Canella distribuiu sobrenome e espalhou aliados por C�maras do RJ; parte do cl� � citada em investiga��o

Canella distribuiu sobrenome e espalhou aliados por C�maras do RJ; parte do cl� � citada em investiga��o

O deputado estadual eleito Márcio Canella (União), preso pela Polícia Federal nesta quinta-feira (15), ganhou musculatura na política ao assumir o diretório estadual do União Brasil, apadrinhar aliados com o apelido e espalhá-los como candidatos em Câmaras Municipais e prefeituras da região metropolitana. Um vereador do Rio de Janeiro, dois vereadores Belford Roxo e um suplente de vereador em São Gonçalo carregam o apelido de Canella. A prefeita de Belford Roxo, Mariana Malta, passou a assinar Mariana Canella ao assumir a prefeitura, em abril —ela era vice dele. Secretários da cidade na Baixada Fluminense e candidatos não eleitos também adotaram o apelido de Márcio Correia de Oliveira. A reportagem procurou, via mensagens de WhatsApp, a comunicação da Prefeitura de Belford Roxo para entender a mudança da assinatura de Mariana, mas não houve resposta. Canella foi preso sob suspeita de ser beneficiário de um esquema de lavagem de dinheiro com postos de combustíveis e foi descrito pela PF como "patrono político" de uma organização criminosa. A rede teria movimentado R$ 7,6 bilhões. Na representação ao STF (Supremo Tribunal Federal), investigadores dizem que ele é o "elo entre o poder público, a rede econômica e as franjas armadas" do grupo. A defesa afirmou que não teve acesso à decisão. Segundo os defensores, o deputado disse que "confia em Deus, na Justiça e que tem certeza que tudo será esclarecido". Ele foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio na eleição do último dia 4, com 197.178 votos. Até a primeira prisão, em julho, ocorrida em flagrante após a PF ter encontrado um fuzil dentro de um carro, o ex-prefeito de Belford Roxo era tratado por personagens da política fluminense como um dos quadros com maior capacidade de articulação no estado. Aliado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foi mais celebrado do que o candidato a presidente durante um evento do PL, em julho, no Rio de Janeiro. Canella era pré-candidato ao Senado, posição que acabou abandonando após a primeira prisão em flagrante, na semana seguinte ao evento. Ele foi solto três dias depois. Dois aliados que carregam o apelido de Canella são citados no inquérito da PF. Hugo Correia da Cruz, o Hugo Canelão, é tratado pela investigação como supervisor dos estabelecimentos de combustíveis envolvidos no suposto esquema. Paralelamente, diz a PF, Canelão "desempenha a função de liderança e articulação político-eleitoral no município de São Gonçalo". Filiado ao União, Canelão é suplente de vereador e orbita no núcleo da Prefeitura de São Gonçalo, comandada por Capitão Nelson (PL), pai do governador eleito do Rio, Douglas Ruas (PL). A reportagem ligou para telefone vinculado a Hugo Canelão, mas ninguém atendeu. A defesa não foi encontrada. Ele não teve ordem de prisão expedida. Outro citado na investigação é Jorge Canella (União), vereador pelo Rio de Janeiro e tenente-coronel reformado da Polícia Militar. Jorge foi preso em setembro pela PF por posse irregular de armas de fogo de uso restrito —dois fuzis e uma submetralhadora — e foi solto na quarta (14), véspera da prisão de Márcio Canella. A reportagem trocou mensagens de WhatsApp com o advogado Gabriel Miranda. Ele afirmou que não conseguiu contato com o cliente e, por isso, não houve resposta da defesa até a publicação do texto. À época da prisão, o advogado afirmou que as armas eram legalizadas e que houve apenas divergência de endereço no registro delas. A investigação da PF menciona Jorge ao citar um de seus assessores na Câmara Municipal, que possui sociedade em postos de combustíveis suspeitos de envolvimento no esquema de lavagem. Jorge Canella não teve ordem de prisão expedida. Apelidado por conta da altura, segundo antigos conhecidos, Márcio Canella, 49, foi camelô no mercado popular da Uruguaiana, no centro do Rio de Janeiro, e começou sua trajetória política como secretário de Belford Roxo na gestão Alcides Rolim (então no PT). Foi eleito vereador em 2012 e deputado estadual em 2014. Em 2016, foi eleito vice-prefeito na chapa de Waguinho (Republicanos), que de seu maior aliado passou a ser o principal adversário. A cisão ocorreu em 2022, no momento em que Waguinho voltou atrás no acordo de renunciar à prefeitura para se candidatar ao governo do estado, o que deixaria Canella no comando da prefeitura até 2024, quando ocorreriam novas eleições municipais. Canella articulou na Câmara de Belford Roxo a migração de ex-aliados de Waguinho para seu grupo político e, de quebra, a cidade da Baixada Fluminense virou espelho da divisão nacional: Waguinho apoiou Lula (PT) naquele segundo turno, enquanto Canella deu apoio a Jair Bolsonaro (PL). Com o racha, Canella passou a repassar seu sobrenome político a aliados, repetindo o que Waguinho já havia feito na cidade —caso, por exemplo, de Daniela do Waguinho (Republicanos), sua esposa e ex-ministra do Turismo do governo Lula. Em 2022 Canella migrou para o União Brasil, onde ganhou a presidência estadual e criou laços com o presidente nacional do partido, Antonio Rueda. Pernambucano, Rueda foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro no último dia 4 com 155.836 votos –Canella o levou para agendas públicas e comícios em Belford Roxo. Ao público e nas redes sociais Rueda era apresentado como "Tony Rueda" e "Rueda do Canella". Na quarta (14), véspera da prisão de Canella, a Câmara de Belford Roxo elegeu o primo dele, Sidney Canella (União), como presidente da Casa. A lei orgânica prevê que a eleição da mesa diretora, no segundo ano da legislatura, deve acontecer até o dia 15 de dezembro. Procurada, a assessoria da Câmara afirmou que a data da eleição "foi decidida por um entendimento conjunto entre os vereadores" e que "nenhum fato específico que ensejou o pleito".

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