Ao encontrá-lo, só sei aproveitar sua presença, rir de sua ironia e me deleitar com suas histórias. Mas, como sua companhia é boa demais, sempre fico com a impressão de que converso com meu amigo menos do que gostaria. De longe, fico em paz sabendo que está bem, cercado de afeto e envolto em sua mágica caminhada. Mas é seu aniversário, e temos uma oportunidade de ouro para lhe dizer coisas boas e desejar-lhe tudo de melhor. Daqueles dias em que via pela calçada as festas no Clube Araraquarense —onde, por ser pobre, não podia entrar—, até os dias de hoje —em que é patrono da Festa Literária da Morada do Sol e cidadão ilustre da cidade—, o nosso grande escritor Ignácio de Loyola Brandão, imortal em título e em nossas memórias, completa nesta sexta-feira seus 90 anos. Quando este jornal chegar às ruas e casas da cidade, faço votos para que o encontre com um abraço nesta coluna, enquanto provavelmente proseia com Márcia Gullo, sua companheira de vida. Junto a seus filhos e filha, a essa altura já deve ter falado algumas coisas sobre seu documentário em cartaz nos cinemas. "Não Sei Viver Sem as Palavras", dirigido por seu filho André Brandão, realiza um antigo desejo do pai, crítico de cinema desde 1952 na Folha Ferroviária: ver sua trajetória transformada numa obra à sua altura e ainda percorrer tapetes vermelhos nas disputadas sessões de pré-estreia Brasil afora. Em um movimento circular, o velho consagrado reencontra aquele menino curioso das sessões do Cine Paratodos, na rua São Bento, em Araraquara. Já o telefone de casa não para. Sabe-se lá quantas ligações está recebendo desde manhã, talvez tantas que deve estar sendo um desafio atendê-las. Primos, sobrinhas, amigos de longa data do Colégio Progresso, do Bento de Abreu, das décadas de jornalismo. Editores de seus dezenas de livros também prestam homenagens, assim como gerações de leitores que essas obras seguem acompanhando. Produtoras culturais, colegas escritores e escritoras, a lista é enorme. Em seu coração, pode ser que tenha tido conversas com quem já partiu e deixou saudades. Seu pai, Antônio Maria, o Totó, trabalhador ferroviário, que lhe entregou, em 1957, seus 3 mil cruzeiros para que começasse a vida e um conselho sábio para que usasse as palavras com cuidado e honestidade; sua mãe, Maria do Rosário, que não terminou a escola para cuidar dos irmãos, e que, por isso, incentivou o filho a estudar e ler bastante. Onde quer que estejam, foram honrados pelo filho. Quem sabe, nosso amigo até conversou um pouco com seu amigo Zé Celso, que, como ele, veio ao mundo para deixar a sua marca. Que nosso amigo Ignácio, cuja escrita foi muitas vezes a voz que nos foi tirada por sistemas de terror, hoje encontre o frescor de seus netos Pedro, Lucas, Felipe, Stella, Luísa e Antônia, todos eles razões pelas quais viverá muitos outros anos, se assim as divindades, o destino, ou o que queiram chamar, permitirem. Certa vez, nesta Folha, escrevi sobre meu amigo e como ele me lembra Exu. Ambos já estiveram em tantos lugares ao mesmo tempo e em companhia de figuras incontornáveis da nossa história, como também exercem um domínio sobre a palavra. Trago cantigas ancestrais, entoadas antes mesmo de ele nascer, para que o orixá da comunicação, do movimento e da vida abençoe nosso amigo com caminhos abertos, boas gargalhadas e aventuras. Queria tê-lo abraçado na Flip, onde Bernadete Passos, curadora da Flisol, conjecturava uma participação de láurea na Casa Portugal. Todavia, talvez a Serra da Cunha, talvez aquelas pedras infernais do centro histórico —colonial até demais— recomendassem prudência. Ou talvez porque a sabedoria popular saiba que parabéns é só quando chega o dia. Então, é chegada a hora. Nosso amigo terá uma grande festa. Na Academia do Largo do Arouche, as cerimônias começaram ainda nesta semana, com Leandro Karnal abrindo alas para as homenagens em sua coluna no Estadão, e vamos seguir com palmas e festas até ele cansar da gente. Temos, com ele, um compromisso marcado nas salas de cinema e, no nosso grupo de WhatsApp, contaremos boas histórias. Quem sabe nos encontramos no almoço do mês e encomendaremos o bolo. Que nosso amigo continue escrevendo, conversando, rindo, viajando, inquietando-se e encantando. E que nós, seus leitores, amigos e admiradores, tenhamos o privilégio de acompanhar essa caminhada pelos anos que virão. Afinal, há escritores que criam mundos. Outros ajudam a preservar a memória do mundo. E há aqueles, como Ignácio, que fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Que Exu o abençoe, querido amigo. Celebremos seu aniversário! LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Celebremos os 90 anos de Ign�cio de Loyola Brand�o
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