Brasil vai �s urnas dividido entre quem realiza sonhos e quem se v� deixado para tr�s

Brasil vai �s urnas dividido entre quem realiza sonhos e quem se v� deixado para tr�s

[RESUMO] O salto da capacidade de sonhar dos segmentos populares do Brasil nos últimos anos, argumenta a autora, vem se chocando com uma realidade de precarização do trabalho que multiplica promessas ilusórias de emancipação por meio do empreendedorismo em plataformas e redes sociais. O bolsonarismo surfa nesse desejo de autonomia e liberdade, mas o voto das classes aspiracionais reflete, sobretudo, sentimentos sobre a presença ou a ausência do Estado e o valor atribuído ao esforço individual. Em uma análise da vitória recente da extrema direita nas eleições da Alemanha, Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, apontou que a balança comercial favorável e os empregos industriais não foram suficientes para prevenir o ressentimento daqueles que se consideram, em comparação com a média nacional, em desvantagem econômica. A explicação desse fenômeno foi desenvolvida em um artigo de Laura Carvalho e Guilherme Klein, publicado nesta Ilustríssima, que analisa como bons indicadores da economia brasileira não se convertem em uma avaliação positiva do governo Lula (PT). Os economistas argumentam que a transformação das aspirações dos brasileiros e as novas comparações geradas por esse processo estão no centro da popularidade do presidente. Analiso, aqui, como a capacidade de aspirar se expandiu dramaticamente entre os brasileiros nas últimas décadas. Essa mudança transformou o país e produziu efeitos não óbvios e contraditórios, cujas consequências políticas ainda não foram plenamente compreendidas, mas certamente vão estar em jogo nestas eleições. Há quase três décadas, venho documentando os sonhos atrelados ao consumo e ao trabalho dos brasileiros. Desenvolvi o conceito de classes aspiracionais para me referir aos segmentos populares que aprenderam a desejar outros futuros, ampliaram as suas expectativas e, agora, querem —e sentem que merecem— mais. A ampliação do repertório de aspirações de uma população é um indicador importante do desenvolvimento, porque os sonhos avançam à medida que os horizontes se expandem. Mas isso, sozinho, traz grandes riscos: ao gerar expectativas, pode retroalimentar frustrações e ressentimentos. Consumidores e trabalhadores mais exigentes querem mais e buscam respostas políticas ou para avançar ou para não perder o pouco que conquistaram. Logo, se as aspirações forem atingidas, as políticas de mobilidade social vão bem; senão, a conta chega na forma de radicalização política. Nestas eleições, o que está em jogo é um Brasil dividido entre os que estão concretizando as suas ambições e os que se ressentem. Isso, no entanto, não significa que a realização das aspirações leve automaticamente à rejeição da extrema direita. A percepção da presença ou da ausência do Estado e do esforço individual nessa trajetória é mais importante que a concretização em si das aspirações. Uma contradição insolúvel No Brasil, a expansão da teologia da prosperidade nas igrejas neopentecostais nos anos 1990 e as políticas lulistas dos anos 2000 —ampliação do crédito, inclusão pelo consumo, transferência de renda e ações afirmativas— multiplicaram as aspirações. Na ponte entre os discursos governamental e religioso, o empreendedorismo surgiu como uma promessa de autonomia, prosperidade e ascensão individual. O padrão se repetiu em outros países do Sul Global, como a Índia e as Filipinas, onde também desenvolvo pesquisas: a economia cresceu nos anos 2000 e milhões de pessoas foram retiradas da pobreza sem um rompimento com o modelo neoliberal. Pessoas alcançaram alguma mobilidade social e ampliaram a sua capacidade de sonhar, seja conquistando bens, seja vendo pessoas próximas conquistá-los, mas permaneceram presas a novas formas de precarização, como o trabalho plataformizado em aplicativos e redes sociais. Soma-se a isso o incentivo em massa ao empreendedorismo como saída individual para uma crise marcada pela redução das proteções sociais e trabalhistas. Como resultado, uma contradição insolúvel foi criada: aspirações crescentes, de um lado, e alto endividamento e precariedade econômica e laboral, de outro. Abrindo a janela do consumo Entre 2009 e 2014, eu e Lucia Scalco pesquisamos o consumo das classes populares de Porto Alegre —a primeira geração que podia comprar objetos cobiçados e rejeitar restos e doações de patroas, por exemplo. O Bolsa Família e as novas possibilidades de crédito facilitavam as compras em lojas. Sem grandes perspectivas de futuro, essas pessoas apostavam na cidadania por meio do consumo. Acompanhamos muitos casos: um jovem que juntou tudo o que tinha para comprar um tênis Nike à vista no shopping para não ser confundido com bandido; o aprendiz de padeiro que comprou um celular em 12 prestações e foi roubado na parada de ônibus antes mesmo de pagar a primeira; a cuidadora que usou todo o FGTS para realizar o sonho de levar a família ao Outback. Longe de ser futilidade ou irracionalidade, esses gestos funcionavam como um passaporte para cruzar uma fronteira existencial. As pessoas sonhavam em comprar um produto caro e visível como uma forma de se sentir gente. Chamamos esse momento de reivindicação do direito a brilhar: o prazer pela aquisição de "coisas boas", o empoderamento individual, a consciência de que a sociedade racista e classista não legitimava aquele consumo e, como resposta, a afronta de andar com a cabeça erguida. Os rolezinhos de 2014, tão paradigmáticos do direito a brilhar nos anos 2010, marcaram o ponto de virada da primeira geração dos filhos do Bolsa Família, que buscava visibilidade, reivindicava circular em shopping centers e queria comprar por meios formais. Depois de Junho de 2013 e diante da profunda crise econômica e política que começou em 2014, havia ali o retrato de uma mudança complexa e perturbadora que transformou o Brasil. Não à toa, no estudo "Da Esperança ao Ódio", documentamos, entre 2016 e 2018, como parte desses jovens e dos seus pais, frustrados com a crise econômica, aderiu ao bolsonarismo. O voto expressava uma revolta contra as aspirações frustradas dirigida justamente ao partido que havia aberto essa janela. Novos sonhos materiais e imateriais Em um livro publicado em 2025, investigamos os sonhos de consumo de brasileiros, chineses, mexicanos e filipinos que saíram da pobreza, mas ainda não chegaram à classe média. Eles viviam em um limbo: tinham alcançado uma vida melhor, mas não conseguiam usufruí-la plenamente por causa de dívidas, da violência urbana e de outras formas de precariedade. Nossa amostra era composta de pessoas que acessaram políticas de inclusão social e redistribuição de renda —muitos eram profissionais liberais e autônomos. Quando perguntamos a jovens adultos qual era o seu sonho mais ousado, ouvimos respostas como ter uma poupança, alcançar segurança financeira e se alimentar melhor. No México, muitos queriam reduzir os pedidos de iFood e o consumo de ultraprocessados e incluir orgânicos na dieta. Nesse desejo de comer melhor, também emergiam conflitos familiares, como o caso do personal trainer que saiu da Rocinha para morar em Copacabana, passou a apreciar experiências gastronômicas e já não conseguia lidar com o pai, que "só come frango a passarinho". Esses microconflitos cotidianos evidenciam as grandes rupturas decorrentes da expansão dos horizontes. Encontramos também o sonho de viajar: para Gramado, Salvador, Paris ou a Disney; para países africanos em busca da própria ancestralidade. Muitos interlocutores, os primeiros da família a andar de avião, já viviam essa jornada. Embora tirassem selfies na janelinha, o prazer não estava na exibição, mas no sentimento arrebatador de ampliar os horizontes. Outro achado foi encontrar pessoas que ascenderam um pouco ou estavam rompendo com a pobreza e cujo pertencimento já não passava por exibir a sua capacidade de consumo: não ligavam para roupas nem para celulares de marca, e a realização dispensava símbolos de prestígio, riqueza ou branquitude. Encontramos uma geração de jovens adultos com um estilo de vida mais pé no chão. As políticas públicas, combinadas com o tremendo esforço pessoal, permitiram mudanças sustentáveis entre as gerações. Os sonhos se transformaram em um planejamento de conquistas graduais e realistas. São pessoas que sabem que nada está garantido. Esses grupos não tiveram as suas aspirações castradas, e as suas escolhas políticas rejeitam os extremismos. Sonhar alto demais Já nos últimos cinco anos, a capacidade de sonhar de certos segmentos populares tem se transformado radicalmente com uma explosão de aspirações mediadas pelas redes sociais, em contraste brutal com a realidade. Pessoas dizem que vão acumular dezenas de milhões de reais enquanto escondem a parede sem reboco das suas casas, sonham com uma Ferrari, mas não têm dinheiro para pagar uma corrida de moto por aplicativo, passam horas em ônibus e trens e são frequentemente assaltadas ao voltar do emprego e almejam encontrar no trabalho digital uma saída rumo ao conforto e à liberdade. Esse sonho oferece um alívio: permite imaginar a admiração e o respeito que seriam conquistados com a riqueza. O problema é a dissonância entre esse anseio e as possibilidades concretas de ser realizado. O sonho digital virou um mercado gigantesco no Brasil. O empreendedorismo online, como Brooke Erin Duffy define, é um trabalho aspiracional: uma promessa de renda e emancipação para quem ainda está longe da mobilidade social. Nos aplicativos e, sobretudo, nas redes sociais, milhões de brasileiros tentam ganhar a vida, obter renda extra ou se tornar influenciadores. Muitos jovens têm deixado a escola nessa ilusão. Trata-se de um universo mediado por influenciadores e coaches do marketing digital e da prosperidade, cujas credenciais se baseiam em premissas falaciosas, como "se eu consegui, você também consegue" ou "todo o mundo tem as mesmas 24 horas". Nos últimos três anos, seguimos diariamente 700 influenciadores. Em uma das mentorias, um deles dizia que tinha o código da riqueza de Elon Musk e que os seus mentorados, as 90 mil pessoas do mundo todo que assistiam às suas aulas, seriam parte do novo 1% VIP da humanidade. Abaixo dos grandes influenciadores, se esconde uma pirâmide de exploração da esperança, alimentada por operários da viralização, como os estudados por Rafael Grohmann, e por aqueles que consomem os seus conteúdos. "O que mais vende são reels que trazem a reza da riqueza", me disse um jovem que sonha em ficar rico na internet. Nossos levantamentos mostram que 90% dos influenciadores desse ecossistema se alinham à extrema direita. Esse universo é marcado pela fé inabalável na meritocracia e no individualismo, combinada a estilos de vida conservadores. As redes sociais estão repletas de mantras, técnicas de neurociência e leis da física quântica que prometem atrair riqueza. Terapias prometem curar as feridas familiares que manteriam as pessoas na pobreza. A disciplina e o "mindset" definem tudo. Os seguidores são ensinados a elevar a sua frequência para que ela corresponda à do reino de Deus ou possa atrair a fortuna magneticamente. Outros são incentivados a preencher quadros com imagens dos seus desejos: casas de dois andares, teto quadrado e Jaguar na garagem, jatinhos e muitos milhões. É preciso, ainda, exibir o "print" do saldo bancário e agradecer a Deus pelas bênçãos. Os influenciadores se aproximam das pessoas comuns e forjam uma identificação com os seus modos de falar e viver. Se a capacidade de aspirar depende de modelos, esses profissionais se apresentam como referências próximas: dizem ter pegado ônibus e começado do zero, produzindo conteúdo em casa com um celular velho. Dessa forma, parecem exemplos alcançáveis e ampliam a imaginação do seu público, embora os seus seguidores nem sempre tenham à mão os recursos materiais e simbólicos necessários para concretizar as ambições. Com uma base de dados de quase 2 milhões de aspirantes a empreendedores digitais e diversos projetos etnográficos, acompanhamos muitos desses trabalhadores. São pessoas que vivem de bicos, empregos formais mal remunerados ou trabalhos precários e plataformizados. A maioria delas se define, no Instagram, como empresário, empreendedor ou até CEO. A prosperidade econômica desse segmento que aposta na internet tem sido praticamente nula. É claro que o digital pode oferecer oportunidades a muitos, mas apenas uma minoria alcança o sucesso. A exceção, porém, é vendida como regra e retroalimenta o ciclo da aspiração. O antropólogo Wagner Guilherme Alves da Silva, que pesquisa empregadas domésticas que usam o Instagram como plataforma de trabalho, mostra como elas se reposicionam como "personal cleaners" e aspiram a deixar de ser "Isauras" e se tornar diamantes. Muitas delas compram mentorias para abandonar velhos hábitos, transformar o corpo, atrair riqueza e até se imaginar na capa da Forbes, mas não deixam de vivenciar a precariedade e a violência. Ouvimos muitas pessoas que, mesmo passando horas por dia tentando crescer no universo digital sem obter resultados, se culpam pelo fracasso: "O meu mindset está errado". Os reveses são vividos como algo puramente individual, resultado de energia fraca ou esforço insuficiente. Muitas dessas pessoas são mulheres negras, mães e trabalhadoras com dupla jornada, para as quais a renda extra digital e o home office aparecem como uma saída. Ao não progredir, porém, costumam se endividar para comprar mais uma mentoria com um coach. Aspirar à autonomia Muitos ridicularizam pessoas de baixa renda que desejam empreender, as chamando de "CEO de MEI", referência a microempreendedor individual. A minha proposta é olhar para esse fenômeno sob outro ângulo. Estamos falando de sonhos de realização pessoal, dignidade, tempo livre e conforto: se anseia vender hambúrgueres para comandar a própria vida, controlar o tempo de descanso e se realizar por meio da expressão de quem se é. Estimamos que cerca de um terço da população economicamente ativa usa redes sociais para empreender. As políticas governamentais e o debate público erram ao reduzir a plataformização ao trabalho por aplicativos, ignorando o fenômeno mais amplo e profundo do trabalho nas redes sociais. Uma das maiores aspirações dos brasileiros sempre foi ter carteira assinada. Embora pesquisas apontem a predominância desse desejo hoje, cresce a ambição pelo trabalho autônomo. O discurso que associa a CLT à falta de ambição, ao fracasso e à humilhação não domina apenas as redes, mas ganha força na linguagem popular porque toca em uma ferida profunda: o legado de uma cultura de subalternidade associado a uma rotina de "corres" e "perrengues". Isso não significa que os brasileiros não queiram empregos formais. As pessoas não querem mais se sujeitar a empregos ruins. Trabalhar no digital ou por aplicativo e sonhar com liberdade e autonomia faz sentido em um país que marginalizou os trabalhadores informais e maltratou os formais em empregos mal remunerados e com longas jornadas, que sugaram a sua criatividade e força física e mental. Por trás do desejo de ser CEO no Instagram ou se tornar patrão de si mesmo, está a vontade de controlar o próprio tempo e não ter que obedecer ordens. Esse Brasil que quer andar de cabeça erguida e ser tratado como diamante tem menos a ver com um ímpeto neoliberal e mais com algo fundamentalmente humano: a busca por visibilidade e respeito em um país que invisibilizou e humilhou os grupos populares e a procura por autonomia e conforto em uma cultura de trabalho que historicamente os explorou. Essa não é uma explicação romântica para um mal social. O desejo mesquinho, o egoísmo, a ostentação e a exploração existem por todos os lados. A extrema direita surfa nesse desejo de liberdade e o transforma em força ideológica, mas as ausências estruturais são a base desse processo. A raiva e os sonhos do autoritariado Nestas eleições, precisamos entender como as classes aspiracionais votam. A resposta depende menos da concretização ou da frustração das aspirações e mais da forma como o Estado é percebido nesse processo. Não há um modelo rígido de voto, mas uma tendência se destaca: parte daqueles cujas aspirações foram ampliadas e concretizadas tende a rejeitar a extrema direita e a votar em Lula. São pessoas que guardam uma memória mais viva da presença contínua do Estado ao longo da sua trajetória de melhoria. Contudo, existe um universo imenso e muito desafiador à compreensão do impacto da expansão das aspirações na adesão ao bolsonarismo. Refiro-me tanto àqueles cujas aspirações seguem frustradas quanto aos que as concretizam por caminhos que julgam ser puramente individuais e meritocráticos, ou seja, sem a influência estatal. Ambos os grupos consideram o Estado ausente, ineficiente e corrupto, que só aparece para taxar e extorquir. Chamei esse universo social de autoritariado: frações das classes aspiracionais e pobres que, como grande parte da população brasileira à margem do mercado de trabalho formal e das proteções sociais, aprenderam a se virar. O autoritariado é oprimido e opressor. Cada vez mais plataformizado, está encarnado tanto no estereótipo do Uber bolsonarista quanto nos autônomos que, segundo um levantamento do jornal O Globo, representaram 43% dos presos pelo STF por participação no 8 de Janeiro. Esses segmentos estão cada vez mais alinhados não apenas ao conservadorismo e ao autoritarismo, mas também ao libertarianismo. O autoritariado acredita apenas no seu esforço e vê o Estado como usurpador, mas espera um pulso firme para cortar as mamatas. É seduzido por bets, criptomoedas, imposto zero e figuras como Musk. Não se revolta contra as grandes fortunas e tampouco defende a sua taxação: almeja ser parte das superelites. O bolsonarismo e os seus aliados, em diferentes graus de radicalidade, têm ganhado de braçada entre o autoritariado. Aqui, voltamos à dimensão comparativa da percepção dos indicadores econômicos. A lógica é esta: "Ao mesmo tempo que percebo o Estado como profundamente ausente para mim, sinto que ele, que nada me deu e muito me tirou, é muito presente e benevolente para os outros". Carvalho e Klein mencionaram o papel dos feeds na ampliação do repertório de aspirações. De fato, raramente se sonhou tanto e tão alto, mas isso não significa que a raiva e o ressentimento tenham se ampliado na mesma escala. Ao contrário do que se imagina, essas emoções não são dirigidas a um inimigo abstrato, forjado pelas redes sociais. As redes ampliam os horizontes e preparam o terreno, mas a raiva desce ao chão da vida cotidiana e permanece profundamente paroquial. Se as aspirações se constroem na comparação com os de cima —os ricos e "livres e felizes"—, a raiva nasce da comparação com os rechaçados de baixo. A indignação é com a "vizinha preguiçosa, que não faz nada e só vive do Bolsa Família enquanto eu me mato de trabalhar". Isso é o que chamo de senso de merecimento precário: diz respeito ao sujeito que conquistou um pouquinho a mais e, por isso, se acha superior em uma narrativa que valoriza o trabalho individual duro. Mais que falta de consciência de classe, se trata de uma forma de desejo de tentar se salvar do estigma da pobreza e repassá-lo para baixo. Em um "país de vagabundos", o desprezo à pobreza produz a vontade desesperada de não ser reconhecido como pobre —e leva a culpa aos menos privilegiados. A extrema direita, que se caracteriza justamente pela narrativa do "nós contra eles", joga lenha nessa fogueira. Enquanto os estudos sobre a extrema direita se concentram nas emoções negativas —raiva, ressentimento, frustração, ódio e nostalgia—, tenho preferido olhar para os sentimentos positivos, os sonhos e as aspirações. É um erro achar que o bolsonarismo se assenta somente no ressentimento pelas aspirações frustradas. O anseio do sujeito de mostrar que é melhor que a "vizinha preguiçosa" e esfregar isso na cara de quem antes o humilhava encontra hoje o seu lugar no empreendedorismo e nas novas formas de trabalho, alimentado por promessas meritocráticas de esforço individual. O autoritariado vai às urnas O bolsonarismo e os seus aliados têm falado com esses grupos de muitas formas: exaltando o trabalho duro, desqualificando o Estado e, durante a pandemia, afirmando que o Brasil não podia parar. A extrema direita surfa no desejo legítimo de autonomia e o transforma em liberdade individual. Na campanha, Flávio Bolsonaro (PL) se concentra no poder de compra, no endividamento, no Estado taxador e na violência. Para além do bolsonarismo, existe um leque de opções que, ainda que não se apresentem diretamente como de extrema direita, ecoam as aspirações do autoritariado. Pablo Marçal (PRTB) e Augusto Cury (Avante), por exemplo, vieram de um mundo político digital muito semelhante. Não à toa, ambos pareceram surgir do nada e alcançaram intenções de voto significativas. Desapercebidos por muitos, estavam falando a milhões de sonhadores havia anos. Cury, em particular, reina no universo dos coaches de prosperidade e, ainda que não defenda abertamente pautas de extrema direita, é parte do mesmo ecossistema digital, sustentado por uma crença inquestionável na força individual e dirigido a milhões que acreditam apenas em si mesmos e em Deus como caminhos para o crescimento. Ele representa justamente esse novo universo do trabalho que, ao considerar o Estado ausente, vê nas terapias de cura de dores individuais —das perdas e da pobreza— a solução para problemas coletivos. Para Lula, o desafio é imenso: como gerir o monstro imprevisível que saiu da janela das aspirações —janela também aberta por ele? Para um partido calcado na luta histórica de uma parcela dos trabalhadores, especialmente os sindicalizados, como falar e se conectar com um grupo que se desprende do Estado, vê a saída no indivíduo —não na luta coletiva ou na democracia— e busca autonomia por meio do sucesso empreendedor? Como entender o direito a brilhar sem transformá-lo em políticas neoliberais ainda mais individualizantes e, principalmente, tornar o coletivo e a democracia uma nova aspiração? É preciso lembrar que a tendência libertária do autoritariado, vinda da revolta contra o Estado, não significa que não se queira o Estado. Ao contrário, as pessoas se ressentem da sua ausência. Portanto, em um mundo do trabalho cada vez mais pejotizado e plataformizado, a questão não se limita a recriar narrativas para falar com esses trabalhadores. Em vez disso, escancara o desafio tremendo de desenhar políticas públicas robustas que preservem o desejo legítimo de autonomia e conforto e ampliem a proteção do Estado às classes aspiracionais.

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