Cientistas mapeiam poss�vel segredo da longevidade de Jonathan, tartaruga de 194 anos

Cientistas mapeiam poss�vel segredo da longevidade de Jonathan, tartaruga de 194 anos

Cientistas podem ter identificado um dos segredos da longevidade da tartaruga Jonathan, 194, o animal terrestre mais velho de que se tem notícia. Um estudo publicado nesta quarta (7) indica que o réptil tem marcadores genéticos associados ao envelhecimento, como outros organismos de idade avançada, mas preserva uma baixa "desordem" em áreas que controlam genes ligados à função mitocondrial, semelhante à encontrada em indivíduos jovens. Tal característica, chamada de baixa entropia de metilação, pode ser uma das chaves para a longevidade da tartaruga-gigante-de-Aldabra (Aldabrachelys gigantea), sugerem os 22 autores do estudo publicado na revista Science Advances. Os autores do trabalho são de instituições nos Estados Unidos, Alemanha, Dinamarca, Reino Unido e Santa Helena. O trabalho foi coordenado por Stephen Clark, do Centro de Câncer Vanderbilt-Ingram. Ele preside a Fundação Kallel, organização sem fins lucrativos que pesquisa intervenções contra doenças relacionadas ao envelhecimento e formas de ampliar a longevidade humana. A idade exata de Jonathan é desconhecida, mas fotografias de 1882, ano em que foi levado à ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, indicam que o espécime já tinha pelo menos 50 anos. Assim, sua data de nascimento estimada seria 1832. Como não foram autorizados a coletar sangue pelo potencial risco à saúde do animal, os pesquisadores obtiveram o DNA dele a partir de raspagem de células do interior da boca. Depois, compararam suas sequências genéticas com as de quatro indivíduos da Aldabrachelys gigantea, dois jovens de 5 e 12 anos, e dois adultos de cerca de 90 anos. Os cientistas analisaram também o epigenoma, conjunto de modificações químicas que ajudam a controlar quais genes ficam ativos ou inativos sem alterar a sequência do DNA. Uma delas é a metilação, que funciona como pequenas marcações químicas no DNA, quase como post-its inseridos nas páginas de um livro. Com o envelhecimento, a distribuição dessas marcas tende a ficar menos organizada. É o que os pesquisadores chamam de aumento da entropia de metilação. "Entropia significa desordem", disse Clark à Folha. Ele compara o fenômeno a um quarto inicialmente arrumado que, depois de alguns dias de uso, fica cheio de roupas e objetos espalhados. "A metilação é uma marca química adicionada ao DNA que ajuda a regular como os genes são ligados e desligados." Foi justamente aí que Jonathan surpreendeu. Na maior parte do genoma, sua entropia era alta, compatível com a idade. "Jonathan, nesse aspecto, parece muito velho", diz Clark. Contudo, em 272 regiões promotoras que ajudam a controlar a atividade dos genes, a entropia era tão baixa quanto na tartaruga de cinco anos. Muitos desses genes estão ligados às mitocôndrias, estruturas celulares responsáveis pela produção de energia. A hipótese é que manter organizadas essas regiões ajude a preservar a atividade de genes ligados à função mitocondrial. A produção eficiente de energia, por sua vez, favorece processos como reparo do DNA, manutenção dos telômeros, que protegem as extremidades dos cromossomos, e processamento de RNA. Outros genes entre os 272 encontrados estão ligados justamente a essas funções. O artigo, portanto, não pode ser traduzido como a descoberta de um "gene da longevidade", segundo Clark. É um primeiro passo para compreender quais características genéticas e epigenéticas podem estar associadas à idade excepcional de Jonathan. "Não sabemos se isso é o que o mantém jovem ou se é apenas uma consequência", afirma. Será preciso estudar outras tartarugas longevas para descobrir se Jonathan é realmente excepcional ou se outros animais compartilham essas características. Para a geneticista Mayana Zatz, que pesquisa centenários e supercentenários brasileiros no Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP e comentou o artigo a pedido da reportagem, o estudo reforça a importância de olhar além da sequência do DNA nas pesquisas sobre longevidade. "A diferença entre você ver só o DNA e ver o epigenoma é que na metilação você vê a expressão, como os genes se expressam, se estão ativos ou silenciados", afirma. O grupo dela também investiga metilação, função mitocondrial e reparo do DNA em pessoas que ultrapassaram os cem anos. Assim, espécies excepcionalmente longevas podem oferecer pistas sobre mecanismos de envelhecimento compartilhados entre animais. Outros estudos similares encontraram características epigenéticas associadas a raças de cães, indicando que raças menores e as fêmeas tendem a viver mais do que cães maiores e machos, de acordo com a pesquisadora. "Eu acho muito legal a dedicação a estudar esses animais longevos, porque isso vai poder trazer informações relevantes para o estudo de humanos." Esse também é um dos objetivos da Fundação Kallel. Segundo Clark, a organização pretende estudar animais longevos em busca de novos alvos e, no futuro, testar em humanos medicamentos já existentes que possam atuar em mecanismos associados ao envelhecimento. "Como uma fundação sem fins lucrativos, dependemos de financiamento de doadores." Para a pesquisa inicial com Jonathan, ele e sua equipe tiveram um financiamento de US$ 50 mil (cerca de R$ 250 mil). Agora, pretendem novos apoios para investigar formas de prolongar os anos de vida saudável e prevenir doenças crônicas associadas à idade.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.