Dona de um dos dois maiores aplicativos de entrega de comida da China, a Meituan lançou na segunda-feira (2) a versão final do LongCat-2.5, um modelo de inteligência artificial feito para tocar sozinho tarefas longas de programação. Dois dias depois foi a vez da Tencent, dona do WeChat, que apresentou o Hy4, o primeiro modelo da empresa capaz de operar um computador mexendo no mouse e no teclado. São dois eventos que, isolados, soam aleatórios, mas que chegam em um momento desafiador para Pequim, temerosa de que os rápidos avanços da IA corroam o combalido mercado de trabalho. Há duas semanas, o Conselho de Estado publicou uma orientação sobre IA e emprego pedindo que se trate "com prudência o alcance, a intensidade e o ritmo" da tecnologia em setores que usam muita mão de obra. Pequim tem motivo para se preocupar, já que o desemprego entre jovens de 16 a 24 anos fora da escola bateu 18,9% em agosto, quando um recorde de 12,7 milhões de recém-formados chegou ao mercado.O título do documento fala em desenvolvimento "amigável ao emprego", mesma expressão utilizada pelo ex-vice-presidente da Academia Chinesa de Ciências Sociais e economista Cai Fang em um artigo de primeira página do Xuexi Shibao (学习时报), o jornal da Escola Central do Partido. Por ora, é um parecer, sem força de lei e sem punição prevista. Ainda assim, manda avaliar o impacto no emprego durante a produção da análise de projetos que dependem de autorização para chegar ao mercado e recomenda a mesma avaliação nos demais setores. Às empresas, sugere estudar um "período de amortecimento" e avisar com antecedência quem será afetado quando a IA chegar em larga escala, além de oferecer qualificação profissional para os impactados pelos esperados "layoffs" (demissões em massa). O medo de perder o emprego para a máquina já tinha aparecido em julho de 2024 em Wuhan, quando uma empresa de táxi pediu limites aos carros sem motorista da Baidu, e o tema tomou as redes. China, terra do meio Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados O caso mais comentado desde então é o de um supervisor de 35 anos de uma empresa de tecnologia em Hangzhou, identificado apenas pelo sobrenome Zhou, que conferia respostas de modelos de IA. No fim de janeiro de 2025, perto do Ano Novo Lunar, ele recebeu o aviso de demissão depois de recusar outro cargo que derrubava o salário de 25 mil yuan (R$ 20,5 mil) para 15 mil yuan (R$ 12,3 mil) por mês. A empresa disse que a IA dava conta do serviço dele. Zhou ganhou na arbitragem trabalhista, e a empresa perdeu duas vezes na Justiça. A decisão, divulgada em abril pelo tribunal de Hangzhou, manteve a indenização de 260 mil yuan (R$ 213 mil). A disputa só chegou à Justiça porque havia contrato e demissão por escrito. É esse tipo de perda de emprego, com nome e data, que Pequim consegue enxergar e corrigir. A orientação de outubro vai na mesma direção, abrangendo apenas projetos que dependem de licença, como táxis sem motorista, com especial cautela para setores intensivos em mão de obra, como fábricas de roupa ou de montagem onde a troca de gente por máquina aparece nas estatísticas. Os modelos lançados nesta semana miram o trabalho de programadores e analistas em início de carreira, que não estão em setores intensivos em mão de obra e dispensam licença. Zhou foi exceção por ter sido demitido, porque o mais comum é que a vaga de júnior deixe de ser aberta. Essa perda só aparece de forma indireta na taxa de desemprego dos jovens, e o que o Conselho de Estado está oferecendo a eles são cursos de IA e novas profissões como a de treinador de modelos. Legisladores do mundo todo precisam seguir o exemplo chinês e correr contra o tempo para apresentar soluções que cubram tais buracos. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
China protege da IA s� o emprego que consegue enxergar
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