Brecht para todos

Brecht para todos

O poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) era um escritor compulsivo. Além de peças, escreveu poemas, contos, romances, ensaios, diários, cartas, aforismos, crítica literária e teatral, roteiros para cinema e peças radiofônicas —além de fragmentos, cadernos de notas, projetos inacabados, escritos teóricos e letras de canções. A partir de 2027, toda a sua obra monumental será de domínio público. Lembro bem da primeira peça que li dele, ainda na minha juventude: "Aquele que diz sim / Aquele que diz não." Em dois pequenos atos, ao mudar a decisão do personagem que disse sim à tradição no primeiro ato e dizer não a ela no segundo, gera uma série de questionamentos críticos com relação à sua permanência. Pela primeira vez, eu experimentava uma relação racional perante uma peça de teatro. Meu coração, tão afetado pelas peças de Shakespeare, tragédias gregas, realismo russo e tragédias rodrigueanas, tinha dado lugar ao meu cérebro. A catarse passava a ser a do meu raciocínio, para além do meu sentimento.A música dele chegou antes a mim do que as peças. Assim como o aristocrata artista reescrevera "A Ópera do Mendigo", de John Gay, Chico Buarque recriou "A Ópera dos Três Vinténs" em sua "Ópera do Malandro", antropofagizando o bardo alemão. Com a sua disponibilização pública, a democratização da sua obra ganhará inúmeros caminhos de recriação, releitura e adaptação, em montagens espalhadas pelos quatro cantos do mundo. O seu desejo de que a obra de arte circulasse, provocasse e pertencesse ao maior número possível de pessoas não só se realizará de forma orgânica como virá em um momento em que as fake news e as polarizações políticas nos aterrorizam com suas narrativas rasas, que se multiplicam como vírus mortais do raciocínio lógico. Com seu "Verfremdungseffekt" (o famoso distanciamento brechtiano), ele nos mune de ferramentas humanas para o questionamento da realidade como ela não é."Quem exerce o poder?", "Quem escreve a história?", "Quem lucra com a desigualdade?", "Como impedir que o autoritarismo se apresente como solução inevitável?", "As coisas são assim porque são naturais ou porque foram organizadas dessa maneira?". As questões propostas pelo seu imaginário estão cada dia mais atuais. Concentração de riqueza, guerras motivadas por interesses econômicos, ascensão de movimentos autoritários, desinformação e propaganda, crise da democracia, desigualdade e exclusão social, o papel da ciência diante do poder, os limites da ética em tempos de crise e outros questionamentos do seu imaginário espelhar-se-ão cada vez mais no pertencimento coletivo. Em tempos onde os algoritmos nos dizem o que pensar, o homem que reinventou o público nos aponta infinitos caminhos de como pensar. Brecht não renascerá só; todos nós renasceremos com ele.TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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