O cenário das eleições deste ano é de uma grande vitória da direita —com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula (PT) no primeiro turno e o avanço das bancadas direitistas no Senado e na Câmara. O resultado dos governos estaduais aponta no mesmo sentido. É essa avaliação dos repórteres e colunistas da Folha reunidos na noite deste domingo (4) na transmissão ao vivo da TV Folha. O debate de análise dos resultados reuniu Bruno Boghossian, diretor da Sucursal de Brasília do jornal, Fábio Zanini, editor do Painel, e os colunistas Mônica Bergamo e Priscilla Bacalhau. Eles foram entrevistados pelo repórter especial Fernando Canzian. "Mesmo que a eleição não tenha se resolvido no primeiro turno, tudo indica que Flávio chegará na frente", disse Zanini. "O Senado é um ‘strike’. Bolsonaristas aumentam e muito a sua bancada, vão chegar a mais de 40 senadores. Na Câmara os dados estão sendo computados, mas devem aumentar as bancadas de direita, talvez numa vitória maior do que em 2018." Para Zanini, a onda de direita dá "todas as condições para que Flávio oficialize uma vitória no segundo turno". "Esse segundo turno parece se configurar como algo para constar", disse o editor do Painel. "Mesmo que Lula ganhe essa eleição, numa virada espetacular, qual condição de governar ele vai ter?" A análise é corroborada por Boghossian, que chamou o resultado de surpreendente, mesmo que as pesquisas já apontassem o crescimento de Flávio. "Flávio expandiu a coalizão bolsonarista nesse primeiro turno", disse o diretor da sucursal de Brasília da Folha. "E aí o resultado fica muito difícil para o Lula. O eleitor que não votou nele e votou em outros candidatos fez um voto de mudança também. O cenário para ele é muito difícil, para não dizer impossível. Você vai ter um exército de direita nas ruas, com os governadores eleitos e senadores em festa." A aposta do jornalista é que a campanha de Flávio agora passe "a jogar pelo empate", para não correr o risco de cometer erros. "Se olharmos para o mundo e para a América Latina, talvez só pelo Lula ser Lula que ele tenha conseguido segurar essa avalanche de direita no continente. Claro que a diferença para ele é muito difícil", acrescentou Mônica Bergamo. A colunista apresentou aos espectadores da TV Folha projeções numéricas que fez sobre o Senado. Segundo ela, a bancada bolsonarista pode saltar de 34 para até 49 parlamentares —o que pode permitir que tenham o controle da casa, mas não garante por si que consiga aprovar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, que é uma bandeira desse campo. "Tá dado o impeachment? Não. Mas não está dado? Também não", disse ela. A colunista também acrescentou que os resultados mostram que a família Bolsonaro acertou ao não entregar o bastão para o governador paulista reeleito, Tarcísio de Freitas (Republicanos). "Não existe mais aquela direita que a gente conheceu em outras décadas. A direita é bolsonarista. Eles demonstraram uma força muito grande", afirmou. Polarização religiosa Mais cedo, enquanto as apurações das urnas avançavam, a TV Folha recebeu um debate sobre o papel da religião nesta corrida presidencial. Com mediação da repórter especial Fernanda Mena, o encontro reuniu a também repórter especial Anna Virginia Balloussier, os colunistas Juliano Spyer e Rodrigo Toniol e o pastor Ed René Kivitz. No começo da conversa, a mediadora questionou os convidados sobre o que a polêmica envolvendo as falsas alegações de que Flávio Bolsonaro planejava tirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida revelava sobre a polarização religiosa no país. Mena lembrou também as notícias falsas de que Lula poderia fechar igrejas evangélicas. "[Esse caso] colocou a gramática religiosa para funcionar num momento em que não estávamos operando uma gramática religiosa", disse Toniol. "O que vem à tona é o país mais católico do mundo —ainda. Esse é um dado muito relevante. O que acontece é a emergência de uma tensão existente há décadas entre católicos e evangélicos." Toniol avaliou que, independente de a polêmica ter resultado em votos para a esquerda ou não, o caso mobilizou pessoas que antes estavam achando a eleição morna. E engajou pessoas "no chão da paróquia". "Um bom termômetro é a campanha de Flávio. Se achassem essa polêmica menor, não teriam se empenhado em colocar o candidato com uma boneca de Aparecida. Sentiram que isso poderia ser prejudicial", disse Balloussier. Indagados sobre o limite entre expressão religiosa e respeito ao caráter laico do Estado, os entrevistados apontaram que o Brasil tem cruzado fronteiras nesse sentido. "Confundir cidadania com confissão religiosa é inadequado", disse Kivitz. "A cidadania é uma condição, a experiência religiosa é uma opção. Eu não escolhi ser brasileiro, mas escolho ser cristão evangélico. Quando uma força religiosa se torna hegemônica e tenta impor seus valores é um perigo." Sobre esse tema, Toniol lançou um alerta sobre o destino de recursos de emendas parlamentares para "a realização de práticas que são do interesse de pequenos grupos religiosos". Ele lembrou o caso do município de Cruz Alta (RS), que vai construir uma cruz gigante ao custo de R$ 30 milhões em recursos públicos, tema de uma coluna sua recente. Ele disse considerar o caso um absurdo, pelo fato de a cidade não ter demanda turística para algo do tipo. "O limite dramático [cruzado] é olhar para a emendas e ver como elas têm jogado o jogo da religião", disse.
Cen�rio � de grande vit�ria da direita, diz colunista na TV Folha
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