Quando repórteres da Reuters chegaram em setembro ao escritório do Logink em Wenzhou, na região portuária de Zhejiang, encontraram as luzes apagadas, ninguém na recepção e os cabos dos computadores retirados. Ali deveria pulsar uma plataforma que, quatro anos antes, Washington tratava como uma das armas comerciais mais perigosas da China. Agora só o silêncio. O Logink é um sistema estatal que conecta portos, alfândegas e transportadoras para trocar informações sobre carga. Em 2022, uma comissão do Congresso americano alertou que, com ele, Pequim poderia saber o que cada país compra, em que volume e a que preço. Pelo medo de ter entregas confidenciais (como ajuda militar à Ucrânia ou vendas de armas a Taiwan), o Congresso proibiu o Pentágono de contratar empresas ligadas à plataforma, e o Departamento de Estado passou a pressionar aliados a evitá-la. O projeto nasceu há cerca de 20 anos, longe de qualquer disputa entre potências, como iniciativa do governo de Zhejiang para coordenar o transporte de carga na província. Depois passou ao Ministério dos Transportes, conectou-se a sistemas do Japão e da Coreia do Sul e chegou a sondar portos europeus. Mas a investigação publicada pela agência de notícias mostra como essa expansão se desfez. A plataforma deixou a associação internacional em que portos combinam padrões para trocar dados, e o intercâmbio com japoneses e sul-coreanos emperrou. Desde janeiro de 2024, a empresa que opera o sistema acumulou ao menos 39 processos que já somam cerca de US$ 1,3 milhão (R$ quase 6,5 milhões) entre ações trabalhistas e contas atrasadas. China, terra do meio Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados Randall Schriver, que preside a comissão autora do alerta, disse à Reuters que a estratégia americana de expor publicamente quem usava o sistema ajudou a provocar a queda. A pressão certamente fechou portas, mas a explicação deixou de lado o que se passava em Pequim no mesmo período. Em novembro de 2025, dez órgãos chineses liderados pela comissão responsável pelo planejamento econômico e pela agência nacional de dados lançaram um plano para integrar as informações do transporte de carga. A meta é cortar um gasto que pesa sobre toda a economia porque transportar e armazenar mercadorias custou à China o equivalente a 13,9% do PIB em 2025. Já em junho deste ano, o Ministério dos Transportes pediu que o Logink fosse ligado a mais fontes de dados domésticos, como se a plataforma, derrotada lá fora, devesse voltar às origens. Dois meses depois, o ministério e o órgão de planejamento lançaram, com aval do Conselho de Estado (espécie de gabinete do regime chinês), um plano mais amplo para a logística. No lugar do Logink, a nova estratégia prevê um "espaço de dados confiável", ambiente em que empresas e governo compartilham informações sob regras comuns, além de incentivos a plataformas regionais e setoriais. O objetivo é baixar o custo logístico em dois pontos percentuais do PIB até 2030. Pequim não desistiu de usar dados para mover carga mais barato, mas parece ter perdido o interesse no veículo que escolheu para isso há duas décadas. Minha aposta é que o escritório às escuras em Wenzhou deve tanto à pressão americana quanto a esse novo arranjo, em que o Ministério dos Transportes divide o comando com o planejamento econômico e a agência de dados. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
China abandona sua principal estrat�gia para reduzir custos de log�stica
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