Enquanto percorrem os mais de 4.000 km que separam as águas geladíssimas da Antártida das águas quentinhas da costa brasileira, as jubartes fazem dos oceanos quase uma sala de concerto —mas ainda sem plateia. O deslocamento anual dessa espécie de baleias é também um momento de ensaio: os machos, que usam o canto para atrair parceiras, praticam para chegar afinados aos locais de reprodução, situados principalmente em áreas tropicais ou subtropicais, como o Brasil. O treinamento permite que os machos aprimorem as canções, e eles fazem isso também imitando outros machos que escutam pelo caminho. Na água, o som tem uma velocidade mais de quatro vezes maior do que no ar, e as ondas sonoras podem viajar por milhares de quilômetros, dependendo da frequência do som. Isso significa que uma jubarte macho pode ouvir a outra de muito longe para aprender a cantar melhor. "Pode ser que machos que cantem efusivamente bem mostrem para outros machos que eles não estão tão bem preparados para a reprodução", diz o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, que estruturou o Laboratório de Biologia da Conservação de Mamíferos Aquáticos, o LABCMA, do Instituto Oceanográfico da USP, onde ele dá aulas. "Na migração, eles vão treinando e podem se influenciar. Eles podem pensar: ‘Nossa, eu vou acrescentar isso na minha canção, porque isso vai me dar mais chances de acessar as fêmeas’." Quando os cientistas falam em canções não é à toa. A bióloga marinha Dani Abras, divulgadora científica e guia de observação de baleias ao redor do mundo, conta que a estrutura dos sons emitidos pelos machos cantores é parecida com a de músicas, incluindo uma variação de tons e melodias e refrões que se repetem. "As fêmeas não cantam, mas também produzem sons, são os chamados. Esses sons não têm estruturas específicas, mas são feitos de forma a enviar mensagens, como para o filhote reconhecer a mãe." As jubartes têm uma comunicação considerada complexa e sofisticada, com sons e tons que variam como se fossem dialetos ou sotaques. Grupos do oceano Atlântico, por exemplo, cantam diferente de grupos do oceano Pacífico, com outros ritmos e outras combinações. Elas não são as únicas baleias cantoras; há outras espécies, como a baleia-da-groenlândia, a baleia-azul e a baleia-fin, que também soltam a voz, mas as canções das jubartes são as mais estudadas. "Isso acontece pela sua distribuição cosmopolita —ela está em todos os oceanos— e pela sua abundância. Então ela é a mais acessível das baleias para ser compreendida", diz o professor Marcos César de Oliveira Santos. O interesse pela comunicação e pelo comportamento dos cetáceos, coletivo que inclui as baleias e os golfinhos, tem crescido inclusive entre quem não é especialista. Com o aumento das expedições marinhas para observar os animais, cresceram também os vídeos registrando estripulias, saltos e cantorias. Muitos sons emitidos por baleias e golfinhos podem ser ouvidos pelos humanos —o canto das jubartes é um exemplo. "Se você tem a sorte de estar fazendo mergulho recreativo e passa um grupo de baleias jubarte se comunicando, mesmo sem nenhum tipo de equipamento acústico consegue ouvir o som das jubartes, além de sentir as ondas dentro do corpo", diz o biólogo Diogo Barcellos, pesquisador cuja pesquisa envolveu a construção de uma biblioteca acústica para ajudar na detecção de cetáceos no litoral paulista. "A gente não pode esquecer que o corpo humano é feito de grande porcentagem de água, né? Por isso, a gente acaba vibrando junto e sentindo o som das baleias, não só ouvindo", afirma Barcellos, que também é professor colaborador do LABCMA da USP. O assobio de algumas espécies de golfinhos é outro caso de sons produzidos por cetáceos que a nossa audição alcança. Mas também há espécies que se comunicam por sons graves ou agudos demais para nós: é o caso da baleia-azul, que o corpo humano não consegue escutar. Para estudar o canto dessas baleias, muito grave, os cientistas precisam colocar a gravação feita embaixo d’água em um programa de computador que transforma sons em imagens, uma espécie de gráfico; ou seja, eles não ouvem o canto da baleia-azul, eles veem. As gravações da sinfonia dos cetáceos são feitas por hidrofones, um microfone adaptado para resistir à água e para suportar a pressão do fundo do mar. Esses equipamentos gravam os sons dos animais em várias partes do mundo e permitem que os cientistas encontrem padrões e identifiquem semelhanças e diferenças entre as espécies. Hoje, a inteligência artificial é uma aliada nesse trabalho, porque essa é uma tecnologia que faz muito bem justamente essa tarefa, encontrar padrões. Nos Estados Unidos, tem um grupo estudando as emissões sonoras dos cachalotes e tentando criar um abecedário dessa espécie, uma forma de entender o que significa cada som. Mas esse é um trabalho muito grande de busca de padrões, que demanda horas e horas de gravação tanto de sons quanto de imagens do que os animais estão fazendo enquanto produzem essa comunicação. Também há pesquisadores em várias regiões do planeta conhecendo cada vez melhor um mecanismo que os golfinhos têm e as baleias não: a ecolocalização, que permite que eles usem sons para formar imagens e mapear uma região, parecido com o sonar de um navio. Outros cientistas ainda dedicam o tempo de pesquisa às toninhas, uma espécie menor de golfinhos que tem cor marrom e não gosta de embarcações —para estudá-las, o biólogo Marcos César de Oliveira Santos usa drones que capturam imagens que ele possa depois combinar com os sons gravados pelos hidrofones. Todos esses são exemplos de como a comunicação de baleias e golfinhos tem despertado interesse. Uma linha de pesquisa que está crescendo é a que olha para os efeitos da poluição sonora nos oceanos sobre essas espécies. Os estudos já disponíveis sugerem que cetáceos mudam de comportamento em regiões com um tráfego intenso de navios ou onde há estruturas ruidosas, como plataformas de petróleo. Essa é uma preocupação cada vez maior. "Quando as baleias estão migrando para a costa brasileira, precisam estar em constante contato para se encontrarem. Elas não têm WhatsApp, não têm GPS, então elas precisam se ouvir. Mas a gente aumenta gradativamente, todo ano, a nossa poluição sonora. Cada plataforma de óleo a mais traz também mais barulho, cada embarcação também", alerta Santos. "Isso vai dificultar a reprodução e a perpetuação delas como espécie. Com os golfinhos, é a mesma coisa. Eles têm que estar muito próximos. Um monte de embarcações perto de baleias e golfinhos dificulta a comunicação entre eles."
Cantoria de baleias envolve pr�tica, imita��o e ensaios
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