São Paulo Quando se considera a situação fiscal do país, a conclusão é que o Brasil é como um paciente cuja febre já atingiu os 42 graus, em um quadro insustentável que precisa ser enfrentado com reformas. Em meio à crise do STF (Supremo Tribunal Federal), o país precisa ainda garantir a força das suas instituições. O diagnóstico foi feito pelo economista e ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga em entrevista ao jornalista Fernando Canzian durante evento de lançamento do C-Level, site de negócios e finanças da Folha, nesta quinta-feira (24). Conversa entre o ex-presidente do BC, Arminio Fraga, e o jornalista Fernando Canzian durante o lançamento do C-Level - Rubens Cavallari/Folhapress "O Brasil é um paciente que está mostrando uma febre maior, de 42 graus. Não dá para continuar", afirmou Fraga ao ser questionado sobre a situação fiscal brasileira. "E talvez seja um país que tenha uma doença muito grave também em outras áreas, o que agrava ainda mais o quadro." Ele disse acreditar que o próximo governo provavelmente adotará ações para conter o crescimento da dívida pública. "Alguma coisa terá que ser feita, o que já não é pouco. Mas eu estou mais preocupado ainda com o quadro institucional do que com o econômico", afirmou. Ao falar sobre as responsabilidades do Congresso nesse cenário, Fraga disse que o Senado tem uma missão importante pela frente. "Aí vem essa dinâmica do Supremo. Acho que o Senado, particularmente, tem uma missão enorme pela frente, que é 'impichar' dois, três que são óbvios", disse. Sobre a situação econômica, Fraga avaliou que hoje a política fiscal está brigando com a monetária, em um cabo de guerra que empurra os juros para cima. "O governo brasileiro toma dinheiro emprestado a curto prazo pagando 9%, 10% acima da inflação. Tem o juro global também: o americano está pagando 3% acima da inflação para tomar dinheiro a 20 anos. Essa situação, com certeza, não se sustenta." C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesO ex-presidente do BC apontou que o país não deveria arriscar-se a chegar a um ponto em que a situação fiscal se torne irreversível. Ele fez um paralelo entre a economia brasileira e o aquecimento global, citando um artigo escrito pelos cientistas Carlos Nobre e Thomas Lovejoy. No texto, eles escrevem que não faz sentido descobrir qual é o ponto de não retorno ultrapassando esse limite. "A gente não quer testar isso", disse. Fraga indicou algumas questões principais que precisam ser enfrentadas para impedir que o país chegue a uma situação da qual não possa voltar. A primeira delas é uma nova reforma da Previdência. "A Previdência brasileira é gigante, é bastante generosa pelos padrões globais, levando-se em conta a nossa demografia. E ela vai continuar crescendo. Se a gente começar a cuidar também do que vai acontecer daqui a 10, 20, 30 anos, isso ajuda muito." Ele citou uma proposta que apresentou em conjunto com especialistas na área, que propõe unificar em 67 anos a idade mínima para a aposentadoria de homens e mulheres. "O projeto que apresentamos foi espetacular, é uma proposta completa. É botar na mesa, discutir e votar." O segundo tema, na avaliação de Fraga, é a reforma administrativa, mirando o tamanho da folha de pagamentos do Estado brasileiro. "É um grande problema de estados e municípios. É difícil também porque em cima disso estão características antigas do nosso país: a relação com o Estado, o patrimonialismo, a captura do Estado." Como terceiro ponto, ele vê a necessidade de melhorias no sistema tributário brasileiro, reduzindo os gastos tributários. "É importante ter em mente que os gastos tributários há uns 30 anos eram de 2% a 3% do PIB. Hoje são de 5% a 6%", disse. Segundo Fraga, essa área grita por uma resposta. "É uma briga inglória. Não acredito em ideias de choque total, é preciso acontecer aos poucos." O economista ressaltou a necessidade de revisão dos gastos públicos, ponto em que há a possibilidade de gerar resultados no curto prazo. Para ele, essas melhorias devem ser implementadas de forma gradual, estipulando-se a entrega de resultados primários realistas. "Hoje um déficit bem medido deve estar mais perto de 1% do PIB. Seria bom passar relativamente rápido para o superávit, e sinalizar que vamos para um superávit maior. Precisa chegar uma hora em que o Brasil tenha um juro mais normal." Ele também apontou a preocupação com o fato de os juros americanos estarem elevados, o que reduz a atratividade do Brasil. "Quando isso se casa com a preocupação que eu tenho das qualidades institucionais do Brasil, vejo um grande problema. Pela pura aritmética da dívida, não tem solução fácil. Vamos ter que trabalhar e apresentar resultados qualitativos de grande importância." Na avaliação do ex-presidente do BC, todos esses pontos são de difícil implementação. "Não vai dar para empurrar com a barriga. O mercado de crédito está muito afogado porque a taxa é muito alta, o risco é grande. Essa crise está vindo. O aperto do crédito pegou o crédito pessoal, o varejo, as empresas." PREOCUPAÇÕES INSTITUCIONAIS E ECONÔMICAS Segundo Fraga, há duas preocupações principais com os candidatos à Presidência que estão à frente nas pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT). "No campo bolsonarista assusta o lado institucional, e no caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a condução econômica. Seria bom ter um segundo turno que permitisse um debate mais aprofundado. O cardápio diante das necessidades do nosso país é muito desafiador", afirmou. Fraga disse que o desaquecimento da economia brasileira está encomendado. "O Brasil segue com uma taxa de investimento muito baixa", disse. "Hoje o Brasil atrai capital, mas é pouco para o que poderia receber. Para isso se normalizar, você teria que ter um ganho de confiança." Para ele, há um risco significativo de frustração das expectativas da população com o ritmo da economia nos próximos anos. "O risco de frustração é real. Quando você tem um período de alívio momentâneo, mas a economia real desacelera logo em seguida, a distância entre a expectativa criada e o bolso do cidadão gera uma decepção profunda, que facilmente se converte em revolta social e instabilidade política", afirmou. Fraga concluiu a conversa afirmando que não é possível separar política fiscal de pobreza, informalidade e produtividade. "Tudo faz parte da mesma engrenagem. O Brasil construiu uma rede de proteção importante, mas com distorções evidentes", disse. "O Bolsa Família é essencial e deve ser preservado, mas a pergunta central é: o que vem depois? A assistência combate a miséria imediata, mas a verdadeira emancipação vem pela educação de base de qualidade, saúde preventiva e condições reais para a mobilidade social."
Brasil tem febre de 42 graus, precisa ajustar fiscal e cuidar de suas institui��es, diz Arminio Fraga
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