O recuo do Met Gala em transformar John Galliano na grande estrela da sua próxima festa nos faz um questionamento importante nos novos tempos: o cancelamento tem data de validade? Ou, no tribunal da opinião pública, a pena de morte civil deve ser perpétua? Vamos concordar que cancelamento é pena de morte. O caso do estilista britânico é um bom exemplo. Em 2011, no auge da sua carreira e do estrelato na Dior, Galliano foi gravado num café parisiense cuspindo ofensas antissemitas e xenofóbicas e declarando amor a Hitler. "Sua cadela judia. Pessoas como vocês estariam mortas. Suas mães, seus antepassados seriam todos mortos nas câmaras de gás." Pois é. Foi demitido sumariamente, julgado e condenado pela Justiça francesa, internou-se numa clínica de reabilitação, pediu desculpas públicas e passou anos no purgatório fashion. Uma década depois, reinventou a Maison Margiela e voltou a vestir meio mundo no tapete vermelho. Separar a obra do criador é muito mais palatável quando o autor já virou adubo. Podemos ouvir Wagner e Michael Jackson ou admirar Picasso e Gauguin cientes de seus caráteres, com aquele distanciamento histórico confortável. Com os vivos, qual deveria ser a régua? No Estado de Direito, quem comete um crime é julgado, cumpre a pena e tem o direito de voltar ao jogo. Negar isso seria abraçar o punitivismo selvagem que condenaria o transgressor a desaparecer da face da Terra. Mas veja o paradoxo dessas duas situações: Woody Allen, que jamais foi condenado por tribunal algum —pelo contrário, há evidências de que tenha sido acusado injustamente—, virou pária na indústria do cinema. Galliano, cujo delito está posto, ganhou o perdão de um mundinho cínico que se rende a quem garanta manchetes e cifras milionárias. Galliano tem todo o direito de costurar, vender roupas e viver do seu talento extraordinário. O erro está em confundir reabilitação profissional com redenção moral. Uma coisa é permitir que o homem trabalhe, a outra é estender o tapete vermelho do Met Gala para consagrá-lo no altar da moda. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Cancelamento � para sempre?
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