Carta aberta a Jo�o Gomes

Carta aberta a Jo�o Gomes

Caro João, Escrevo esta carta de Recife, onde moro, capital do estado onde você nasceu. Da pequena e mítica Serrita, no interior pernambucano, você foi alçado à condição de superstar nacional em muito pouco tempo. Mesmo sendo a pessoa simples que sempre foi, é inevitável que fama e sucesso tornem difícil saber quem se é nestes novos contextos. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Fico pensando em como eu era aos 24 anos, a idade que você tem agora. Hoje, aos 46, vejo que era anônimo e cuidava apenas dos meus afazeres, sem ninguém a me pressionar sobre manifestações públicas acerca dos destinos do país. Tento especular, mas acho difícil saber como agiria no seu lugar. Não sou casado nem tenho filhos, diferentemente de você. Não tenho bens, nem carro possuo. Você já é um grande artista, é rico, tem herdeiros, fãs e responsabilidades. Não tenho condição de lhe dar lição de moral eleitoral nem de apontar caminhos corretos na sua vida. Fiquei muito tocado com a forma como você vem sendo pressionado a se definir politicamente nestas eleições. O tom apocalíptico aflora de ambos os lados e você é pressionado a se posicionar. Mas não querem sua opinião; querem um cabo eleitoral. Esta semana, seu parceiro de turnê, o genial sanfoneiro Mestrinho, publicou um vídeo impactante sobre como a cobrança política o abalou psicologicamente. Disse ele: "A gente tem que ter a opção de se posicionar ou não. A forma como vocês pressionam faz parecer que só há um caminho. Ou isso ou o cancelamento. Liberdade é acima de tudo ter a opção de escolha". João, as pessoas estão embrutecidas. Mesmo após Mestrinho dizer que votará em Lula, o tom acintoso dos petistas continuou. Não querem saber dele, querem confirmação de suas certezas, no tom que desejam. O mesmo vale para os bolsonaristas, igualmente truculentos. Também me emocionei com o post da sua esposa, Ary Mirelle. Preocupada, ela escreveu: "Da última vez que João se posicionou em uma eleição, ele foi extremamente cancelado... Até hoje ele toma antidepressivos fortes, porque, se não tomar, ele nem consegue levantar para trabalhar. João tem depressão... Recebemos mensagens de pessoas ameaçando nossos filhos todos os dias. [...] Ele não está contra nossa nação, mas tem um trauma que faz ter medo até hoje". Sei que ela se refere a setembro de 2022 quando, no Rock in Rio, você puxou um coro de "Fora, Bolsonaro". Dias depois, sob imensa pressão, você se desculpou: "Errei e desrespeitei alguns fãs. Não apoio qualquer bandeira... Sou um eterno aprendiz".João, a democracia moderna criou o voto secreto exatamente para não termos a obrigação de nos posicionar publicamente. Os autoritários querem não apenas seu voto; exigem sua confissão pública. Se você quiser defender um candidato, vá em frente. Mas se quiser que apenas a urna veja seu voto, saiba que esse é o ideal democrático. E digo mais: sou daqueles que acham que o nulo também é voto. Você não precisa decidir entre o pior e o péssimo, que se retroalimentam. Sei que pesa sobre seu silêncio a acusação de que você seria um "traidor do Nordeste". Mas, João, o Nordeste não é um dado pronto. Ele está em disputa. Com seu voto individual, você não é mais nem menos responsável do que qualquer outro nordestino. Não arque sozinho com esse peso. Lembre-se: vários artistas nordestinos foram acusados de "trair o Nordeste" no passado. Veja o caso do maior de todos nós, Luiz Gonzaga. O rei do baião fez campanha para Getúlio, cantou para JK, gravou jingles para Lacerda e Jânio Quadros e apoiou o regime militar. Candidatos e regimes díspares e conflitantes. Gonzaga cometeu equívocos, mas permaneceu como o gigante musical do Nordeste. Elba Ramalho e Fagner fizeram showmícios para Collor em 1989; Dominguinhos cantou jingles das vitoriosas campanhas de FHC. Estes e outros mitos do Nordeste também foram chamados de "traidores do Nordeste". E continuaram sendo gigantes. João, a roda-viva da fama pode engolir até os mais sensíveis, como você. Se for melhor para sua saúde, não se manifeste. É um direito seu. Ninguém sabe pelo que passamos quando encostamos a cabeça no travesseiro à noite. João, sou historiador. Uma das coisas boas de ser historiador é ter a clareza de que tudo passa. Tudo passará. E saiba, meu amigo: o talento sobrevive às intempéries momentâneas. Um abraço respeitoso, Gustavo Alonso LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.