'Canetada do TSE foi mortal para Lula e afetou elei��es nos estados', diz marqueteiro de Douglas Ruas

'Canetada do TSE foi mortal para Lula e afetou elei��es nos estados', diz marqueteiro de Douglas Ruas

O publicitário Paulo Vasconcelos, responsável pela campanha do presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), Douglas Ruas (PL), afirma que a decisão da ministra Estela Aranha, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), de alterar regras do debate da TV Globo afetou o resultados das urnas em favor do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e de seus aliados nos estados. Ele compara o efeito da decisão judicial à cena da ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP) com arma em punho nas ruas de São Paulo na véspera do segundo turno da eleição presidencial de 2022. "Acho que a canetada de agora foi a Zambelli de 2022. O [ex-presidente Jair] Bolsonaro creditou à Zambelli, naquela época, o desgaste dele. Só estou juntando as pontas, porque acredito que o cancelamento de debate mexeu num voto que estava acomodado", afirmou. Ex-integrante da campanha de Ronaldo Caiado (PSD), ele afirma que a força das redes sociais dos candidatos é "um mito que morre nesta eleição". "O tráfego pago é o segredo das redes sociais. As redes orgânicas você fala para convertido." O resultado no Rio de Janeiro surpreendeu? A campanha do Rio tem uma tipicidade diferente de outras tantas. Outras figuras estiveram muito atrás e depois ganharam. Essa onda de reta final é difícil dizer de onde veio. Vejo um voto de protesto, impacto dos movimentos de reta final, ausência de debates e a censura feita no debate da Globo. O sr. fala da disputa presidencial. Aquilo repercutiu para tudo quanto é lado. Tem se associado ao presidente um alinhamento mais forte ao Judiciário. E à direita uma oposição mais dura ao Judiciário. Marqueteiramente, o desgaste do Judiciário é uma força da direita. A caneta da juíza dá aquele voto de censura, mudando completamente o que se via em todos os debates históricos, que é, quando o candidato falta, fica lá o púlpito. Para piorar, a Globo cancela o debate. Todo mundo ficou sabendo disso porque o debate da Globo, que não tem a audiência que já teve no passado, é muito simbólico. É como se fosse a final de campeonato. Esse fato político foi a onda. Uma onda não só na presidencial? Primeiro que o Flávio é do Rio. Segundo, tem um bom alinhamento com Douglas. Terceiro que ele terminaria as agendas dele no Rio de Janeiro. Então isso tudo gera a onda, esse voto inconformado de reta final. Afetou também as disputas estaduais? Acho que afetou a todos. O Cleitinho [governador eleito de Minas Gerais], que estava parado em 30 e poucos pontos, subiu. O Douglas ganhou 10 pontos na reta final, e assim sucessivamente. Sergio Moro no Paraná. Eu acho que a canetada de agora foi a Zambelli de 22. É um chiste. Não consigo medir a força de uma nem de outra. O Bolsonaro creditou à Zambelli o desgaste dele. Só estou juntando as pontas, porque acredito que o cancelamento do debate mexeu num voto que estava acomodado, ainda pendente de decisão. Virou um voto de protesto. A canetada da juíza foi mortal para Lula. O cenário é reversível para o Lula? Tudo é reversível. Primeira coisa que se tem que fazer sempre é autocrítica, mesmo quem tiver indo para o segundo turno à frente. O sr. trabalhou com Caiado. Houve algum erro desse grupo de candidatos que se esvaziou? Era um grupo de direita buscando espaço. Houve uma escolha [de Caiado], mesmo sabendo que o [Romeu] Zema tinha derretido por ter precipitadamente atacado Flávio, de fazer o mesmo, muito mais encantado com o barulho das redes sociais. Para você fazer partir para o ataque, tem que ter um mínimo de reconhecimento no eleitor. Senão você passa a ser visto pelo eleitor de direita, não só bolsonarista, como um inimigo da causa. Houve a decisão estratégica de se fazer essa crítica e de atender aos anseios das redes sociais que gostam de guerra. Só que o eleitor não quer guerra, ele não quer briga. Há um cansaço em relação à briga. Isso começa um pouco antes, onde famílias levantavam da mesa porque faziam oposição uns aos outros, amigos que se separam, grupos de WhatsApp que são desligados. Todos nós sabemos o que é essa polarização radical. Isso levou a uma estafa, porque isso não botou comida no prato de ninguém. Vivemos um período de muitas denúncias contra Flávio Bolsonaro, e o que se fala é que elas não colam nele. Seria esse cansaço? Eu acho que o cansaço ajuda. Essa eleição tinha dois preditores, o STF e o [Daniel] Vorcaro. O assunto Vorcaro se juntou ao STF, e, potencialmente, ficou uma coisa muito maior lá. O que aconteceu debaixo disso foram questões pontuais, umas muito relevantes, outras menos. Falo como homem de comunicação. O STF chupou esse assunto e ele ficou muito maior no STF, com muito mais visibilidade, mais repercussão na mídia do que um contato de A, um telefonema de B, um telefonema de C. O cansaço das pessoas fez com que elas meio que desprezassem esse "trash". E uma coisa que potencializou foi uma visão de menos compreensão sobre o poder das redes sociais. Na verdade, as redes sociais afastaram a política. Especialmente em época de eleição, é mentira de um lado, mentira do outro. Elas deixaram de ser um canal de comunicação confortável, compreensível para o eleitor. O que funcionou foi o tráfego pago. Aí sim, as redes sociais têm uma potência grande como canal de propaganda. Falar com mulheres que são mães, por exemplo, de crianças autistas. É a capacidade de chegar em públicos muito específicos que só as redes permitem. As redes orgânicas falam para convertido. Ou você tem ele desde antes por causas, ou por fama, ou por outro motivo qualquer, ou não. É um mito que morre nessa eleição. Por que a experiência dos governos Cláudio Castro e Wilson Witzel não colou no Douglas Ruas? Todas as duas candidaturas se misturavam nesse jogo político. O ex-vice de Cláudio Castro, Washington Reis, agora apoiava Eduardo Paes, e a vice [Jane Reis] era irmã dele. Não existia um lado branco e um lado preto. Os dois lados traziam manchas. Deixou de ser força, porque uma coisa neutralizava a outra. O que que foi força? A novidade. Uma campanha propositiva, por mais que isso pareça poliana. As pessoas estão cansadas de pancadaria, de ter que escolher entre o menos pior. Nossa estratégia foi apresentar uma solução nova, com um olhar mais popular, mais moderno de uma política fluminense que está acostumada com as mesmas figuras há mais de 20 anos. Por que a indicação da família Bolsonaro ainda pesa no Rio depois desse histórico de aparentes erros? Nós apresentamos uma novidade e ficamos batendo nessa tecla o tempo todo. A indicação, o bolsonarismo raiz, esquenta a campanha de Douglas quando já tinha 30 pontos, com uma percepção de uma renovação. Não é que a indicação falhou ou deixou de falhar. O eleitor olhou para essa cena e falou: "Tem uma velha política, tem uma nova política, independente das relações que se estabeleceram no passado". Parece uma grande incoerência, mas não é. Como o Douglas era muito desconhecido, o eleitor não tinha essa percepção de uma aliança, de uma relação pessoal, como por exemplo tinham da relação pessoal do Paes com o Castro, por exemplo. Foi um grandíssimo exagero imaginar que o Castro fosse uma bigorna. Por quê? Mesmo ele passando por esse corredor polonês, ele não fez parte da eleição.

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