Desde 2023, ao menos 14 políticos brasileiros, entre eles os presidenciáveis Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, visitaram El Salvador. Tarcísio de Freitas elogiou Nayib Bukele. Prometem mais presídios de segurança máxima. A queda da violência salvadorenha é mesmo de se estudar. Oficialmente, o país saiu de 105 homicídios por 100 mil habitantes em 2015 para 1,3 em 2025. Há propaganda aí: os números de Bukele não contam mortos pela polícia, corpos em fossas clandestinas nem mortes nas prisões, admitidas até pelo governo. O Cecot, vitrine do regime, não representa as outras 21 prisões do país. Ainda assim, é uma enorme redução. Já vimos outras: Medellín caiu de 396 homicídios por 100 mil habitantes em 1991 para 30 em 2005; São Paulo, de 61 em 1999 para 8 em 2010. Nova York reduziu os homicídios em 70% nos anos 1990. Nesses casos, a propaganda oficial dos governos foi cedendo, conforme os estudos avançaram. Em São Paulo e na Colômbia, organizações criminais haviam sido artífices dessa redução. O que é novo no "modelo Bukele"? A ampliação do encarceramento, conhecemos de longa data: o Brasil foi de 90 mil presos em 1990 a 965 mil em 2025 (4,5 presos por mil habitantes). Bukele foi muito mais longe: essa taxa é hoje de 18 em El Salvador. Entre os homens, quase 9 por mil aqui e mais de 30 por mil lá. Bukele mata os bandidos? Em El Salvador, simplesmente não há dados. No Brasil também são ruins, mas oficialmente as mortes por intervenção policial quase triplicaram entre 2013 e 2023; só em 2025, foram 6.602 mortos pelas polícias. Para chegar tão longe e tão rápido, Bukele virou um ditador: suspendeu garantias, subordinou o Judiciário e eliminou limites à reeleição. O Brasil tentou ir tão longe quanto, mas aqui não dá. Temos um território 400 vezes maior que El Salvador, uma população 35 vezes maior. El Salvador tem a população da Grande Belo Horizonte. Mas não dá não apenas só por isso. As "maras" obtinham renda do controle territorial, da extorsão e do varejo de drogas. Aqui, organizações como o PCC regulam cadeias ilícitas no atacado, são players globais. Retirar integrantes de bairros delimitados pode encerrar a extorsão local, como fez Bukele. Mas aqui não dá certo porque há um mercado global por detrás dos meninos da esquina: eles são substituídos rapidamente. O massacre da Penha e do Alemão, prestes a completar um ano, melhorou a segurança no Rio, diminui a força das facções, ou apenas substituiu soldados? A ditadura militar do "modelo Bukele" também nos é conhecida: as cadeias dos anos 1960 geraram a aliança de presos comuns e políticos, e o CV nasceu nelas nos anos 1970; o massacre do Carandiru, em 1992, ponto alto da era Fleury na segurança, gerou o PCC no ano seguinte. Qual será a reação criminal salvadorenha, das prisões para as ruas, na década que os espera? Em suma, o "modelo Bukele" tem tudo do que não deu certo no Brasil. É nosso passado. Nossa saída seria outra: falo sempre de quatro eixos de uma política de segurança democrática, utopia a construir: i) retomar a soberania estatal esclarecendo homicídios; ii) ampliar a regulação de mercados ilegais; iii) estrangular as finanças das facções; iv) impedir corrupção e letalidade policiais. Voltarei a esses eixos por aqui. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Bukele � o futuro da seguran�a no Brasil?
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