Numa sala de entrevistas, James Gray se incomoda com a distância entre sua cadeira e a deste repórter. É que o diretor busca ter uma conversa mais próxima, digna de seus filmes, que retratam crises familiares à moda da antiga Hollywood. "O cinema é a forma de arte mais íntima. É como um sonho", diz ele à Folha durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em que exibe o seu filme mais recente, "Tigre de Papel", e outros da carreira. Nos últimos dias, ele ainda ganhou o prêmio Leon Cakoff e ministrou uma masterclass junto de Walter Salles. "No teatro, o ator sempre grita, mesmo que você tenha o melhor assento. Já um filme transmite detalhes íntimos de uma expressão facial. É um ótimo acesso a quem realmente somos e aos conflitos de nossa identidade." A intimidade de seus projetos já preencheu uma floresta misteriosa, em "Z: A Cidade Perdida", sobre um explorador que tenta restaurar a honra de sua linhagem, bairros perigosos de Nova York, caso de "Fuga para Odessa", em que um mercenário volta do exílio para se reconectar com o irmão mais novo, e até o espaço sideral, no encalço do astronauta de "Ad Astra", assombrado pelo pai ausente. Entre os flertes com gêneros como a ficção científica, Gray prioriza os Estados Unidos sombrios, em que homens teimosos se envolvem com mafiosos e são corrompidos pelas mentiras da terra prometida. Em "Tigre de Papel", que será exibido mais duas vezes no evento, essa sentença não é tão diferente. No novo longa do cineasta, que em partes lembra o seu "Os Donos da Noite" —em que dois irmãos, o dono de uma boate ligada à máfia russa e um tenente ambicioso, entram em rota de colisão—, um engenheiro e pai dedicado decide sonhar alto quando seu irmão, um ex-policial, sugere uma parceria. A ideia é oferecer consultorias ambientais para russos que exploram canais poluídos e outros espaços escusos. O sonho logo vira um pesadelo, como sugerem as luzes e sombras que invadem as casas do subúrbio, ora ofuscando a visão da dupla, ora anunciando ataques criminosos. É um código idealizado desde o roteiro e que atua como uma extensão visual dos dramas representados. Aspectos como esse, ao lado de histórias pautadas por impulsos humanos, com causas e efeitos bem definidos, fizeram de Gray um expoente atual do "melodrama", uma das tradições de Hollywood. Entre semelhanças com títulos exagerados como os de Douglas Sirk e o diferencial de retratar a repressão de sentimentos—em sua adaptação de Dostoiévski, "Amantes", o silêncio guia um homem que tenta achar um amor—, ele renega o título. "Não me acho importante. Eu já aprendi, do jeito fácil e difícil, que isso não é real. Só quero fazer o melhor com o estilo que admiro. Se quer chamar de filme clássico, aí é com você." Apesar do tom soturno de "Tigre de Papel", a ternura dos personagens resiste melhor que o habitual, e Gray sorri com a ideia de ter criado figuras "mais doces e ingênuas", mesmo que complexas. "Quando você envelhece e tem filhos, vê que o amor é muito mais importante do que imaginava", afirma o artista, que adapta traumas e vivências para a tela. "Tentei, conscientemente, encher o filme de calor. Queria mostrar que o mundo também pode ser destruído por boas intenções." Alguns anos atrás, por exemplo, Gray escalou Anne Hathaway e Jeremy Strong para interpretar seus pais no autobiográfico "Armageddon Time". No filme, um jovem judeu que desenha durante as aulas percebe o racismo e a desigualdade social que varrem os Estados Unidos às vésperas da eleição de Ronald Reagan, época em que ideologias conservadoras eram impulsionadas pelo fim da Guerra Fria. Não fosse a agenda atarefada de Hathaway —que este ano estrelou "A Odisseia", "O Fim da Rua", "O Diabo Veste Prada 2", "Mother Mary" e "Verity"—, "Tigre de Papel" teria sido uma continuação do título anterior. O imprevisto acabou servindo de carta branca para Gray, ainda que inspirações pessoais, como o câncer de sua mãe e o envolvimento do pai com o crime, sejam evidentes. Ainda assim, o diretor não parece querer se afastar das repetições. "Quantos autorretratos Van Gogh fez? A ideia de que você precisa encontrar algo novo o tempo todo é muito comercial. Um novo produto, panos de limpeza novos e melhorados. O artista não deve fazer isso. Ele deve fazer você entender as impressões mais íntimas dele." Em setembro, quando "Tigre de Papel" foi exibido no Festival de Nova York, Gray disse ter concluído as gravações muito antes de Donald Trump se apropriar da palavra para descrever as ações da Ucrânia. O termo é usado para descrever alguém que se diz ameaçador, mas, na prática, não tem força alguma. Na trama, os irmãos são forçados a enfrentar uma série de desilusões, ao mesmo tempo em que tentam transparecer um status pouco convincente. O cineasta afirma que todos os filmes, com ou sem intenção, são políticos, mas critica obras que se aproximam da propaganda. "Houve um sufocamento da ideia de ambiguidade em favor de promover uma ideia específica, geralmente que faça o artista parecer bom e estar do 'lado certo'. Sempre tentei me afastar dessa crença para contar histórias com clareza. Quando isso acontece, mais ambiguidades e complexidades podem emergir." "Joseph Goebbels [o Ministro de Propaganda da Alemanha nazista] via o cinema como um meio para se pregar uma verdade. Isso é muito perigoso."
Cinema � a arte mais �ntima, diz o diretor James Gray, que exibe o seu 'Tigre de Papel'
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