Centen�rio de Foucault reacende debate sobre coragem e verdade que diz muito sobre hoje

Centen�rio de Foucault reacende debate sobre coragem e verdade que diz muito sobre hoje

[RESUMO] Um dos grandes pensadores do século 20, Michel Foucault morreu quatro décadas atrás, mas suas ideias continuam a iluminar criticamente os modos pelos quais a sociedade administra corpos, prazeres e condutas. Além de livros que se tornaram referências incontornáveis na filosofia, Foucault desenvolveu em aulas conceitos que renovaram sua obra, como um curso derradeiro, meses antes de sua morte, sobre o desafio de viver na prática aquilo que se diz. Paul-Michel Foucault completaria cem anos nesta quinta (15 de outubro). Ainda no início da década de 1960, quando foi saudado pelo Le Monde como um intelectual absoluto, jovem e fora do tempo, tornou-se um autor incontornável para diversas áreas do conhecimento. Ocupando uma zona mista entre a filosofia e a história, interrogou a estabilidade de saberes, instituições e práticas como a psiquiatria, as ciências humanas, as prisões e a sexualidade. Explicitou que aquilo que parece natural e evidente é sempre contingencial e mutável. Assim, seu impacto filosófico está menos na construção de um sistema conceitual fechado e programático e mais na invenção de instrumentos analíticos afiados e capazes de revelar a precariedade das condições que fazem com que pensemos, falemos e sintamos de determinadas maneiras. Talvez por isso Foucault ainda insista em nos acompanhar mesmo passados 42 anos de sua morte precoce (em 25 de junho de 1984), aos 57 anos. Suas investigações, afinal, continuam a iluminar criticamente as modulações pelas quais a sociedade contemporânea administra corpos, prazeres e condutas. Assim, mais do que a celebração de uma obra encerrada, seu centenário é a ocasião propícia para recordar que os problemas que ele legou ainda atravessam o nosso presente: é, em outros termos, uma oportunidade de medir a renitente proximidade entre o mundo que interrogou e aquele em que vivemos. Sem qualquer pretensão de totalização de seu itinerário, pode-se lembrar que "História da Loucura" (1961) inaugurou o percurso ao reconstruir as condições que separaram razão e desrazão, que "As Palavras e as Coisas" (1966) ampliou a investigação para as formas históricas de ordenação dos saberes, que "A Arqueologia do Saber" (1969) explicitou o método dessas investigações e encerrou a primeira fase de seu pensamento, que "Vigiar e Punir" (1975) inaugurou a investigação genealógica do poder por meio da análise da sociedade disciplinar, que o primeiro volume de "História da Sexualidade" (1976) mostrou que o poder não apenas reprime, mas também produz modos de viver, e, por fim, que os dois últimos livros da série publicados em vida, "O Uso dos Prazeres" e "O Cuidado de Si", ambos de 1984, deslocaram o olhar para a Antiguidade e para as práticas com que os sujeitos constituem a si mesmos. Haveria, neste arco narrativo da biblioteca-súmula do pensamento foucaultiano, material suficiente para defendermos a vitalidade de seu pensamento ainda hoje: os retrocessos recentes em relação às políticas nacionais de saúde mental, o punitivismo necropolítico e a moralização dos costumes dão testemunho enfático dessa duração entre nós. Porém, o fato de comemorarmos também em 15 de outubro o dia do professor é uma deixa para citar que Foucault ingressou como docente no Collège de France em 1970 para ocupar a cátedra de história dos sistemas de pensamento e lá lecionou por 14 anos. Seus cursos foram matéria-prima valiosa para a compreensão do rigor e do vigor de sua obra. Nestas lições, Foucault fazia valer o caráter de oficina favorecido pelo regulamento institucional. Incertas e consistentes, luminosas e eruditas, belas e críticas, suas aulas cumpriam um arco e uma temporalidade próprios e diagonais em relação aos livros. A obrigação de apenas 26 horas letivas anuais e de um conteúdo inédito a cada curso era a condição ideal para a expressão de hipóteses, elipses, tropeços e saltos de um pensamento que se preparava na poeira das bibliotecas e se expunha primeiramente no chão da sala de aula. Os comentadores costumam dividir a obra de Foucault em três grandes momentos. Se há quase um consenso na nomeação dos dois primeiros, que tratam, respectivamente, da arqueologia dos saberes e da genealogia dos poderes, os termos utilizados para sintetizar a terceira fase são mais variados: ética, subjetivação, resistência, estética da existência, dobra e cuidado de si são apenas alguns deles. Se as aulas de Foucault também compõem hoje o material volumoso de seu legado, é curioso que o termo protagonista de seu derradeiro curso, "A Coragem da Verdade" (1984), não tenha adquirido o relevo que possivelmente merece. Frédéric Gros sustenta que a derradeira transformação do pensamento foucaultiano não ocorreu de maneira brusca ou instantânea, mas se maturou lentamente, sem ruptura e sem alarde, em um processo cujo palco central era o auditório lotado do Collège de France. Muito se destaca o curso ministrado em 1982, "A Hermenêutica do Sujeito", como um ponto de virada. Boa parte dos termos citados acima, inclusive, está presente nessas lições. Isso não deixa de ser verdade, mas parece também importante atentar à peculiaridade daquilo que Foucault propõe ao tratar da coragem e da verdade nas aulas dadas meses antes de sua morte. O interesse de Foucault na coragem não diz respeito a uma virtude psicológica ou a uma disposição heroica e voluntarista. Está, mais delicadamente, na qualidade das falas francas enunciadas por quem se expõe a riscos quando toma a palavra. Neste derradeiro curso, amparado especialmente na filosofia cínica, Foucault usa a coragem como chave de compreensão de uma relação peculiar entre a verdade e a vida. Sua atenção está em uma verdade que não se reduz à oposição ao falso. Está, em outros termos, naquela fala que é verdadeira não por ser factual, mas porque exige uma implicação da própria existência. Assim, a filosofia deixa de ser apenas e tão somente um discurso —ou um logos— e se converte em uma ética: uma maneira de viver em que o próprio corpo se torna prova e contraprova da verdade. Há, portanto, algo de particularmente decisivo no lugar que a coragem ocupa no último curso de Foucault e que permite que se possa reconhecer nela uma espécie de síntese do terceiro momento de seu pensamento. Ela radicaliza, afinal, uma preocupação que atravessa toda a obra foucaultiana: a possibilidade de escapar às formas de sujeição mediante a invenção de uma outra relação com aquilo que somos. É nessa passagem da verdade como conhecimento neutro à verdade como prática corajosa que talvez se encontrem o risco, o brilho e a força política do ultimíssimo movimento feito pelo autor. É difícil não pensar no sentido que a coragem da verdade —que essa coragem e essa verdade— pode adquirir no Brasil contemporâneo. O desafio persistente do espólio foucaultiano não consiste apenas em distinguir a verdade da mentira —tarefa que, em tempos de fake news, já mobiliza instituições, jornalistas, pesquisadores e plataformas. Mais precisamente, trata-se de recuperar o vínculo entre aquilo que se diz e a responsabilidade vital implicada em dizê-lo. Nesse contexto, a coragem da verdade pode ser compreendida menos como um chamado à denúncia permanente do outro do que como uma exigência dirigida, antes de tudo, a si mesmo. Não se trata apenas de acertar os fatos, mas de sustentar na própria existência aquilo que se afirma. Talvez essa tarefa seja a herança vívida que Foucault nos lega em seu centenário: a exigência ética e arriscada de fazer coincidir palavra e vida na experiência de cada um, é claro, mas também na maneira como imaginamos e construímos nosso país e o mundo.

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