Brasileira � presa pelo ICE ap�s crise de sa�de mental e aborto espont�neo

Brasileira � presa pelo ICE ap�s crise de sa�de mental e aborto espont�neo

Uma brasileira de 29 anos foi detida pelo serviço de imigração dos Estados Unidos pouco tempo após sofrer um aborto espontâneo e ter uma crise de saúde mental relacionada à perda gestacional. O caso foi revelado pelo jornal The Boston Globe. A Folha teve acesso a documentos judiciais e conversou com Iara do Carmo Santana e seu noivo, Gabriel Lemos, 31, que vivem juntos na cidade de Malden, em Massachusetts. No dia 3 de setembro, Gabriel ligou para o serviço de emergência em busca de ajuda para Iara, que, segundo o casal, passava por um episódio de desestabilização emocional relacionado ao aborto espontâneo que havia sofrido. "Eu moro neste país há 11 anos e já tinha chamado a emergência outras vezes", disse Gabriel à Folha. Ele disse esperar que uma ambulância fosse enviada para ajudar a acalmar Iara. Em vez disso, ela acabou presa sob acusação de tê-lo agredido —o que o casal nega que tenha acontecido. A capixaba ficou seis horas detida e, em seguida, foi entregue pela polícia de Malden ao ICE. "Eles estavam lá dentro da delegacia para me prender", contou Iara à reportagem. Iara entrou de forma irregular nos EUA em 2021 pela fronteira com o México. Ela tem permissão de trabalho e uma audiência para seu pedido de asilo marcada para 2029. Gabriel possui green card (autorização de residência permanente) desde 2024. O filho de Iara, de seis anos, vive com o casal. Depois de detida, a brasileira foi então levada ao centro de detenção de imigrantes em Burlington, onde afirma não ter recebido os cuidados médicos de que precisava. Iara estava grávida de seis semanas e três dias quando descobriu, em agosto, que os batimentos cardíacos do feto haviam parado. "A gente já tinha até escolhido nome, eu tinha comprado roupa de gestante", afirma. Ela precisou passar por um procedimento para a evacuação do útero e deveria continuar o tratamento com medicamentos. Segundo Iara, porém, ela deixou de receber os remédios depois de ser detida. "Lá dentro você não sabe se é dia ou noite, não tem como contar as horas, e eu precisava tomar o medicamento certinho, mas eles não me davam." Ela afirma que, como consequência, desenvolveu uma infecção que dificultava seus movimentos. Iara também diz ter dormido no chão durante as três noites em que ficou detida em Burlington, até a concessão de um habeas corpus de emergência. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo A Folha entrou em contato com o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. Em 8 de setembro, o juiz Leo T. Sorokin determinou que Iara não fosse removida para outro estado ou deportada dos Estados Unidos e ordenou sua libertação. Agora, a brasileira responde em liberdade pela suposta agressão ao companheiro e aguarda uma decisão sobre seu status imigratório. "O Gabriel não estava dizendo ‘ei, prendam ela, ela está me machucando’. Ele estava dizendo ‘ei, ajudem ela’", afirma o advogado de Iara, Todd Pomerleau. "Eles estavam animados para serem pais novamente, ter uma família e se casarem em breve. Então o aborto espontâneo é algo que você não deseja para ninguém, e depois ainda ser tratada dessa forma pelo ICE é perturbador em muitos níveis", diz Pomerleau. Iara afirma que, antes da prisão, não tinha medo de ser deportada, apesar do endurecimento das políticas de imigração no governo de Donald Trump. "Eu quero muito me legalizar; eu paguei advogado, fiz tudo certo", diz. "Agora eu não posso nem ver um carro de polícia que eu me tremo toda." Seu noivo afirma que também não se sente seguro, apesar de ter status de residente permanente. "Estão todos com medo. Quando a Iara foi detida, eu fui à imigração de Burlington todos os dias e me falaram para não ir, que eles iriam me prender também", afirmou. "Eu fui todos os dias, porém fiquei com medo, sim." "Esperamos que esse governo passe e que ele passe rápido, porque ele tem destruído famílias", diz Gabriel. "Um green card não é nada além de um pedaço de plástico. Uma cidadania não é nada além de uma folha de papel. Todos deveríamos ser tratados de forma igualitária, independentemente de onde você nasceu ou onde você se regularizou."

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