Cigarros falsificados passam a ser produzidos dentro da Uni�o Europeia

Cigarros falsificados passam a ser produzidos dentro da Uni�o Europeia

Em uma manhã de domingo no mercado de Anderlecht, em Bruxelas, homens jovens abordavam os clientes: "Marlboro? Kent? Camel?", sussurravam, escondendo alguns maços de cigarro sob as camisetas. Em poucos minutos, o FT recebeu uma oferta de entrega em domicílio. "2,50 euros (R$ 14,88) o maço se comprar 100", disse um homem de pouco mais de 20 anos. "Vou te passar meu WhatsApp, posso entregar a qualquer hora." Um ex-policial belga, que passou décadas investigando o comércio ilegal de tabaco, observava as negociações. Os homens que vendiam os cigarros —quase certamente falsificados e produzidos localmente— eram apenas os peixes pequenos, disse ele. O "verdadeiro negócio" não estava longe dali.Durante décadas, a Europa enfrentou dificuldades para combater o contrabando de cigarros provenientes de produtores de baixo custo, como Rússia e Belarus. Agora, grupos criminosos organizados estão cada vez mais fabricando dentro do próprio bloco o que investigadores descrevem como cigarros falsificados "Made in EU". A Europol, agência policial conjunta da União Europeia, afirma que controles mais rigorosos ao longo de toda a fronteira leste do bloco após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia aceleraram essa mudança. Ao mesmo tempo, o aumento dos impostos sobre o tabaco em mercados de preços elevados, como França, Bélgica e Reino Unido, tornou a produção local mais lucrativa para grupos criminosos. "Graças ao aumento dos controles nas fronteiras, vemos uma produção crescente dentro da União Europeia, algo que não era tão comum no passado", disse ao FT Giuseppe Lopez, chefe do EFECC (Centro Europeu de Crimes Financeiros e Econômicos) da Europol. "As organizações criminosas por trás dessas estruturas estão tentando ficar mais próximas dos mercados de destino onde querem vender os cigarros falsificados", acrescentou. O Tribunal de Contas Europeu afirmou em um relatório publicado na terça-feira (8) que instalações clandestinas de fabricação de cigarros foram detectadas em quase todos os Estados-membros, em "escolhas estratégicas" de grupos criminosos organizados para obter acesso mais direto aos consumidores.Desde 2018, o número de fábricas clandestinas descobertas em todo o continente aumentou quase 80%, de 47 para 83 no ano passado, segundo a Europol. Em 2016, a alfândega belga desmantelou apenas uma fábrica ilegal de cigarros, enquanto neste ano já encontrou 11. Aumentos sucessivos dos impostos sobre o tabaco, adotados em grande parte da Europa na última década enquanto os governos buscavam reduzir o tabagismo e melhorar a saúde pública, ampliaram a diferença entre o preço dos cigarros legais e dos falsificados. O consumo de cigarros falsificados cresceu 13% em toda a Europa no ano passado em relação ao ano anterior e agora representa quase metade do mercado ilegal de cigarros, segundo estimativas da KPMG, refletindo uma mudança em relação ao comércio de contrabando. A perda total de arrecadação tributária da União Europeia com as vendas ilegais no ano passado foi de 16,7 bilhões de euros (R$ 99,1 bilhões), segundo a consultoria. Na França, que iniciou um programa de fortes aumentos de impostos em 2018 e onde os cigarros legais agora custam cerca de 13 euros (R$ 77) o maço, quase um em cada cinco cigarros consumidos no ano passado era falsificado, segundo a KPMG. Não há evidências de que os cigarros falsificados sejam mais perigosos que os legais e de marcas conhecidas, segundo Anna Gilmore, professora de saúde pública da Universidade de Bath. "Cigarros são mortais, ponto final", afirmou. Uma das fábricas belgas de cigarros falsificados ficava escondida em um galpão anônimo na cidade de Fleurus, na região da Valônia, a 45 minutos de carro de Bruxelas.Quando o FT entrou no local em uma tarde de julho, uma hora depois de a polícia ter realizado uma operação, agentes carregavam caixas de cigarros Marlboro falsificados para vans que aguardavam do lado de fora. Esteiras transportadoras, máquinas de embalagem e equipamentos para processamento de tabaco, muitos deles comprados em sites chineses como o Alibaba, ocupavam o galpão. Cigarros ainda estavam espalhados pelo piso de concreto, onde trabalhadores os haviam deixado cair quando os agentes invadiram o local. Nove homens albaneses e bielorrussos viviam dentro do galpão, informou a alfândega belga. Trabalhando em turnos, eles dormiam em beliches espremidos em dormitórios feitos de compensado e cozinhavam em uma pequena cozinha ao lado da linha de produção. "Não é o pior lugar em que já estive, mas também não é dos mais bonitos", disse um dos agentes que desmontavam a fábrica. "Eles tinham uma cozinha e vegetais frescos porque cozinhavam ali. Tinham um banheiro, ao lado do chuveiro." A estrutura era familiar aos investigadores. Agentes da alfândega belga encontraram fábricas semelhantes em uma antiga granja de galinhas, em um antigo hotel para animais de estimação e em unidades industriais anônimas espalhadas pelo país. Durante outras operações, agentes encontraram famílias e, ocasionalmente, crianças trabalhando juntas. Alguns são migrantes vulneráveis recrutados por redes criminosas, enquanto outros aceitam conscientemente trabalhos ilegais porque oferecem remuneração melhor que as alternativas, segundo a alfândega belga.Sophie, mãe de duas meninas que havia acabado de se mudar para Fleurus, disse que jamais imaginou que criminosos organizados estivessem operando no galpão a poucos metros de sua nova casa. "É estranho... eu nunca esperaria algo assim aqui", disse ela, apontando para o parquinho em frente ao galpão. No ano passado, cigarros falsificados encontrados em fábricas ilegais representaram mais de dois terços de todos os cigarros apreendidos pela alfândega belga. Cigarros falsificados são vendidos em Anderlecht por 2,50 euros (R$ 14,88) o maço. Uma fábrica capaz de produzir até 1 milhão de cigarros por dia pode encher um contêiner em 10 a 14 dias. A esse preço, a venda do conteúdo é suficiente para recuperar os cerca de 1,4 milhão de euros (R$ 8,29 milhões) estimados como custo para montar uma fábrica, calcula a Philip Morris, maior empresa de tabaco listada em bolsa do mundo. As vendas seguintes geram lucros muito elevados. "É um negócio de baixo risco e alta recompensa", disse o ex-policial belga. O crescimento dos cigarros falsificados "Made in EU" ocorre enquanto Bruxelas se prepara, neste ano, para a maior reformulação das regras da União Europeia sobre o tabaco em mais de uma década. O tabaco bruto pode ser importado legalmente para a União Europeia e está sujeito a um monitoramento muito menor que o dos produtos de tabaco acabados, permitindo que grupos criminosos desviem carregamentos para fábricas ilegais.A Comissão Europeia propôs no ano passado incluir o tabaco bruto no sistema eletrônico de controle e circulação de produtos sujeitos a impostos especiais de consumo da UE, o que permitiria às autoridades rastrear os carregamentos em todo o bloco. O tabaco produzido na própria Europa, com Espanha e Itália entre os maiores produtores do bloco, também é frequentemente encontrado nas cadeias de abastecimento de fábricas ilegais de cigarros, segundo autoridades aduaneiras. A proposta, que ainda está sendo negociada pelos Estados-membros, também incluiria impostos mínimos mais altos sobre o tabaco em todo o bloco. A indústria do tabaco há muito tempo alerta que o aumento dos impostos estimulará o comércio ilegal, argumento rejeitado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e por outros especialistas em saúde pública. "A solução não é reduzir os impostos, mas garantir uma fiscalização robusta e sistemas independentes de rastreamento dos produtos", disse Martin McKee, da London School of Hygiene and Tropical Medicine. Mas fazer cumprir as regras se tornou cada vez mais complexo à medida que o comércio ilegal evoluiu. Investigadores dizem que não existe uma única "máfia dos cigarros". Em vez disso, redes criminosas multinacionais recrutam trabalhadores, técnicos e distribuidores de diferentes partes da Europa. Algumas também estão envolvidas no tráfico de drogas e em outras formas de crime organizado.Em vez de concentrar a produção em uma única grande fábrica, os grupos tendem a dividir as operações entre vários locais, armazenando o tabaco, fabricando os cigarros e embalando-os em diferentes endereços para reduzir o impacto de operações policiais. A Bélgica se tornou um polo do comércio de cigarros falsificados graças à sua densa rede de rodovias e à proximidade de alguns dos portos mais movimentados da Europa, mas o problema se estende por todo o continente. Em junho, autoridades espanholas apreenderam 38,4 toneladas de folhas de tabaco, além de armas de fogo, máquinas para fabricação de cigarros e 170 mil euros (R$ 1,01 milhão) em dinheiro. Autoridades da Lituânia também relatam que o consumo de cigarros falsificados aumentou fortemente no país, passando de cerca de 1% em 2021 para aproximadamente 7% no ano passado. Em um episódio ocorrido na Bélgica no ano passado, a polícia interveio depois que um grupo criminoso invadiu uma fábrica ilegal de cigarros operada por uma quadrilha rival e fez os trabalhadores reféns. "A competição entre esses grupos está aumentando", disse um dos agentes da alfândega belga. "As pessoas sabem que podem ganhar muito dinheiro com isso."

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