Há quase 40 anos, era comum que clientes formassem uma pequena fila em frente à primeira loja do Mundo Verde, em Petrópolis, para comprar arroz integral. Era coisa de "bicho-grilo", diziam, expressão usada para se referir a pessoas com estilo de vida alternativo. Hoje, a rede Mundo Verde tem oito lojas próprias e 170 franquias e faturou cerca de R$ 500 milhões em 2025. A expectativa, diz a CEO da rede, Ana Paula Seixas, é de crescimento de 12% no número de unidades franqueadas em 2026 (ante alta de 25% em 2025) e de expansão próxima a isso no faturamento. Em entrevista ao programa C-level, Seixas diz que o cenário de alta taxa de juros e de incertezas trazidas pelo ano eleitoral explica a previsão de desaceleração. O franqueado se torna mais seletivo, já que investimento inicial para a abertura de uma unidade gira em torno de R$ 250 mil. Mesmo assim, as expectativas para o setor são positivas. O Mundo Verde compõe um ecossistema maior, o de saudabilidade, que movimenta bilhões, desde que a busca dos consumidores por qualidade de vida e bem-estar deixou de ser um nicho para se tornar um estilo de vida, explica Seixas. À frente do negócio está um dos filhos do empresário Carlos Wizard, Charles Martins. Seixas calcula, a partir de pesquisas internas, que o chamado "canal verde" —um dos braços desse setor— alcance hoje faturamento de R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões por ano, com 16 mil lojas especializadas. Um motor atual importante para a popularização dessas lojas são as canetas emagrecedoras. Elas impulsionam o negócio, diz Seixas, porque aumentam a necessidade de consumo de proteína também via suplementação, mexendo no mix de produtos que as lojas oferecem. "Ela traz novos clientes para minha loja. Pessoas que não tinham uma vida mais saudável, que não se preocupavam com a sua alimentação. Em contrapartida, ganho maior concorrência na base, porque todo mundo quer vender proteína. Então se você entrar numa farmácia, vai achar duas marcas de proteína. Se você entrar no supermercado, vai achar a proteína." Mesmo tendo uma noção do tamanho do setor, Seixas diz ser possível que ele seja muito maior. Como uma forma de melhorar a organização, foi criada recentemente uma associação, a ABCAVE, da qual Seixas é presidente. A associação reúne marcas como Armazém Cerealista, Biomundo, Companhia da Saúde, Divina Terra, Fitland, Tudo em Grãos e Mundo Verde, que, juntas, faturam cerca de R$ 1,2 bilhão. Seixas explica que o chamado "canal verde" reúne lojas que oferecem uma linha de produtos segmentados, como os voltados para diabéticos, celíacos, aos que praticam exercício físico, além de chás, produtos a granel e a parte da suplementação— o que não significa que esse tipo de loja não ofereça, por exemplo, produtos industrializados. "Você vai achar um queijo dentro da minha loja? Vai, mas é o queijo sem lactose. Vai ter um pão? Sim, zero glúten, zero açúcar", diz. Questionada se esse conceito de produto voltado ao bem-estar muitas vezes não se resume apenas a uma estratégia de marketing, Seixas reconhece que sim, tende a aumentar, e que o melhor remédio para isso é a informação. "Hoje, a gente está num boom de proteína, então tudo tem proteína. Mas não quer dizer que, se você comprar um chocolate que só tem a proteína, ele [também não possa ser] alto em gordura, em sódio. As pessoas começam a não enxergar o que tem por detrás", diz. Segundo ela, o consumidor precisa aprender a ler rótulos, além de buscar acompanhamento especializado, de nutricionistas, por exemplo. Seixas reconhece a importância das redes sociais no negócio, sobretudo entre consumidores mais jovens. No grupo dos consumidores, no entanto, o carro-chefe são as mulheres com idade acima de 35 anos. Segundo ela, é possível dizer que cerca de 50% das vendas de um produto do Mundo Verde são impulsionadas pelo que viraliza nas redes ou por influenciadores. E outros 50% se devem à tecnologia do produto ou às indicações de um nutricionista. Todos, porém, têm como origem a curadoria da rede. Diante de uma infinidade de produtos ligados ao chamado bem-estar que entram e saem de moda ano após ano, Seixas diz que inovação e modismo muitas vezes podem se confundir. Embora não forneça nomes, ela afirma que há produtos que a empresa chegou a tirar da prateleira por existirem dúvidas em relação à composição. E diz que tomam cuidado com fornecedores para evitar falsificações, um mercado gigante. Entre os modismos, cita a febre do óleo de coco ou da chia, responsáveis por vendas expressivas nos últimos anos. Quanto aos preços, Seixas diz que os produtos voltados ao bem-estar começam a se mostrar mais competitivos, sobretudo porque há maior demanda das classes C e D, algo que, no entanto, varia a depender da região ou do estado. Em São Paulo, por exemplo, o Mundo Verde chegou a ter pontos no metrô, o que foi revertido diante de vendas muito concentradas nas classes A e B. "No Rio, eu performo tranquilamente num calçadão de Bangu porque o culto ao corpo é muito maior. Sudeste ainda está muito concentrado. Mas se eu pegar Rio de Janeiro, Nordeste, a gente atende todos os públicos e eles crescem na mesma proporção." Hoje, a loja que registra as maiores vendas da rede é a do Iguatemi de Fortaleza. Sobre a dificuldade de contratar e reter funcionários relatada pelo varejo de modo geral, Seixas diz que enfrenta o problema atraindo candidatos mais velhos, acima de 40 anos. E prevê uma reinvenção do varejo, caso o fim da escala de trabalho 6x1 seja aprovado. "Não tenho dúvida que vai ajudar todos os funcionários. Não é impossível, mas existe um trabalho. A gente tem somente loja [de rua] e em shoppings, em que a gente trabalha das 10h às 22h, de segunda a segunda. Então, a gente vai ter que se reinventar e tentar não levar esse custo para o cliente final, o que é minha preocupação."
Caneta emagrecedora atrai mais clientes, mas acirra concorr�ncia, diz CEO do Mundo Verde
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