A cantora e compositora portuguesa Carminho apresenta nos dias 24 e 25 de agosto, no teatro Cultura Artística, em São Paulo, o espetáculo da turnê mundial de "Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir". Trata-se do trabalho mais autoral de sua trajetória, no qual a artista promove uma renovada leitura do fado tradicional ao incorporar arranjos experimentais e novos instrumentos. Sétimo álbum de estúdio da cantora, "Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir" (Sony Music) traz Carminho assinando 8 das 11 composições do repertório. O projeto dá continuidade à pesquisa e à prática da intérprete sobre as estruturas do gênero lusitano, tratado por ela não como um artefato histórico estático, mas como uma linguagem expressiva em constante transformação. "Esse disco é a continuação do trabalho que tenho feito, de pesquisa e de prática sobre o fado tradicional, que eu acredito ser uma língua viva. Ela está aqui para nos servirmos dela, para podermos nos expressar", disse a artista. "Busquei em poemas mais ambíguos e em sentimentos mais plurais o meu interesse na interpretação." EXPERIMENTAÇÃO E TRADIÇÃO No repertório do espetáculo, o lirismo poético coexiste com recursos sonoros incomuns ao gênero. Na faixa "Saber", Carminho divide os vocais com a artista norte-americana Laurie Anderson, que declama versos em inglês sobre trechos do trabalho da poeta portuguesa Ana Hatherly (1929–2015). A obra de Hatherly também serve de inspiração para "Balada do País Que Dói", canção em que os acordes da guitarra portuguesa dialogam com o mellotron e com o uso do vocoder, sintetizador de voz manuseado no palco pela própria cantora. A apresentação incorpora ainda timbres gerados por instrumentos raros, como o Cristal Baschet e o Ondes Martenot, geralmente utilizados em trilhas sonoras e na música experimental. Apesar da inserção de elementos tecnológicos, a cantora enfatiza que o movimento não reflete um desejo de rupturas radicais ou busca por modernismo ostensivo. "Não é uma necessidade de mudança, nem uma pretensão de mudar o fado. Não há uma busca desenfreada por novidade ou por modernidade. Procuro algo que eu goste de ouvir e que continue a fazer sentido para mim. Existe essa adrenalina de procurar os limites da linguagem." A vertente poética clássica manifesta-se em "Canção à Ausente", estruturada sobre versos de Pedro Homem de Mello (1904-1984) a respeito da espera amorosa, e em "Sofrendo da Alma", composição inspirada em textos de Amália Rodrigues (1920-1999). AMBIGUIDADE E RESISTÊNCIA A gênese do título do álbum remonta à leitura de um poema assinado por Antônio Campos Monteiro (1876-1933), encontrado entre manuscritos guardados pela fadista Beatriz da Conceição (1939-2015). O contraste contido no verso traduz a premissa conceitual do projeto: a tensão entre a tragédia amorosa e a resiliência. "Esse poema traz a ambiguidade que eu procurava e a vertigem que me encantou nesta ideia de que se morre muito de amor no fado, mas há sempre a hipótese de resistir", disse a artista. "Eu sou várias vozes, várias interrogações. É importante que não haja uma só verdade dentro de nós. Somos uma pluralidade de acontecimentos." Essa dimensão de resistência reflete-se na visão da cantora sobre a presença feminina na música. O trabalho homenageia figuras decisivas em sua formação, como sua mãe, Teresa Siqueira, além de Amália Rodrigues, Beatriz da Conceição, Wendy Carlos e Annette Peacock. "Acredito que, ao continuar nessa jornada, por si só, a voz feminina já é um ato de resistência", reflete. "Este disco foi muito inspirado nas mulheres que usaram a voz como forma de abrir caminho para outras, através da coragem das atitudes, da arte e da própria vida." CONEXÃO COM O BRASIL A série de shows na capital paulista reafirma a sólida relação de Carminho com a cena brasileira. Reconhecida como um dos elos mais expressivos entre Portugal e o Brasil — trajetória marcada pelo lançamento de um disco dedicado à obra de Tom Jobim (1927-1994) —, a artista inclui no programa composições como "Sabiá", clássico de Jobim e Chico Buarque, além de "Chuva no Mar", dueto gravado com Marisa Monte. A cantora destaca ainda seu acompanhamento contínuo da nova geração da MPB. "A geração é muito viva: Agnes Nunes, Marina Sena, Ana Frango Elétrico, Dora Morelenbaum, Silva, Tim Bernardes, Jotapê e Zé Ibarra. Há muita gente fazendo um trabalho bonito." Sobre o público do país, Carminho destaca a recepção calorosa que marca suas passagens pelos palcos nacionais. "É um público muito carinhoso, fiel, que se expressa imensamente. Acho que tem um orgulho imenso de suas raízes e seus artistas. Isso me orgulha também." Apesar de ter apresentado prévias do repertório no país em 2025, o espetáculo atual traz uma estrutura cênica e de iluminação completamente renovada. Show "Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir" Artista: Carminho Quando: 24 e 25 de agosto, às 20h Onde: Cultura Artística (Grande Auditório) - R. Nestor Pestana, 196, Consolação, São Paulo Quanto: R$ 50 a R$ 600 Classificação: 10 anos Capacidade: 773 lugares Duração: 90 minutos Ingressos: culturaartistica.byinti.com LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Carminho leva ao Cultura Art�stica, em S�o Paulo, fado em renova��o
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