Obras do escritor alemão Friedrich Schiller despertaram o interesse de músicos ao longo dos tempos, e ao menos quatro de suas peças viraram óperas famosas: "Maria Stuart", "Guilherme Tell", "Turandot" e "Don Carlo". Para além, seu poema "Ode à alegria" foi usado por Beethoven no movimento final da "Nona Sinfonia". "Don Carlo", ópera do período maduro da longa carreira de Giuseppe Verdi, está em cartaz até o próximo sábado no Theatro Municipal de São Paulo. A direção cênica e a iluminação são de Caetano Vilela, e a Orquestra Sinfônica Municipal, juntamente com o Coro Lírico, é regida pelo maestro Roberto Minczuk. Com poucos elementos cênicos e uso soberbo da iluminação, Vilela tensiona o choque entre os ambientes que contornam os cinco atos da história —a floresta de Fontainebleau, na França, onde o infante espanhol Carlo conhece e se apaixona pela princesa francesa Elisabetta di Valois (ato 1); o túmulo do avô de Carlo, o imperador Carlos V, no Mosteiro de San Yuste (na Espanha, atos 2 e 5); uma praça em Madri, em que os hereges serão mortos (ato 3); e as duas cenas internas do quarto ato, o gabinete do rei e a prisão para onde Carlo fora levado. A escolha do elenco —a difícil arte da adequação entre voz e personagem– é o maior destaque da vez, a começar pelo Don Carlo do tenor paraense Atalla Ayan, sonoro e seguro, dando vida a uma personagem marcada pela juventude, a paixão e a impetuosidade. É também um momento importante da atual temporada ver e ouvir ao vivo a soprano Ailyn Pérez, nascida em Chicago, e que cantou pela primeira vez no Brasil. Sua Elisabetta foi feita com emissão clara, emoção precisa e fraseado minuciosamente trabalhado. A mezzosoprano paulista Ana Lúcia Benedetti, no papel de Eboli, foi muito aplaudida em "O Don Fatale", ária do quarto ato, e o baixo Luiz-Ottavio Faria, nascido no Rio de Janeiro, ofertou sua poderosa voz à personalidade triste e solitária do rei Filippo II —sua atuação na extraordinária ária "Ella Giammai M'amo", no quarto ato, segue ressoando na memória. Somente no quarto ato conheceremos O Grande Inquisidor, vivido pelo baixo norte-americano Soloman Howard em participação perfeita. O incrível dueto com o rei, diálogo travado na tessitura profunda dos baixos, define sobre a vida e a morte de pessoas, o destino do reino no triunfo do poder sobre a justiça. Escolhas pessoais e estruturas sociais concorrem juntas na peça de Schiller relida por Verdi e seus libretistas. E no centro de "Don Carlo" está a figura de Rodrigo, o marquês de Posa, que surge em elaboração inesquecível do barítono paulistano Paulo Szot. De mentalidade progressista e liberal, Rodrigo é amigo fiel de Carlo –por quem nutre uma paixão intensa e respeitosa – e torna-se conselheiro do rei Filippo. Defensor do povo oprimido de Flandres, não hesita em dar a vida para tentar salvar Carlo da ira do pai e do Inquisidor. Ver Szot atuar neste momento de sua carreira é um privilégio. À beleza da voz e à técnica perfeita, com emissão cristalina, soma-se um controle fraseológico emocional do mais alto refinamento, capaz de fazer Rodrigo encarar o rei sem medo —"A paz dos sepulcros! É esta paz que dá ao mundo?"—, ou, na delicadeza do encontro com Carlo, dizer "Mio Carlo! Felice ancor io son se abbracciar ti poss’io!" (Meu Carlo! Ainda sou feliz se posso abraçar-te). Aliás, o dueto de Rodrigo e Carlo na prisão, no quarto ato, talvez seja o ponto culminante da montagem em cartaz no Municipal. "Tristão e Isolda", de Wagner, que o Municipal apresentou no mês passado, estreou em Munique em 1865; Verdi apresentou "Don Carlo" pela primeira vez em Paris (inicialmente em francês) em 1867. Escritas pelos mais importantes compositores do teatro musical na época —ambos nascidos no mesmo ano—, as obras são contemporâneas. Mas não poderiam ser mais diferentes. "Tristão" se passa exclusivamente numa interioridade arquetípica, e sua música é precisa em caracterizar essa verticalidade. Já a música de "Don Carlo" sujeita-se às trevas fundas da paixão, às praças públicas e aos gabinetes, aos sepulcros onde a humanidade pulsa, sonha e se esfacela.
Caetano Vilela honra �pera 'Don Carlo' com luzes e vozes soberbas
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