Em busca de um verniz democrático para sua investida golpista, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se autoproclamou o "verdadeiro presidente eleito" em uma carta divulgada por apoiadores nesta quarta-feira (28), remetendo ao que fez Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana, em 2019. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por liderar uma tentativa de golpe em 2022, afirmou ainda haver uma "impossibilidade matemática" no pleito que reelegeu o presidente Lula (PT). Depois, em uma nova versão da carta publicada nas redes sociais, Flávio referiu-se a si mesmo não mais como "presidente eleito", mas sim como "o líder do Brasil". O ditador venezuelano Nicolás Maduro foi reeleito em 2018 em um pleito sem os principais líderes oposicionistas, que não foi considerado livre ou justo por organismos internacionais. Rejeitaram o resultado da eleição a União Europeia e países como Brasil, Canadá, Japão, Reino Unido e Estados Unidos. Em comunicado publicado à época, o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Luis Almagro, afirmou que o pleito ocorreu "sob uma falta generalizada de liberdades públicas, com candidatos e partidos banidos e com autoridades eleitorais sem qualquer credibilidade". "As eleições foram realizadas com mais de 300 presos políticos atrás das grades e com o Estado utilizando todos os recursos à sua disposição para a farsa." Já o pleito brasileiro deste ano teve a legitimidade reconhecida pelos mais renomados observadores eleitorais, entre eles a OEA, e por mais de 100 países, segundo levantamento da CNN —uma série deles governados pela direita, como a Itália, o Chile, o Peru e El Salvador. A condução adequada das eleições também foi validada pela oposição democrática e pelo presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao STF (Supremo Tribunal Federal) por Bolsonaro. Quando Guaidó se autoproclamou presidente, reconhecido por cerca de 60 países, a Venezuela já era tratada pelo V-Dem (Variedades da Democracia), o principal instituto que avalia a qualidade das democracias pelo mundo, como uma autocracia eleitoral. O termo dá conta de países que realizam eleições, mas que não garantem requisitos mínimos para que elas sejam livres e justas. Hoje o V-Dem considera o Brasil uma democracia eleitoral, em processo de recuperação da investida autoritária dos anos Bolsonaro. Em 2019, quando Guaidó deu início a um governo paralelo, já havia na Venezuela registros de prisões arbitrárias em massa durante manifestações, execuções extrajudiciais e tortura. Relatório do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos relatava que os maus-tratos e atos de tortura documentados "incluíram choques elétricos, espancamentos severos, estupro e outras formas de violência sexual, asfixia com sacos plásticos e produtos químicos, simulações de execução e privação de água". Os presos venezuelanos foram perseguidos por crimes políticos, enquanto Flávio é investigado por crimes comuns, como a suspeita que envolve lavagem de dinheiro por meio de bets, uma apuração em curso no Supremo. O sistema de freios e contrapesos na Venezuela também estava seriamente comprometido no contexto da declaração de Guaidó. Em 2017, o Supremo Tribunal de Justiça, majoritariamente alinhado a Maduro, havia determinado que assumiria todas as competências da Assembleia Nacional —o argumento usado pelos juízes foi de que o Parlamento estaria desrespeitando as ordens do tribunal. Em 2024, em outro pleito não reconhecido pela comunidade internacional, o opositor venezuelano Edmundo González também se autodeclarou presidente. Flávio Bolsonaro o citou em sua carta, assim como Guaidó. O cenário venezuelano não guarda similaridades com o brasileiro. Ainda que haja críticas a eventuais excessos na atuação do Judiciário, especialmente do STF, o Brasil é uma democracia. Jair Bolsonaro foi condenado em um julgamento colegiado, com provas robustas, incluindo depoimentos de chefes da cúpula das Forças Armadas, que apontaram para o papel de liderança do mandatário na articulação de uma tentativa de golpe que impediria a posse de Lula. Nas eleições de 2026, todos os líderes de oposição sem histórico golpista puderam participar livremente e competir em condições de igualdade, inclusive o filho de Bolsonaro. O PL, partido de Flávio, elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados. Ainda assim, ao longo da campanha eleitoral, se aproveitando da crise no Supremo, o senador adotou a estratégia de tentar incutir no eleitorado a ideia de que o país não é uma democracia e que ele seria o único capaz de salvar o Brasil de um regime ditatorial. Ao mesmo tempo, nunca reconheceu a investida golpista do pai, a quem sempre tratou como um perseguido político, e prometeu conceder a ele um indulto caso fosse eleito. Em entrevista à Folha, antes de anunciar a candidatura a presidente, chegou a sugerir que o próximo chefe do Executivo deveria fazer uso da força, se preciso, para garantir esse indulto. Enquanto candidato, Flávio lançou mão de uma operação discursiva que buscou descolar a família Bolsonaro do lugar de algoz para o de protetor da democracia. Ele não apenas montou uma defesa em relação à pauta, mas partiu para o ataque e sequestrou o lugar de vítima ao acusar, sem provas, ministros do STF de articular um golpe com Lula para tentar impedir sua eventual vitória. O senador falou repetidamente sobre resgatar a democracia e garantir a liberdade de imprensa. De terras trumpistas, onde agora recebe o irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) alardeou que o Supremo não aceitaria uma eventual vitória de Flávio. No fim, o filho de Jair Bolsonaro mostrou que era ele o candidato que não aceitaria o resultado das eleições.
Carta golpista de Fl�vio Bolsonaro remete � autoproclama��o de l�der venezuelano como presidente
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