Em uma sexta-feira de junho, Christiane Bielenski, 38, levou seu pai e seus filhos pequenos a uma área às margens do lago Krumme Lanke, no oeste de Berlim. Era um dia agradável para brincar na água, jogar cartas e construir castelos de areia, como ela fazia durante sua infância na Baviera. Com uma exceção. Não era tão quente assim quando ela era jovem, segundo Bielenski. "Definitivamente não era." As temperaturas em Berlim e no restante da Alemanha ultrapassaram os 38°C em junho, quebrando recordes e deixando milhares de mortos a mais do que normalmente seria registrado nesta época do ano. Outra onda de calor atingiu a região na semana passada. Essa é a nova realidade na Europa, o continente que aquece mais rápido no mundo, onde crianças estão crescendo com uma versão radicalmente diferente do verão daquela que seus pais ou avós vivenciaram. "A geração que estava na escola nos anos 1970 viveu em uma época muito diferente", disse Achim Steiner, 65, presidente da Conferência de Sustentabilidade de Hamburgo, que trabalha para mitigar e se adaptar às mudanças climáticas. Steiner relembrou sua juventude no noroeste da Alemanha, perto de Osnabrück, onde sua escola tinha uma política de fechar se a temperatura ultrapassasse 27°C. Isso, segundo ele, acontecia uma vez a cada poucos anos. Mas nos últimos dois anos, acrescentou ele, "teríamos tido dias e dias de escolas fechadas". Isso está mudando a forma como as crianças veem o verão. "Em alguns dias está quente demais, e o calor é simplesmente sufocante. Sou mais uma pessoa de inverno", disse Sophia Nachtsheim, 15, que visitou Krumme Lanke na última quinta-feira (30) com sua mãe e três irmãos mais novos. "Dá para perceber que está ficando mais quente a cada ano. É bem assustador", afirmou a adolescente. Alba Ostermann, 7, também se refrescou no lago na quinta-feira com sua mãe, Isabel. Ela contou que o calor havia tornado impossível para a filha dormir em seu quarto, fazendo com que fosse para uma barraca no quintal. "Estou acampando no jardim!", confirmou Alba.A Alemanha e a Europa têm registrado aumentos drásticos nas temperaturas de verão nas últimas décadas, em grande parte como consequência da queima de combustíveis fósseis. Dados do Serviço Meteorológico Alemão mostram que o número de dias extremamente quentes por verão dobrou desde a década de 1990 e triplicou desde o início dos anos 1960. Esse aumento impactou o planejamento de viagens. A União Europeia diz que os viajantes estão cada vez mais evitando as praias escaldantes do Mediterrâneo durante o verão e, em vez disso, passando férias mais ao norte. Destinos do sul, como a Espanha, registraram um aumento de visitas na primavera e no outono, quando as temperaturas são mais amenas. Moradores de países com climas mais amenos, como a Alemanha, estão gastando mais para instalar ar-condicionado. O calor adicional está perturbando até mesmo as rotinas simples de quando parece seguro visitar os queridos pontos de refresco. Bielenski, por exemplo, deixou o Krumme Lanke um pouco depois do meio-dia, quando a temperatura havia passado de 35°C. "Eu vejo isso como uma ameaça, especialmente para os pequenos, como um bebê", disse ela. "Pelo meu pai, que está no início dos 70 anos, e pela minha avó de 103 anos em uma casa de repouso, estou bastante preocupada." Alguns europeus do norte dizem que recebem bem o fim dos verões úmidos e frios de sua juventude. Outro visitante do Krumme Lanke, Walrab von Buttlar, 84, lembrou os verões da infância "na Holanda, à beira-mar, e na Alemanha, no mar Báltico, que eram chuvosos e frios, e onde você tinha a sensação de que Deus estava nos privando de um clima agradável". Em um nível pessoal, ele disse que "verões quentes e ensolarados são um passo na direção certa". Dados de pesquisas sugerem que europeus mais velhos e mais jovens estão enfrentando dificuldades com a nova realidade. Mais da metade dos entrevistados alemães disse ao instituto de pesquisa YouGov em junho que estava lidando mal com o calor. O calor causou cerca de 10 mil mortes em todo o país, segundo estimativas do Instituto Robert Koch, uma agência federal que monitora doenças. Outras pesquisas mostram que os eventos de calor extremo estão ajudando a aumentar as preocupações climáticas entre todos os alemães, com as gerações mais jovens ficando ainda mais preocupadas com o clima do que as mais velhas. Steiner disse que havia o perigo de os eleitores se sentirem impotentes e desistirem dos esforços para reduzir as emissões e mitigar o aumento da temperatura. "Esse é o risco no momento de termos alguns dos cenários climáticos mais preocupantes se concretizando." Em Krumme Lanke, em junho, o pai de Bielenski, Helmut, 72, demonstrou preocupações semelhantes. Ele disse que temia que as crianças de hoje "serão a última geração a viver uma vida digna na Terra". Ele não estava preocupado apenas com o calor no ar, que estava passando dos 32°C. Ele estava preocupado com a temperatura do lago onde seus netos estavam brincando na água para se refrescar. A água parecia muito mais quente do que o normal, disse ele. "Conforme a temperatura da água muda, o ecossistema também muda", disse Bielenski. "É apenas uma mudança lenta e gradual, mas de alguma forma irreversível."
Calor extremo transforma o significado do ver�o na Europa
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