Criada por duas psicólogas no amplo espaço de natureza do Cemitério Memorial Parque das Cerejeiras, no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, a Trilha da Saudade propõe uma reflexão sobre o luto e incentiva o participante a lembrar e homenagear pessoas queridas que partiram. A atividade ocorre durante o ano todo, é gratuita e aberta a todos, independentemente de ter parente ou amigo sepultado no local. Questões religiosas não são abordadas. A experiência dura de 40 minutos a uma hora e passa por seis estações —Coração de Homenagens, Orquidário, Bosque, Mirante, Praça da Eternidade e Lago com Carpas. A trilha foi criada em junho de 2026, na Semana Nacional do Meio Ambiente, e a ideia é estimular memórias através do contato com a natureza. A diarista Clarice Ribeiro, 61, conta que não consegue superar a morte da mãe, há cinco meses; do filho, há um ano e oito meses; e de dois irmãos, que morreram em momentos diferentes desde a pandemia de Covid —um pela doença, outro vítima de assassinato. "Faz bem para a minha saúde mental, aqui encontro outras pessoas que também tiveram perdas. Minhas irmãs falam 'acabou, não sei por que você está indo lá'. Venho e trago flores toda semana, até debaixo de chuva", diz. Assim como Clarice, a estudante de psicologia Roquelina da Conceição Silva, 50, é assídua na atividade. Desde 2018 tenta aceitar as mortes do irmão, do pai e de dois sobrinhos. "As perdas foram seguidas e significativas: meu irmão de acidente, meu pai infartou, minha sobrinha morreu ao nascer e meu sobrinho —que foi o último, há três anos— se afogou. Ele tinha 23 anos. Essa trilha me dá esperança de que a vida continua. O contato com o verde alivia. Aqui aprendemos que a vida deve ser desfrutada e é preciso seguir em frente, independentemente do que passamos", afirma. A reportagem fez o percurso num domingo, dia 20 de setembro, com um grupo de 20 pessoas. A psicóloga especialista em luto Lélia de Cássia Faleiros Oliveira, 64, conduziu a caminhada, mas é possível fazê-la também sozinho ou em dupla. Na primeira estação, Coração de Homenagens, o participante é estimulado a resgatar uma lembrança feliz e escrever uma mensagem para a pessoa que morreu. No Orquidário, a psicóloga propõe uma reflexão sobre o tempo individual do luto. O perdão e as palavras não ditas são tema da estação Bosque; ao chegar ao Mirante, o visitante é convidado a imaginar uma notícia que gostaria de compartilhar com quem morreu. Na sequência, a Praça da Eternidade propõe uma homenagem simbólica a partir de um paralelo entre a imensidão do luto e o conceito de eternidade. A jornada termina no Lago com Carpas. Devido à biologia desses peixes, resistentes a correntezas, a estação serve como metáfora para os altos e baixos do luto. No encerramento, os participantes são estimulados a falar sobre suas redes de apoio e expressar gratidão. "Assim como o luto, a natureza é instável, o que a torna o maior exemplo desse processo. Eu gosto muito dessa questão com os órgãos dos sentidos. Quem de nós não sente o cheiro de um familiar que já partiu? Uma voz? A natureza, em seu potencial máximo de expressão, colabora diretamente com quem está nessa situação", diz Oliveira. A especialista defende a necessidade de transformar o vínculo. "Você perde a pessoa, mas o vínculo fica. A ideia do processo de luto saudável, se realmente existe, é continuar o laço da forma como você projetar. As pessoas me questionam sobre como ajudar um enlutado. Posso dar uma dica? Só ofereça seu ouvido e pergunte: você precisa de alguma coisa?", diz. Segundo a psicóloga, a abordagem também se propõe a conf rontar antigos tabus, como a tendência de esconder a morte do público infantil. Em vez disso, a ideia é promover uma visão mais humanizada e natural sobre a perda. Oliveira diz também que o conceito tradicional de "fases do luto" (raiva, por exemplo) caiu em desuso na psicologia. Segundo ela, tentar encaixar a dor em etapas obrigatórias desconsidera a subjetividade de cada indivíduo. "O luto não tem receita, e cada processo é único. Perdemos a mesma mãe, somos irmãs, mas o meu luto não será o seu, porque a minha história com a minha mãe era minha." Essa imprevisibilidade também chega às discussões sobre religião e leva alguns a questionarem a própria fé, ela diz. "Eu não traduzo a crença religiosa, mas sim o que está por trás dela. É muito comum as pessoas ficarem avessas à religião. 'Por que Deus fez isso comigo?', perguntam. Então, ficar contra a doutrina faz parte do processo de luto. Mas a religião também pode ajudar a aplacar a angústia", afirma a psicóloga. Informações sobre a Trilha da Saudade podem ser obtidas pelos telefones (11) 4040-5767 e (11) 4040-5550. Nesta segunda-feira (2), Dia de Finados, o Cemitério Memorial Parque das Cerejeiras terá uma programação especial e gratuita, das 9h30 às 17h20, com palestras sobre luto e missa campal. Para as 9h40 está marcada uma apresentação da Orquestra Filarmônica de Paraisópolis, e das 16h20 às 17h20 as crianças poderão partcipar da oficina Expressão do Luto pela Arte. O cemitério fica na avenida Parque das Cerejeiras, 300. Mais informações sobre a Trilha da Saudade podem ser acessadas aqui. Cuide-se Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar Em Guarulhos, na Grande São Paulo, uma iniciativa do cemitério Primaveras presta um serviço online de acolhimento, com reuniões mensais gratuitas conduzidas por psicólogos e outros especialistas. Os encontros do Grupo de Apoio ao Enlutado do Primaveras acontecem normalmente no último sábado de cada mês e são abertos à comunidade. A inscrição pode ser feita aqui.
Cemit�rio em S�o Paulo cria 'trilha da saudade' para ensinar sobre luto
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