Cortado pela avenida Carlos Marighella, o bairro de Itaipuaçu abriga os locais de votação em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) obteve os melhores resultados no primeiro turno da eleição presidencial em Maricá (RJ). Um dos principais é o colégio Leonel Brizola, inaugurado há três anos pela prefeitura administrada pelo PT. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) somou 55,31% dos votos válidos nas seções da escola, contra 37,6% do presidente Lula (PT). Na cidade, o candidato do PL teve 49,82% contra 43,18% dos petistas, uma diferença maior do que o resultado geral no país, de 47,03% a 45,16%, respectivamente. Acompanhe na Folha em tempo real a apuração do 2º turno Enclave do PT há 18 anos num estado que se converteu em 2018 ao bolsonarismo, Lula acumula derrotas sucessivas em Maricá. Os reveses ocorrem apesar das vitórias sempre acima dos 70% dos votos válidos nas eleições municipais. Moradores da cidade afirmam que a aparente contradição reflete a combinação de um eleitorado conservador, afeito às propostas bolsonaristas, e a força do poder local recheado com benefícios sociais bancados pelos royalties do petróleo. "As pessoas aqui têm medo de trocar o grupo da prefeitura e perder as políticas públicas. Por isso os candidatos do PT sempre vencem. Mas, para presidente, cada um vota pela ideologia pessoal", disse Taíssa Barros, 31, eleitora de Lula que vendia material escolar na praça do Barroco, em Itaipuaçu. Eleitor de Jair e Flávio Bolsonaro, o músico Bruno Viana, 48, afirma que a maioria dos eleitores está "pendurada na prefeitura", facilitando a manutenção do PT no poder municipal. "Pelos benefícios ou pelo emprego, as pessoas acabam votando no PT. No âmbito nacional, as coisas são diferentes", disse Viana. Em 2025, a cidade recebeu R$ 2,6 bilhões em royalties do petróleo, o maior repasse entre todos os municípios do país. A cidade tinha 197 mil habitantes, segundo o Censo de 2022, mas atrai ano a ano novos moradores. Com os recursos, bancou projetos sociais como tarifa zero no transporte público, a moeda social Mumbuca e renda básica de cidadania, que distribui R$ 230 por mês a famílias com renda até três salários mínimos, em complemento ao Bolsa Família. Boa parte dos investimentos vem associado a símbolos da esquerda. Os ônibus gratuitos ganharam a cor vermelha, assim como toda a comunicação visual da prefeitura. A estrada de Itaipuaçu ganhou em 2010 o nome de Marighella, que foi deputado pelo PCB, se envolveu na luta armada contra a ditadura militar e foi morto em 1969 numa emboscada planejada pelos órgãos de repressão. A alegada "maior escola em tempo integral do Brasil", inaugurada em 2023, recebeu o nome de Brizola, líder trabalhista que lutou contra o golpe militar, fundou o PDT e governou o Rio de Janeiro (1983-1987 e 1991-1994) e o Rio Grande do Sul (1959-1963). Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados As gestões do PT em Maricá começaram em 2009, no segundo mandato de Lula, com Washington Quaquá. O investimento do partido no município foi um movimento planejado, tendo em vista as perspectivas de crescimento na arrecadação de royalties do pré-sal, recém-descoberto, na cidade. A tarifa zero no transporte foi criada em 2014, após a apertada reeleição de Quaquá dois anos antes. O PT depois conseguiu vitórias confortáveis, à medida que ampliava os programas sociais. O ex-prefeito Fabiano Horta (PT) foi eleito em 2016 com 96,12% dos votos válidos e reeleito quatro anos depois com 88,09%. Apesar dos resultados, o município seguiu a conversão do estado ao bolsonarismo em 2018. Naquele ano, Maricá deu 57,59% dos votos válidos a Jair Bolsonaro no primeiro turno, frustrando pela primeira vez os planos do PT. Desde então, Bolsonaro manteve-se à frente na cidade. Petista de carteirinha, a vendedora de doces Maria da Conceição, 56, disse que foi até repreendida por uma vizinha ao ir votar com um adesivo de Lula. "Ela me perguntou 'você está comendo picanha?' Mas não é sobre mim. Acho que é muita desinformação e influência da religião", disse ela, que tenta virar o voto do irmão com manifestações de padres católicos em favor do atual presidente. A aparente contradição ideológica se deu até nesta eleição. Flávio liderou nas mesmas urnas que receberam mais da metade dos votos (54%) para a Câmara dos Deputados em candidatos da coligação de Lula. O líder em votação na cidade foi Fabiano Horta. Um de seus eleitores foi Thiago Tadeu, 23, auxiliar de manutenção. Ele votou em Augusto Cury (Avante) no primeiro turno e avalia migrar para Flávio ou anular o voto no segundo. "Ele foi um bom prefeito, apesar de eu discordar da ideologia. Tenho um perfil mais conservador", disse ele. Horta afirma que os resultados municipais não se impõem sobre uma eleição nacional polarizada, como a atual e a última. "A distritalidade não se impõe sobre um voto nacionalizado e tão cheio de variáveis. É uma eleição tão polarizada, de extremos, que fatores de fé e ideologia misturados sensibiliza muito mais do que o êxito de uma administração local", disse ele. Ele afirma também que o aumento da população na cidade, provocado pela indústria do petróleo, faz com que novos eleitores surjam sem vínculos históricos com a cidade e a construção dos programas sociais. Apesar das derrotas, o ex-prefeito afirma que a gestão do PT consegue ter resultados melhores do que os de cidades vizinhas. Em Saquarema, Flávio teve 64,35% dos votos válidos e venceu também em Itaboraí (54,88%) e São Gonçalo (52,37%). Niterói, por sua vez, foi um dos poucos municípios que deram vitória a Lula (48,35% contra 43,71% do candidato do PL). "Esse entorno de Maricá é muito bolsonarista. Isso também afeta a cidade", disse ele. Horta foi o primeiro prefeito a surfar na avalanche dos royalties do pré-sal, que atingiu a casa dos bilhões em 2021. Após dois mandatos, Quaquá foi eleito em 2024 com 73,74% dos votos válidos. Desde então, os dois estão rompidos. O atual prefeito vem promovendo cortes em benefícios sociais e buscando investir na qualificação profissional da população para ampliar a participação do turismo na economia. Os cortes e o estilo verborrágico do atual prefeito, que também provoca incômodo na cúpula do PT, se refletiram na disputa com o ex-aliado nas urnas. Horta teve 50 mil votos para deputado federal na cidade, enquanto Diego Quaquá, filho do alcaide, obteve 16 mil. Ambos foram eleitos, mas Horta comemorou a vitória particular com aliados, em vídeos publicados nas redes sociais. "Foi de lavada", disse no carro de som. À Folha, ele não quis comentar a divergência. Procurado, Quaquá não respondeu às mensagens e ligações da reportagem.
'Bunker petista', Maric� d� vit�ria a Fl�vio e exp�e resili�ncia bolsonarista no RJ
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