Se Donald Trump imaginava um mundo submisso aos EUA ao impor tarifaços, intimidar nações e atropelar as regras de convivência internacional desde a sua posse, agora colhe uma reação inédita articulada entre a União Europeia e o Canadá. Na quarta (16), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou a intenção de elevar a relação com o Canadá ao mais alto nível e propôs que o país se torne o primeiro membro associado ao bloco, ressaltando que não se trata de união contra um ator global específico. No dia seguinte, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, também declarou que o objetivo da aliança não é rivalizar com as grandes potências, mas buscar maior resiliência para se opor ao controle de mercados e às ameaças à soberania, à integridade territorial e à democracia. A precaução de Carney e de Von der Leyen, ao omitirem os EUA e Trump durante o anúncio, cumpriu o protocolo da diplomacia. A mensagem, porém, foi bem entendida. Em Washington, o republicano repetiu seu agressivo modus operandi: chamou a iniciativa de "ridícula" e ameaçou os europeus com pesadas tarifas. A costura dessa parceria começou antes de Trump impor tarifas de 50% a uma série de produtos canadenses, em agosto, e ser surpreendido pela retaliação de Ottawa. Suas bravatas de converter o vizinho no 51º estado americano e de ocupar a Groenlândia, território da Dinamarca, já eram suficientes para motivar a aliança. No Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, Carney sugeriu a união das potências médias ante a política comercial dos EUA e outros riscos à ordem mundial. "Quem não estiver à mesa estará no cardápio", alertou. A ideia de estender esse tipo de parceria a outros países —entre eles Japão, Coreia do Sul, Indonésia, Reino Unido e Brasil— já entrou no debate europeu. A aliança não atribui ao Canadá a condição de membro pleno da UE. Mas abre caminho para o aprofundamento do acordo de livre comércio de 2016 e a cooperação nas áreas de minerais críticos, indústria espacial e de defesa, inteligência artificial, segurança energética e sistemas de pagamento —todas, igualmente, de interesse dos EUA. Tal junção de esforços não responde apenas ao atual mandato de Trump. Reflete preocupações mais duradouras, como a ascensão da China e a permanência de medidas disruptivas da primeira gestão do republicano, mantidas por Joe Biden, a começar pelo bloqueio americano ao Órgão de Apelação da Organização Mundial do Comércio (OMC). editoriais@grupofolha.com.br
Canad� e UE desafiam Trump com parceria in�dita
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