Chris Evans e Anya Taylor-Joy brilham no caos sat�rico de 'Sacrif�cio'

Chris Evans e Anya Taylor-Joy brilham no caos sat�rico de 'Sacrif�cio'

O grego Costa-Gavras, 93, é talvez o maior cineasta dedicado a filmes políticos, responsável por obras-primas como "Z" (1969) e "Estado de Sítio" (1972). O francês Romain Gavras, 45, pode ser tão contundente quanto o pai, mas seu foco passa longe do debate de ideologias. Seu partido é o da crítica ácida, engraçada, implacável. Indiscutivelmente um dos melhores filmes do ano, o surpreendente "Sacrifício" é seu quarto longa e o primeiro com esquema hollywoodiano visando ao grande público. Para isso, escalou como casal protagonista Chris Evans, o Capitão América da Marvel, e Anya Taylor-Joy, a Furiosa jovem da saga "Mad Max". Para apoiar a dupla, nomes consagrados como John Malkovich, Salma Hayek e Vincent Cassel, este em seu terceiro filme com Gavras. É com esse elenco que o diretor avança sobre seus alvos: bilionários da tecnologia (o personagem de Cassel é o Elon Musk da vez), a escravidão das celebridades às mídias sociais, apropriação e deturpação de culturas antigas, seitas malucas e a psicologia barata em tempos de inteligência artificial. Tudo isso com um roteiro que prende a atenção até a última cena. "Sacrifício" nem precisava ser tão bom para garantir seu lugar nos melhores da temporada. Bastaria a primeira meia hora de projeção, que mostra o estapafúrdio evento montado pelo magnata tecnológico Ben Bracken, que Cassel constrói sem esconder estar se divertindo muito ao abusar dos clichês vilanescos. Ele se prepara para utilizar em larga escala um novo método de mineração marítima que será extremamente nocivo aos oceanos, mas trata de disfarçar isso sob discurso de avanços para ajudar a humanidade. Monta então um jantar para milionários e celebridades na antiga fortaleza de uma ilha obscura. Toda a festa é impagável, com piadas até cruéis com os ricos dominantes do mundo digital. Entre as atrações, um espetáculo de música e dança supostamente inspirado na extinta população que viveu na ilha, mas que traz apenas bailarinos com corpos enfeitados de penas e cantoras disparando versos do pior nível sexista do rap tóxico. Entre os convidados está Mike Tyler (Evans), um astro de filmes de ação em crise. Ele sabotou a própria carreira ao surtar numa premiação em Hollywood. Foi ao tapete vermelho com um lança-chamas ameaçando todo mundo. Tyler e Bracken já se estranham no começo da festa, mas logo ambos terão problemas maiores para enfrentar O local é invadido por um grupo enorme de jovens uniformizados e fortemente armados. Sua líder é Joan (Taylor-Joy), que explica a missão de seu grupo: eles acreditam que a Terra vai acabar em 48 horas, e que a única maneira de deter a destruição é sacrificar três pessoas. Elas serão escolhidas entre os convidados e atiradas num vulcão próximo, que parece prestes a entrar em erupção A partir daí, o filme acompanha o périplo do grupo terrorista e seus prisioneiros até chegar ao vulcão, sob perseguição da polícia. Tyler e Joan se aproximam, em uma relação que não cede a nenhum clichê romântico. Ela é pirada desde criança, e ele está entupido de remédios para tentar recobrar a sanidade. Na segunda parte da sessão, quem dá as caras é Malkovich, o pai cientista de Joan, que tem seus momentos de loucura, mas, no fundo, sabe que a filha precisa ser detida. E essa jornada ao topo do vulcão é repleta de humor absurdo. O roteirista Gavras parece tão sem controle quanto sua líder terrorista, e isso faz muito bem ao filme. "Sacrifício" é cinema de entretenimento, claro, com algumas referências jocosas ao mundo atual, mas elas não são o combustível do humor do filme. A força da narrativa vem de Tyler. De certa forma, ele está tão abismado diante da maluquice de tudo aquilo quanto o espectador. Evans pode não ser um ator espetacular, mas tem aqui o melhor momento da carreira, no papel de alguém completamente sem rumo. O final pode gerar alguma discussão, mas parece ser mesmo a melhor conclusão possível. Romain Gavras não faz concessões. Ele só faz os outros rirem.

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