Cidades do Alentejo, em Portugal, unem passado e presente com rel�quias que desafiam o tempo

Cidades do Alentejo, em Portugal, unem passado e presente com rel�quias que desafiam o tempo

A duas horas de Lisboa, onde ruas agitadas nunca param, viajantes conhecem paisagens e monumentos do Alentejo com calma e paciência. É que o lema da região, "com vagar", diz respeito a um ritmo longe do frenesi de redes sociais e centros urbanos. Equivalente a um terço de Portugal, a província se divide em quatro sub-regiões e vai muito além de vinhos e azeites que conquistam o mundo. Afinal, são muitas as relíquias espalhadas pelas vilas e cidades, onde passado e presente se misturam e o tempo parece correr de outra forma. Já na entrada de Évora, a cidade-museu do Alentejo, por exemplo, o visitante é recebido por muralhas que surgiram no Império Romano, foram refeitas durante o domínio islâmico na Europa e se expandiram na Idade Média. O Largo Conde de Vila Flor, onde fica a pousada Convento Évora, com quartos a partir de R$ 650, resultou dessa mistura de épocas. Isso porque, além da hospedaria instalada em um mosteiro do século 15, o lugar abriga o Templo de Diana, monumento romano que celebra a deusa —mas, na prática, surgiu de desejos do imperador Augusto—, a Sé de Évora, catedral medieval e a mais importante da área, que exige cerca de R$ 30 para visitação, e o centro de arte e cultura da região —ironicamente, era lá que funcionava o Tribunal da Inquisição. Não quer dizer que os fantasmas tenham sumido. A alguns metros dali, a Capela dos Ossos, cuja entrada custa quase R$ 40, une caveiras, troncos e ossadas de centenas de mortos do século 17. Dentro da Igreja de São Francisco, o monumento aguarda com a frase "Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos", estimulando reflexões sobre a finitude da vida. Na verdade, o espaço nasceu para liberar terrenos que serviriam à urbanização, antes ocupados por cemitérios. Quase ao lado, também há algo de mórbido na praça do Giraldo, o coração do centro histórico de Évora, onde há cafés, lojas, uma igreja renascentista e uma fonte barroca. É que o local celebra o cavaleiro Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, que teria decapitado vigias muçulmanos ao reaver o domínio europeu sobre a cidade. Reza a lenda que ele carregou duas cabeças, espalhando medo e comprovando o sucesso de sua investida. Até hoje, seu brasão de armas representa a cidade. Apesar do olhar ao passado, há ainda alguma atmosfera ligada à juventude e ao agito de hoje. Isso se dá não só pela Universidade de Évora —os jovens estudantes, inclusive, formam uma parcela considerável da população—, como também por ocasiões como a Feira de São João, próxima das festividades juninas que animam o Brasil. A festa de mais de 500 anos surgiu de encontros entre agricultores, criadores de gado e comerciantes, que se reuniam numa determinada época para negociar sementes, animais e ferramentas, e é hoje a maior celebração do Alentejo. A reportagem presenciou uma das noites do evento, que ocupa o Jardim Público de Évora, e viu hectares cheios de barracas, que vendiam roupas, utensílios e comidas típicas, e brinquedos de diversão como o Booster Maxxxx, uma torre que vira corajosos de ponta-cabeça a 45 metros do chão. Também no parque, um palco cercado de food trucks recebe uma programação musical diversa. Na noite em questão, uma multidão acompanhava o cantor Tim, que dias antes levara o rock da banda Xutos & Pontapés ao Rock in Rio Lisboa. A noite só não era mais intensa que os quadros expostos no Palácio dos Duques de Cadaval. Até outubro, o espaço reúne obras de artistas indianos contemporâneos. Boa parte dos quadros flerta com o erotismo e explora a transcendência do corpo. Construído sobre ruínas árabes, o palácio era uma das residências temporárias de monarcas portugueses e hoje recebe mostras gratuitas de culturas diversas. É o tipo de versatilidade que a Évora, patrimônio da Unesco desde 1986, quer reforçar no próximo ano, quando será a capital europeia da cultura e receberá grandes atrações mundiais, ainda a serem divulgadas. A cerca de 40 minutos de Évora, a cidade de Estremoz chama a atenção por seu castelo, cuja Torre das Três Coroas, erguida ao longo de três reinados diferentes, alcança 27 metros de altura. Não é preciso gastar nada para atravessar as muralhas do castelo, repleto de casinhas, cafés e lojas de quinquilharias —embora sejam poucos os que ainda moram ali dentro. Já a torre, também gratuita, fica sobre a Pousada Castelo Estremoz, e é necessário entrar no local para acessar a vista panorâmica. Embora o percurso seja curto, o chão irregular dificulta a passagem de carros e a caminhada, tornando-a até perigosa para crianças e idosos. Isso, a depender da época, sem falar no calor extremo, que em junho resultou em alerta de emergência pela Europa. No mais, é possível contornar o desgaste nos vários restaurantes espalhados pela cidade, entre os quais se destaca a Mercearia Gadanha. A brasileira Michelle Marques comanda o estabelecimento e mistura receitas típicas de Portugal e do Brasil —um exemplo são os pastéis de cação, que juntam a crocância de pastéis de vento ao frescor das sopas de cação em porções de quase R$ 100. Entre outros destaques estão os croquetes de cordeiro (cerca de R$ 87) e a carne de porco preto servida com miga (quase R$ 170), isto é, prato típico com pedaços de pão amanhecido que são amolecidos e fritos em gordura com alho, formando uma espécie de pasta. Depois do almoço na Mercearia Gadanha, basta dar alguns passos para visitar o Museu do Azulejo, onde fica a maior coleção privada de azulejos portugueses. De azulejos do século 13, que unem azul e branco, a peças desenhadas por pintores como Salvador Dalí, vale fazer uma visita guiada e com muita paciência, já que anos de história se inscrevem em cada parede. A calma também ajuda os que querem visitar o Paço Ducal, onde vivia a dinastia de Bragança, a última a governar Portugal antes do fim da monarquia, e localizado em Vila Viçosa, a 20 minutos de Estremoz. Os quase R$ 50 do ingresso são compensados, já que é possível visitar aposentos deixados pelos últimos monarcas. Entre camas com tecidos luxuosos, mesas grandes, uma enorme cozinha com utensílios de cobre e salões de festas, o museu acaba de abrir salas dedicadas à relação histórica entre Portugal e o Brasil. Entre móveis e pinturas do século 18, é um espaço que remete ao regime de D. João 6º, que mudou a história ao transferir a corte real para o Rio de Janeiro, em 1808, ao fugir das investidas de Napoleão Bonaparte. Mais tarde, quando a fome voltar, vale dirigir 10 minutos até Borba para conhecer seus bares e a Rota do Mármore. Integrante da Rota do Mármore, região importante para o turismo alentejano, a cidade organiza itinerários por botecos que costumam variar entre R$ 60 e R$ 200 por pessoa —entre os tours mais conhecidos estão os do grupo Rota do Mármore. Neles, é possível provar porções de peixes como sardinhas e carapaus, experimentar fritadas de caracóis, iguaria tradicional entre portugueses, e se refrescar com o gaspacho tradicional, a sopa fria preparada com pedaços de pão, cebolas, tomates e temperos. De ir além dos vinhos e azeites alentejanos, esse é um roteiro para os que querem largar os celulares e lembrar que nem tudo precisa ser feito às pressas —no verão europeu, quando parece que o Sol jamais se põe. O jornalista viajou a convite da TAP e do Rock in Rio

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