Brit�nico que saiu a p� do Chile em 1998 est� prestes a concluir volta ao mundo

Brit�nico que saiu a p� do Chile em 1998 est� prestes a concluir volta ao mundo

O plano de Karl Bushby de atravessar o mundo a pé começou com um bilhete em um cartão de aniversário. Era meados da década de 1990, e Bushby era paraquedista do Exército britânico, obcecado por testes de resistência. Ele tentava descobrir a maior distância que conseguiria percorrer a pé, mas nenhuma das opções parecia desafiadora o bastante, já que chegavam no máximo a alguns milhares de quilômetros. Então o pai sugeriu, no cartão, que ele pensasse em atravessar o estreito de Bering, entre o Alasca e a Rússia, quando congelasse no inverno. Isso abriria um caminho por quatro continentes. Pouco importava que atravessar a pé o perigoso estreito tivesse poucos precedentes na era moderna. Bushby pegou um marcador preto, foi até um mapa na parede e traçou uma linha da Inglaterra, onde morava, pela Europa e pela Ásia, cruzando o estreito até a América do Norte e descendo até o extremo sul da América do Sul. "Foi aí que percebi que era esse tipo de coisa que eu estava procurando", lembra ele em entrevista. "Agora tínhamos a jornada definitiva." Bushby voou para a América do Sul e começou a caminhar de volta para casa. Quase 28 anos depois, está perto de terminar a jornada. Neste mês, ele atravessou a nado o canal da Mancha e chegou a seu país natal depois de passar metade da vida longe. A caminhada começou na Patagônia chilena, em novembro de 1998, quando ele tinha 29 anos. Ele planeja chegar à casa da mãe, em Hull, na Inglaterra, nesta semana, com 57 anos. A jornada, diz ele, o levou por algumas das paisagens mais inóspitas do mundo, da selva do Tampão de Darién à tundra da Sibéria. Ele foi preso, deportado, ficou sem dinheiro, se perdeu e foi desacreditado mais vezes do que consegue contar. Ao longo de todo o caminho, Bushby se guiou pela vontade de viajar e por duas regras que impôs a si mesmo. Não usaria meios de transporte para avançar e não pisaria no Reino Unido até o fim da jornada, ainda que isso dificultasse ver o filho. Em um pub no sul de Londres, neste mês, Bushby tomava café vestindo roupas esportivas e tênis de corrida gastos, relembrando a trajetória antes da reta final. "Parece um milagre atrás do outro", diz ele sobre a jornada. Nas últimas três décadas, a aventura veio para cima dele "como um tsunami", acrescenta, "e realmente dá uma boa surra". Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo O garoto e a Fera Bushby começou a caminhada em Punta Arenas, no sul do Chile. Tinha cerca de US$ 500 e o que chamava de "A Fera", um carrinho de golfe adaptado que levava equipamento de acampamento, roupas, itens de higiene, comida e água. Em um dia comum, ele tentava andar cerca de 29 km antes de procurar um lugar para montar acampamento. As primeiras centenas de quilômetros foram difíceis, diz. O clima podia ser rigoroso, e ele se alimentava sobretudo de comida de posto de gasolina. "Não tínhamos nenhum apoio", afirma. Bushby costuma usar "nós" para se referir a si mesmo e ao carrinho. "Ele se tornou minha versão do Wilson", diz, em referência à bola de vôlei que acompanha o personagem de Tom Hanks no filme "Náufrago". À medida que a notícia da jornada se espalhava, pessoas passaram a ir até ele de carro para levar comida e dinheiro. Ao longo da caminhada, Bushby também fazia pausas de semanas ou meses para se recuperar e escapar da vida na estrada, que ele descreve como "absurdamente, insanamente tediosa". "Nos primeiros anos, você está vivendo o sonho de aventura de garoto, e é ótimo", diz. "Depois, vira uma rotina desgastante." Bushby sentiu uma mudança em 2002, quando entrou nos Estados Unidos. Ele chegou a Nogales, no Arizona, e deixou de ser uma curiosidade de beira de estrada para virar um incômodo, ou uma ameaça, segundo ele. Muitas vezes era confundido com um morador de rua, diz. "E foi pouco depois do 11 de Setembro, então todo mundo estava muito sensível." Ele era parado com frequência pela polícia, que o mantinha fora das rodovias, o obrigava a mudar a barraca de lugar ou o expulsava de locais públicos. Foi também nos EUA que conseguiu patrocínios, entre eles de uma empresa de hospedagem de sites e de uma marca de palmilhas, que lhe rendiam algumas centenas de dólares por mês. Em 2003, chegou ao Canadá, onde teve uma revelação. Durante anos, ele havia puxado o carrinho, até que um dia, por acaso, o empurrou por trás. "Empurrei sem querer e percebi que, na verdade, podia ser mais fácil", diz. "Dali em diante, passei a empurrar." Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Sobre o gelo e sob custódia russa Entre os muitos desafios que enfrentou, talvez nenhum tenha sido tão extenuante quanto o estreito de Bering. Em março de 2006, Bushby e Dimitri Kieffer, aventureiro franco-americano, começaram a seguir do Alasca para a Rússia pela extensão de gelo instável do estreito. Durante duas semanas, os dois procuraram toda noite o maior bloco de gelo para acampar. "A noite inteira você só ouve o atrito, e o gelo parece gritar", diz Bushby. Certa vez, acrescenta, "tivemos que sair da barraca durante a noite porque aquilo começou a se partir embaixo de nós". A dupla teve sorte. O tempo colaborou nos últimos dias, e eles conseguiram chegar à Rússia. Mas os guardas de fronteira que os receberam não ficaram impressionados. "Eles simplesmente não acreditavam que tínhamos atravessado o estreito de Bering a pé", diz Bushby. Os dois foram detidos por não terem se registrado junto às autoridades russas e ficaram retidos por quase dois meses. O que ficou para trás A decisão de Bushby de ficar longe do Reino Unido dificultou o contato com a família, incluindo o filho, Adam, que tinha 8 anos quando a jornada começou. Bushby, que havia se separado da mãe do filho anos antes de começar a caminhada, diz ter se debatido sobre como conciliar a viagem com a paternidade, pensando que talvez a jornada inspirasse o filho ou o deixasse orgulhoso. "Talvez isso tenha algum valor para mim como pai", conta ter pensado ao partir. Em entrevista, Adam, hoje com 36 anos, diz que, quando criança, não entendia o que o pai estava fazendo nem por que estava longe. Uma virada ocorreu em 2004, quando, aos 14 anos, ele reencontrou o pai no Alasca pela primeira vez desde o início da caminhada. "Naquele momento, eu meio que aceitei: ‘Olha, é isso que você está fazendo’", diz. "‘Vou respeitar e vou torcer por você o caminho inteiro.’" Um fim que se aproxima Na manhã seguinte à travessia a nado do canal da Mancha, Bushby diz ter acordado com uma enorme sensação de perda. Ele afirma que nunca tinha pensado de fato em como seria o fim da viagem, que sempre pareceu distante demais. Agora, a poucas centenas de quilômetros do fim, diz que a sensação é "perturbadora". "Estou prestes a perder meu propósito de vida", afirma. "Vai acabar de repente." Bushby não sabe o que fará a seguir, mas diz ter interesse em se tornar educador de ciências. Também gostaria de compartilhar o que mais o surpreendeu na jornada: a gentileza de desconhecidos. Centenas de pessoas lhe ofereceram abrigo, comida, ajuda ou apenas um abraço. Ele diz ter encontrado acolhimento "em todas as culturas, em todos os países". Ao longo do caminho, começou a espalhar essa mensagem entre jovens como palestrante. "Agora tenho o grande prazer de poder ficar diante de crianças em escolas", diz, "e dizer a elas que o mundo é um lugar muito melhor do que imaginam."

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