Capturar o Estado � mais rent�vel?

Capturar o Estado � mais rent�vel?

É tentador olhar para Daniel Vorcaro como uma aberração do capitalismo brasileiro. Em poucos anos, um banqueiro relativamente desconhecido construiu uma extensa rede de relações com Brasília, enquanto seu banco crescia de maneira vertiginosa. Depois, tudo desmorona. O Banco Central liquida o Master e seu controlador acaba preso. Uma explicação corriqueira é considerar Vorcaro uma anomalia. O capitalismo brasileiro funcionaria normalmente e, de tempos em tempos, surgiria alguém disposto a ultrapassar os limites. Porém, tal explicação parece otimista demais. Vorcaro provavelmente é excepcional pela escala. Poucos empresários conseguiram circular com tamanha facilidade por ambientes tão distintos do poder. Contudo, um empresário precisa cometer um crime para se beneficiar de suas conexões políticas? Evidentemente, não. E aqui cabe uma ressalva. Em diversas economias ricas, empresários também fazem lobby. Empresas americanas e europeias gastam fortunas tentando influenciar governos. A diferença relevante está no retorno dessas estratégias. Quanto maior o prêmio oferecido pelas relações políticas, maior o incentivo para que talento empresarial seja direcionado à construção de conexões em vez de empresas melhores. O Brasil possui uma gama de empresários extraordinariamente competentes em navegar pelo Estado e uma economia extraordinariamente ruim em aumentar a produtividade. Isso fez parte de boa parte de nossa história, na qual o Estado decidiu muito sobre quem poderia ganhar dinheiro. Para isso, escolheu setores protegidos, distribuiu concessões, criou barreiras à importação e escreveu regulações capazes de determinar vencedores e perdedores. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Então, criaram-se algumas grandes empresas. Mas também se criou um tipo particular de habilidade empresarial. Em certos mercados, entender Brasília pode valer mais do que entender o consumidor. Contudo, seria um erro concluir que todos os empresários se comportam dessa maneira. A maior parte das empresas sobrevive vendendo bens e serviços e enfrentando uma economia cheia de dificuldades. E a desigualdade agrava a situação. Em uma sociedade extremamente desigual, o acesso ao poder também é desigual. Um cidadão e um empresário comum até podem mandar um email para um deputado, mas um grande grupo econômico pode contratar uma equipe inteira para conversar permanentemente com deputados, ministérios e agências reguladoras. Se, de um lado, a democracia oferece formalmente o mesmo peso nas urnas a cada pessoa, do outro, a economia oferece capacidades muito diferentes de fazer essa voz ser ouvida durante os quatro anos seguintes. A desigualdade concentra recursos. Recursos ampliam a capacidade de influência. Influência pode ajudar determinados grupos a conquistar regras favoráveis. Essas regras protegem rendas e patrimônios. A concentração aumenta novamente. Chega um momento em que ser muito rico ajuda alguém a influenciar as regras que determinam quem ficará e permanecerá rico amanhã. Enquanto isso, o cidadão e o empresário comum participam da política principalmente por meio do processo eleitoral. Porém, grandes grupos econômicos participam dela todos os dias. O texto dessa coluna representa a continuação da série baseada no meu novo livro, "Os custos das desigualdades: uma carta às elites", e uma homenagem à música "Sambinha", interpretada por Marie So. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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