Uma fotografia em preto e branco mostra um ônibus lotado e pessoas de bicicleta pedalando em paralelo, dois tempos, duas velocidades. A imagem do fotógrafo indiano Raghu Rai, apesar da falta de cores, não parece tão longe no tempo diante da Nova Déli de agora, um caos frenético de tuc-tucs que aceleram na contramão, o coro das buzinas cortantes e constantes, a nuvem espessa de poluição fixa no horizonte que embaça a luz do sol, macacos que correm pelos telhados e uma ou outra vaca que teima em atravessar o trânsito. Esse passado que invade um presente de cores berrantes serve de âncora para as imagens do mais novo calendário Pirelli, lançado nesta sexta-feira, na capital indiana, com imagens de Avani Rai, filha do lendário retratista das ruas da metrópole, e do norueguês Sølve Sundsbø, nome badalado por trás de campanhas de grifes como Prada, Hermès, Cartier e Gucci, que agora volta pelo segundo ano seguido à folhinha da fabricante italiana de pneus. Sempre com a pretensão de ser um arrasa-quarteirão estético, o lançamento anual é um dos grandes momentos da indústria da moda e da cultura visual, ainda que às vezes esbarre um tanto no kitsch. Num mundo pegando fogo, talvez a ideia de buscar certa inocência quente dos passantes nas vielas em ebulição da Nova Déli de outrora e contrapor isso à beleza das modelos —todas elas têm fortes ligações com a cena cultural indiana—, seja um pedido de merecido respiro. E também um rito de passagem. Raghu Rai, que Sundsbø chama de "Deus da fotografia", morreu no início do ano enquanto ainda idealizava o conceito do calendário. Sua filha então transformou o luto em celebração da vida do pai, criando composições em que imagens clássicas dele são impressas em grandes painéis e aparecem atrás de personagens atuais de carne e osso em Nova Déli e Mumbai —um contraste entre momentos históricos de seu país e, ao mesmo tempo, uma investigação de novas culturas urbanas que florescem nesta Índia polifônica, de dançarinos de rua, vendedores de flores e comunidades transexuais com grande visibilidade. "Terminar o projeto dele foi um jeito de encontrar minha própria voz como artista, porque ele odiava imitação", diz Avani Rai, em entrevista coletiva num hotel de luxo em Nova Déli. "Quando ele morreu, decidi correr para elas no lugar dele, porque ele pertencia às ruas. Ele dizia para estar viva e atenta a cada momento. Enquadro o trabalho dele e a realidade em torno disso anos depois. O passado sempre continua a existir no presente, então dou um passo atrás em termos literais e espirituais."Raghu Rai, como mostra um documentário recém-lançado pela filha, aliás, dizia a ela que nada neste mundo merece ser ignorado, lembrando que não é a câmera que vê —o instrumento serve para retratar aquilo que o coração já entendeu. Ela seguiu o conselho e virou suas lentes então para mais de 130 modelos, gente que encontrou pelas ruas, bailarinos e artesãos, usando como paisagens contrastantes o caos da antiga Déli e o skyline delirante de Mumbai, que concentra a indústria do cinema e da moda do gigante asiático. "São as pessoas de que gosto, as ruas onde está a moda que me toca. E a moda para mim é a minha gente, a nova geração", acrescenta a artista. "Todo mundo tem a mesma importância neste calendário, do mais ordinário ao mais extraordinário. Olhei para cada centímetro de cada composição." Em paralelo, evocando a vibração extravagante e onírica de seu último trabalho na Pirelli, Sundsbø juntou um elenco de atrizes, como Freida Pinto e Aditi Rao Hydari, escritoras, como a poeta best-seller Rupi Kaur, e a apresentadora Padma Lakshmi, e as fotografou na paisagem agreste do Rajastão, deitadas sobre flores, rolando nelas, ou alvejadas por jatos de tinta colorida. É a sua interpretação um tanto exotizante dos excessos cromáticos de um país continental que ainda habita o imaginário do Ocidente como uma terra mágica, de palácios no deserto e tigres sempre à espreita. O norueguês conta que a intensidade do país, as cores, as texturas e os ruídos foram um norte na criação de seus retratos. "Venho do norte, onde as coisas se mexem devagar, e aqui é como sentir um ataque aos sentidos o tempo todo." Ele sabe que é um homem branco de um país rico fotografando um lugar muito diferente daquele em que nasceu, com olhar de forasteiro. Por isso insiste em dizer que não teve a pretensão de retratar uma espécie de essência da Índia. "Raghu Rai era os verdadeiros olhos da Índia. Ele queria incorporar as suas imagens antigas à nova realidade", diz Sundsbø. "O calendário Pirelli não é a National Geographic, tem glamour, tem sensualidade, e isso não era o jogo dele. Ele teria orgulho de como a Avani executou sua ideia. E isso me permitiu o luxo de só fotografar as belas mulheres indianas." Entre elas, está a própria Avani Rai. A artista aparece de vestido amarelo em dois retratos. Num deles, encara a câmera com os olhos de uma fera ferida —a imagem foi feita só duas semanas depois da morte de seu pai. "Ela queria fazer isso porque era um momento especial na vida dela, e dá para sentir isso na fotografia", diz Sundsbø. "Foi uma coisa muito pessoal, de uma certa espiritualidade, e funcionou como uma ponte entre nós." Entre eles e também entre as duas séries realizadas para o calendário. De um lado, as imagens com cara de editorial de moda do norueguês, lançando um olhar saturado e sintético sobre a terra retratada. De outro, a fotografia de rua mais pé no chão de Avani Rai, com alguns toques mais calibrados de realismo fantástico. O abismo estético entre as visões dos dois artistas não incomodou Freida Pinto. A atriz e produtora, que despontou nas telas com o filme "Quem Quer Ser um Milionário?", no início do século, vê grande potência nesse choque entre passado e presente, Ocidente e Oriente, tradição e modernidade. "Quando se fala em moderno e ocidental como a mesma coisa, prefiro sempre usar o termo moderno. Não precisamos macaquear o Ocidente para sermos modernos, temos a nossa própria modernidade aqui. E não sacrificamos as nossas tradições para chegar a isso." "Não existe uma só Índia, há muitas Índias", diz a também atriz Aditi Rao Hydari, conhecida nestas terras por uma série de papéis em filmes de época. "No calendário, eu me senti representando algo único daqui, como se me libertasse de mim mesma e virasse uma flor. Não era eu, era a sensação do que é a Índia, é uma carta de amor ao país." O jornalista viajou a convite da Pirelli
Calend�rio Pirelli mergulha na hist�ria da �ndia em busca da beleza no caos
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.