[RESUMO] A versão para os cinemas do poema épico "A Odisseia" prometia ser o filme do ano, mas resultou em um fracasso de proporções também colossais. Após incontáveis sucessos de crítica e bilheteria, o cineasta Christopher Nolan trombou na própria ambição, agarrou-se ao maquinário de Hollywood e perdeu de vista, ao adotar ideário progressista, a profundidade que Homero exige. Para resenhista, escolhas equivocadas fizeram algo bem mais grave do que apenas mais um filme fajuto: indicam ainda um cenário de "extinção da memória" que ameaça nossa concepção de mundo. Elon Musk tem razão: Christopher Nolan se vendeu. Não para a cultura woke, como pensam muitos. Ou para o progressismo moderno, segundo outros. Mas sim para o analfabetismo funcional. A versão cinematográfica de Nolan para "A Odisseia", baseada no poema épico de Homero, é um desastre completo. Nada sobra. No aspecto técnico, é impressionante que artistas tão talentosos (e vencedores do Oscar) tenham feito um filme com uma montagem canhestra, uma fotografia sem cor ou brilho e uma trilha sonora composta no piloto automático. Sobre os atores renomados, Matt Damon (Odisseu) não convence ninguém, Anne Hathaway (Penélope) faz caras e bocas, Samantha Morton (Circe) é desperdiçada e John Leguizamo (Eumeu) sempre será o eterno Benny Blanco do Bronx (vejam o clássico de Brian De Palma, "O Pagamento Final", e comprovem). E Elliot Page (antes Ellen Page, a estrela de "Juno", que mudou de nome ao se assumir como homem trans)? E Lupita Nyong'o, atriz negra filha de quenianos? Segundo rumores que circularam pela internet nos últimos meses, teriam sido impostos pelo "Departamento de Diversidade, Igualdade e Inclusão" de Hollywood para interpretarem, respectivamente, Aquiles (o maior soldado da Grécia Antiga) e Helena de Troia (a mulher que fomentou a Guerra de Troia). Também nesses dois casos, a escalação falhou miseravelmente. O espectador jamais sente um pingo de emoção nessas atuações (como se não bastasse o malogro, Page não é Aquiles, mas Sinon, um personagem que só existe na "Eneida" de Vírgilio, outro épico que tem a Guerra de Troia como mote). Na mesma toada, a direção de Christopher Nolan, cineasta que construiu uma filmografia idiossincrática dentro da máquina impessoal da indústria americana, parece a de um estreante em Super 8. Não há mise-en-scène, não há "blocking" (como dizem os cinéfilos). Não há nada. Há apenas a obsessão por filmar tudo numa câmera mastodôntica apelidada de Imax. Isso, porém, é apenas a superfície do problema. A existência de um filme como "A Odisseia" indica algo gravíssimo: estamos vivendo a "extinção da memória". Homero (que, na visão equivocada de muitos, não teria existido) é o poeta que simboliza o repositório dessa memória (a pena treme na hora de escrever "tradição", já que os conservadores estragaram esse vocábulo, mas é o que nos resta). O poeta grego (ou melhor, da Anatólia) guarda em suas obras uma meditação implacável sobre as virtudes da natureza humana e como elas sobreviveram naquilo que Eric Voegelin chamava de "etiologia da desordem". Na "Ilíada", outro épico de Homero, do século 8º a.C., a guerra civil entre os mortais em Troia reflete a guerra civil entre os deuses no Olimpo. É uma saga sobre a força da destruição em todos os estratos de uma sociedade imperial (como observou a filósofa francesa Simone Weil). Já "A Odisseia", continuação da "Ilíada", é um drama assombrado pela reconciliação entre os homens e as divindades, articulada na história de Odisseu, o sujeito astuto obrigado a recuperar sua identidade como soberano de Ítaca (e responsável pela artimanha que terminará o massacre de Troia). A jornada de Odisseu de volta para casa, após a guerra, simplesmente influenciou toda a literatura posterior, de Shakespeare a James Joyce, passando por Guimarães Rosa e Jorge Luis Borges. Querer interferir nessa tradição é para poucos. Exige ousadia. Exige coragem. E, desta vez, Christopher Nolan provou que não tem nenhuma dessas qualidades. Seu longa embaralha de propósito a trama de Homero, com a pretensão típica de quem se acha "inovador". Penélope, a mais fiel das esposas, insinua no filme querer ser a rainha de Ítaca no lugar do esposo desaparecido há 20 anos. Telêmaco, o mais leal dos filhos, perdeu toda a nobreza da juventude e virou apenas mais um "amigo da vizinhança" (não à toa, é interpretado por Tom Holland, o Homem-Aranha da geração Z). Atena, a deusa de "olhos glaucos", revela-se, interpretada por Zendaya, uma manifestação psíquica de um estresse pós-traumático (não, não é brincadeira). Na prática, Nolan faz algo muito mais perigoso do que qualquer militante da cultura woke faria. Ele substitui uma lembrança por outra. Dentro de alguns anos, a juventude não lerá Homero (afinal, estamos no fim da "era da leitura", segundo a revista The Atlantic). Saberá dos feitos de Odisseu por meio deste filme —e de outros produtos bastardos, como "Troia" (2004), o longa baseado na "Ilíada" dirigido por Wolfgang Petersen (que, comparado a Nolan em termos de épicos gregos, é quase um David Lean), ou a série pop Percy Jackson, em livros e filmes, repleta de monstros e heróis da mitologia grega adaptados para a sensibilidade progressista. Assim, a memória perde a noção de hierarquia e se transforma em algo desprovido de sentido —e mais: de maravilhamento. Essa praga contamina o épico fajuto de Nolan. Em cenas como a do feitiço de Circe, a do Ciclope, a das Sereias a de Cila e Caríbdis, perde-se o sublime, traduzido em termos modernos pelo horror que afastará qualquer espectador da noção de que, segundo Homero, o mundo é um lugar repleto de mistério e beleza. Eis aqui o coração do analfabetismo funcional de Christopher Nolan. Sua "odisseia" é um naufrágio artístico porque ele não quis entender esse centro secreto que coordena a tradição homérica. E, portanto, ao dizimar a memória de uma cultura que já desapareceu por meio de um arrasa-quarteirão, ele contribui para o fim da nossa própria sociedade. A ironia é que esse tema, o crepúsculo de uma civilização, também está presente no longa e sempre foi uma preocupação na obra do diretor inglês (vejam o hermético "Tenet", de 2020). Ocorre que ele se tornou parte do problema que tenta diagnosticar. Talvez por se inspirar demais nos filmes de Ridley Scott (como "Gladiador", de 2000, e "Cruzada", de 2005), Nolan tenha se preocupado muito mais com o mecanismo das suas histórias do que com o espírito que as fundamenta. Essa tática deu certo nos longas anteriores, sobre super-heróis (a trilogia "Batman"), guerra ("Dunkirk") e física quântica ("Oppenheimer"), todos sucessos de crítica e de bilheteria, o que deu carta branca ao diretor em Hollywood. Porém, com Homero, que exige profundidade de alma para a leitura de suas sagas, esse vício se torna pecado mortal. A "extinção da memória" incentivada pelo longa de Nolan abre ainda mais o fosso contemporâneo entre o passado, o presente e o futuro —e prejudica o próprio exercício da atividade crítica. O filme deve chegar ao bilhão de dólares de arrecadação, ganhará prêmios, e os espectadores vão comentá-lo de forma incessante, mas, depois de dois meses de exibição, ninguém mais levará a sério o cineasta como artista. E por uma razão simples: os críticos foram subornados para elogiá-lo sem pudor —e ninguém mais confia neles. Não se trata de um suborno financeiro, mas de um suborno da consciência. As elites intelectuais que apoiarão o filme e o diretor estão unidas neste abraço de náufragos. Elas têm pavor de se aliar ao bicho-papão encarnado em Elon Musk, o trilionário amestrado da direita que anteviu essa mudança para pior na obra de Nolan, pois se submeteram a um progressismo beócio que se despedaça a olhos vistos nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Em ambas as trincheiras, Homero virou estopim para uma guerra cultural prestes a se tornar a nova Troia. Surge então a pergunta: o que levou Nolan, o sujeito que nos deu momentos memoráveis no cinema popular, a cair nesta esparrela? Em seu clássico "A Revolta das Elites", um outro Christopher, Lasch, nos ajuda a entender. Depois de anos subvertendo o sistema hollywoodiano, Nolan ficou milionário. Podemos especular que, como qualquer um que passa a fazer parte de um grupo de pessoas que se consideram superiores, ele sofre agora da arrogância epistêmica de viver em um universo de imagens e abstrações, distinto da realidade palpável, habitada por homens e mulheres comuns. Para o diretor de "O Grande Truque" (2006), a única coisa que importa é o controle acima de tudo, inclusive sobre o público que paga as suas contas. E Homero não admite isso: sua poesia está aberta para o imprevisível, o excesso e a loucura, que transformam os seus versos em uma performance que exige todo o nosso ser. Por isso "A Odisseia", o verdadeiro épico, não é para os avaliadores esnobes que querem fazer parte do maquinário —e sim para a audiência que deseja recuperar, mesmo que por um instante, o reencantamento do mundo. O triste caso de Nolan é a evidência do paradoxo já cantado por Bob Dylan (outro bardo que se inspira de fato nas melodias homéricas): "Não há sucesso como o fracasso/ E esse fracasso, afinal, não é sucesso algum". Será que, daqui a alguns anos, o mesmo cineasta que prometia tanto e que parecia ser um obstáculo contra a "extinção da memória" retornará com força total, provará que Elon Musk sempre esteve errado e, enfim, nunca mais nos fará gritar em voz alta (parafraseando o bordão de um certo presidente americano): "Make Nolan Great Again"?
Christopher Nolan n�o entendeu nada da 'Odisseia' de Homero
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