Brasil tem voca��o para a alegria, e n�o h� pa�s alegre sem justi�a social

Brasil tem voca��o para a alegria, e n�o h� pa�s alegre sem justi�a social

Há tempos estou dedicada à leitura de textos sobre saúde mental, manicômios, relatos de internação por parte de pacientes e médicos, diários e reportagens. É parte importante da pesquisa para o meu novo romance. Já são 20 anos pensando neste livro, várias versões feitas que não ficaram do meu agrado, muitas horas de trabalho e páginas escritas jogadas no lixo. Não tenho pena de deletar arquivos, problema algum. Ruim é publicar qualquer coisa só para não ter que recomeçar. Péssimo é lançar um livro com um arremedo de texto sabendo que poderia ter feito melhor, com mais tempo. No conjunto de leituras resolvi reler "O Alienista", do Machado de Assis, pela terceira vez. Nas duas primeiras, eu achei muito engraçado. A ironia na descrição dos adoecimentos, as lorotas que o médico encontra para justificar a internação das pessoas, o narrador que se faz de isento, mas opina sobre tudo e todos, eu ri muito. E dessa vez comecei rindo também, mas aos poucos fui achando tudo muito triste e perigoso. Talvez seja por causa da semana que vivemos. O Brasil está, de novo, dividido em duas partes. Estou do lado de cá, onde acreditamos na leitura como transformação, nas bibliotecas, na arte, na cultura. Achamos fundamental que todos tenham direito à educação, moradia, saúde e que para isso os mais ricos destinem uma parte de seus lucros para que todos vivam com dignidade. Nessa utopia haveria menos desigualdade e justiça. Acesso gratuito à universidade, pesquisadores bem remunerados descobrindo caminhos e curas. Filmes e livros falando de nós, brasileiros, para o mundo ver como somos um povo de riqueza simbólica profunda, sobre o chão de um dos lugares mais bonitos do planeta. Lendo "O Alienista", vi no Simão Bacamarte um sujeito com a visão nublada pelo radicalismo, sem sentimentos, sem sensibilidade, tratando tudo de forma pragmática e enchendo os baús de dinheiro – quanto mais internos, mais pagamentos, só isso importava, além de uma convicção cega que retirava dos infelizes o direito à defesa e liberdade. Para esquecer um pouco a sombra da semana, assisti ao filme "O Aniversário". A estrutura de negativismo e escuridão é parecida com a do "Alienista". As coisas começam bem, com cor, sob o sol e vão ficando tenebrosas quando um grupo de radicais pensa que é preciso eliminar quem discorda de uma nova ordem nacional, sem cor e com direitos básicos ignorados. Nesse lado de cá, queremos que os pacientes psiquiátricos façam parte de projetos humanos de saúde, que sejam cuidados e tratados da melhor maneira. Queremos alimento em todas as mesas, livros em todas as casas, diplomas nas mãos de todas as cores. Queremos uma vida justa, do jeito que o Brasil merece. Meu avô morava em uma cidade pequena do interior do Ceará chamada Piquet Carneiro. A rua principal tem seu nome, Cícero Alencar, porque ele abria as portas da sua casa e dividia o pouco que tinha com as pessoas que iam até lá para que fossem atendidas por profissionais de saúde que vinham de Fortaleza. De graça. Porque para ele, era o certo a fazer. Meu entendimento de mundo é este: quem tem mais divide com quem tem menos. O Brasil tem vocação para a alegria e não há país alegre sem justiça social. A bênção, meu avô. Obrigada por seu exemplo. Do lado de cá, seguiremos sua luta. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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