ganhar uma fortuna de herança, gasta o que tem e o que não tem ao longo de um mês de verão —entre julho e agosto, Leão no zodíaco. Foi um belo fracasso e hoje é mais visto em função de seu autor. Nesse sentido, é o inverso de "Z", de 1969, um sucesso arrasador no tempo dos ditadores latino-americanos, depois esquecido. Em parte injustamente: Costa-Gavras, seu autor, merece atenção. Entre os destaques internacionais, acrescente-se "Pedro, o Negro", um Milos Forman de 1964, ainda na então Tchecoslováquia. Maratonar Um guia com dicas de filmes e séries para assistir no streaming O Brasil também vem com uma série marcante de filmes bem raros ou ignorados, destacando o trabalho de Roberto Pires, com "Redenção" —seu primeiro filme, antes de "A Grande Feira"—, e o último, "Césio 137" —bem fraco para o que foi o episódio de vazamento tóxico e para o que se esperava de seu retorno. Miguel Borges foi uma esperança do cinema brasileiro, desde que fez o marcante policial "Perpétuo Contra o Esquadrão da Morte", de 1967. Pode-se arriscar com "Consórcio de Intrigas", de 1980. O fato é que o diretor carioca, dado frequentemente como marginal, acabou aderindo ao governo Collor em 1990 e nunca mais se levantou. "Viagem ao Fim do Mundo", de 1968, e "O Mágico e o Delegado", de 1983, representam muito bem o cinema tremendamente original e independente de Fernando Coni Campos. Mas ainda dá para sentir falta de sua obra-prima, "Ladrões de Cinema". Para terminar, há David Neves, o mais suave dos diretores ligados ao cinema novo —quase se poderia dizer um Truffaut brasileiro. Ele vem com "Memória de Helena", de 1969, sua estreia no longa, e "Fulaninha", de 1986, revelação da ótima Mariana de Moraes. Além disso, ainda nesta sexta (31), às 19h30, há também a sessão da Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, com a clássica chanchada "Aviso aos Navegantes", de 1950, de Watson Macedo, sendo analisada por Flávia Cesarino Costa e Carlos Augusto Calil. Até o início do mês que vem, logo, se dará bem quem encontrar tempo para ver pelo menos uma boa parte desses filmes, que quase sempre oscilam entre o deslumbrante e o provocativo. Nestes dias, a programação da Cinemateca está de tirar o chapéu.
Cinemateca re�ne joias, de Stronheim a Henri Colpi e David Neves
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