Brasil ser� o grande teste para o uso de IA em elei��es no mundo, diz executivo da OpenAI

Brasil ser� o grande teste para o uso de IA em elei��es no mundo, diz executivo da OpenAI

São Paulo O Brasil será o grande teste para o uso de inteligência artificial em eleições no mundo e representará um aprendizado para vários pleitos do ano que vem. É assim que Bruno Lewicki, 51, head de políticas públicas da OpenAI na América Latina, define a visão do gigante de inteligência artificial sobre a eleição brasileira deste ano. Em entrevista ao podcast A Máquina, série da Folha publicada pelo Café da Manhã durante o período eleitoral, Lewicki diz que a empresa se preparou e acredita em uma eleição sem sobressaltos ligados ao uso de IA. Mas afirma que muitas das regras do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) são novas e não se sabe como serão aplicadas. Em relação ao veto a conteúdo gerado por IA nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores ao pleito, acredita que não é responsabilidade das empresas, mas, sim, das redes sociais. "A norma do TSE não fala em geração de imagens ou conteúdo sintético. A norma veda a publicação, a republicação e o impulsionamento desses conteúdos." A Folha e o UOL têm um acordo comercial com a OpenAI que viabiliza o fornecimento de conteúdo jornalístico para o ecossistema de inteligência artificial da empresa de tecnologia. O head de políticas públicas da OpenAI para a América Latina, Bruno Lewicki, participa de evento no Rio. - Ricardo Moraes - 09.jun.26/Reuters Como a OpenAI se preparou para a eleição? O primeiro ponto é a transparência. Quando a gente fala em inteligência artificial no Brasil, um dos grandes questionamentos das pessoas é: "Ah, mas o que foi gerado por inteligência artificial versus o que não foi? Hoje em dia não dá mais para saber o que é real ou não". Tudo que é gerado no ChatGPT sai com uma etiqueta digital, com metadados sobre a origem do arquivo, e uma marca d'água invisível, que também permite saber se uma imagem foi gerada pelo ChatGPT. Teve até um caso recente no Brasil, em que um suposto relatório da Polícia Federal circulou em redes sociais, e uma jornalista de uma agência de checagem de fatos mostrou que era IA [relatório atribuído à PF em que a instituição afirmava não haver indícios de crimes do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em conversa com o empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master]. Ela se beneficiou de uma ferramenta que a gente disponibilizou ao público. É uma página à disposição de todos, você faz o upload ali, coloca uma imagem ou um áudio. Por causa dessa etiqueta digital e dessa marca d'água invisível, a página instantaneamente diz: "Olha, esse arquivo foi gerado integralmente ou com ajuda do ChatGPT". E quando é texto, dá para checar? Por essa ferramenta, não. Tem várias outras, mas nenhuma é proprietária. O segundo ponto é o acesso à informação. Aqui no Brasil, são 215 milhões de mensagens diárias enviadas ao ChatGPT. É uma fonte muito preciosa de informação, desde que seja informação de qualidade. O modelo já é treinado para evitar informações que não sejam fidedignas, com vieses, mas também por meio de várias parcerias que a gente tem com o setor de mídia, inclusive a própria Folha. E um cuidado que se intensificou nesse período eleitoral é incluir fontes oficiais como o TSE, por exemplo, ou fontes de jornalismo de qualidade. E o terceiro ponto é o monitoramento constante pelas nossas equipes de segurança, inteligência, integridade, de todas as políticas de uso dos nossos produtos, que já proíbem a vastíssima maioria de tudo que as pessoas pensam que pode causar algum ruído em processos como eleições. Mas não basta proibir, é preciso ter sistemas internos que permitam detectar e aplicar essas políticas, e a gente tem passado por um aprimoramento constante desses sistemas para ter certeza de que estejam em bom funcionamento para as eleições no Brasil. O que é proibido em conteúdo eleitoral? O TSE, todo ano eleitoral, publica novas regras, trazendo novas questões que vêm sendo suscitadas. Uma das inovações de 2026 foi que modelos de IA não podem ranquear, recomendar, sugerir, favorecer ou desfavorecer direta ou indiretamente candidatos, partidos. É uma questão que a gente já trata, porque o modelo já é treinado para não ter viés em qualquer questão e sobretudo em matéria política eleitoral, que é tão sensível. Mas essa é uma norma nova também, sobre a qual não tem jurisprudência ainda do TSE. Houve relatórios dizendo que os modelos, não só o ChatGPT, ainda estão recomendando, ranqueando. Temos aprendido muito e aplicado esse aprendizado para que a ferramenta evolua. A gente tem políticas muito robustas que proíbem a personificação indevida para fins eleitorais ou para difamar alguém. O uso em campanhas eleitorais também é vedado, a não ser para certas atividades mais administrativas. E, de um mês para cá, o ChatGPT no Brasil tem anúncios, na versão gratuita e em uma das pagas, mas não tem anúncios políticos ou eleitorais. Também não tem no resto do mundo. Mas, no Brasil, não tem, em especial em atenção ao fato de que é um ano eleitoral e não seria o momento para ter isso. Que outras políticas existem para impedir desinformação eleitoral? O modelo é treinado para evitar qualquer conversa que sugira supressão de voto, interferência no processo eleitoral. Boa parte do trabalho das equipes internas de segurança é para evitar interferências no processo eleitoral. Isso já aconteceu em outras eleições e foi objeto da atuação da empresa. Na Índia, em 2024, houve uso do ChatGPT em combinação com redes sociais usando personas falsas de mídia. Vinha de um ator não sediado naquele país, com o objetivo de privilegiar um partido em detrimento de outro. Não teve grande engajamento, não causou um prejuízo, até porque foi detectado pelos nossos sistemas. Estudos do ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade) e do Observatório IA nas Eleições indicam que, apesar de isso ser vedado, vários chatbots, não só o ChatGPT, ainda ranqueiam e recomendam candidatos. O que vocês têm tentado aprimorar? É algo complexo, pelo próprio modo como o modelo trabalha, uma lógica diferente de um sistema de busca. O modelo de inteligência artificial não é uma base de dados, uma enciclopédia que tem as respostas. Ele leva muito em conta o contexto, quem é o usuário, qual a conversa, e a partir daí ele constrói uma resposta específica para a pergunta feita. Falando desses estudos, são instituições pelas quais nós temos o maior respeito. Mas esses estudos começaram a coletar material em fevereiro, e os últimos foram coletados em julho. A campanha nem tinha começado ainda. Hoje estamos em uma posição que ainda não está refletida nos últimos estudos. Pedimos um novo estudo ao professor Diogo Reis, para complementar na questão temporal, e capturar alguns dos melhoramentos que conseguimos implementar nos últimos meses e semanas. Esse estudo já reflete algumas dessas melhorias —em 33 tentativas, em 32 o modelo se negou a ranquear ou recomendar. Vocês mobilizaram mais gente ou tecnologia por causa da eleição brasileira? Não no sentido de que foram contratadas pessoas a mais. Agora, é uma tecnologia que se aprimora todo dia. O Brasil está sendo um grande case de eleições. Em 2026, temos um momento de virada por causa da disseminação que a IA tem no mundo hoje. Vai ter uma série de eleições no ano que vem, na França, por exemplo, e muito do que está sendo testado no Brasil será um aprendizado muito importante. Eu vejo isso internamente, interesse de colegas meus que trabalham com políticas públicas, relações governamentais na França, na Espanha… O Brasil sendo um grande case de eleições no mundo, quais são os principais desafios? O objetivo é garantir que a eleição transcorra bem, sem sobressaltos. Incidentes podem acontecer? É uma possibilidade em uma eleição que tem mais de 20 mil candidatos. Mas a gente encara esse processo com muita tranquilidade, temos o estado da arte do que pode ser oferecido hoje no campo da IA. Por outro lado, a gente encara esse processo com uma humildade muito grande, tentando aprender e corrigir. O TSE determinou este ano que nenhum conteúdo usando IA possa circular, mesmo rotulado, 72 horas antes da data da eleição e 24 horas depois. Como vocês estão se preparando para cumprir isso? A norma do TSE não fala em geração de imagens ou conteúdo sintético. A norma veda a publicação, a republicação e o impulsionamento desses conteúdos. Mas como qualquer outra norma, principalmente certas normas do TSE, que são novidades para essa eleição, precisamos esperar para ver como o TSE vai aplicar na prática, porque ainda não tem jurisprudência. Então, no entendimento de vocês, esse veto só se refere a compartilhamento? Se começar a circular uma imagem de IA nesse período, a rede social é que será a responsável? A norma tem as previsões de responsabilidade para a rede social e para quem disseminou o conteúdo. A gente vai continuar atuando com todas as camadas de defesa, podemos indicar a procedência, monitorar usos que sejam contrários às nossas políticas. Recentemente, um pesquisador da Anthropic, que havia trabalhado antes na OpenAI, disse que há uma corrida desenfreada para desenvolver uma superinteligência artificial e que isso pode destruir a humanidade até o fim da década. Como você encara a possibilidade de a IA levar à destruição da humanidade? Estou na empresa desde janeiro deste ano e estou muitíssimo bem impressionado com o quanto a empresa se preocupa com a segurança e se pauta por ela. Existe um debate muito aberto e honesto dentro das empresas tanto sobre os benefícios que a IA pode trazer em um futuro bem próximo, quanto sobre os potenciais riscos. Eu tenho visto uma preocupação muito grande dessas empresas se traduzindo em medidas concretas, não só por conta de incidentes como o da Hugging Face. A OpenAI fez uma série de pronunciamentos em que deixou claro que estava desacelerando a pesquisa de fronteira e, em algumas frentes, a havia suspendido. Mas essa discussão da cibersegurança não deve ficar só a cargo de pessoas e empresas sentadas lá em San Francisco decidindo pela humanidade. É muito importante que os governos sigam se engajando em parceria com o setor privado, com a academia, a sociedade civil. E a OpenAI e o Sam Altman repetem que é um setor que vai demandar um nível de coordenação internacional que vá além dos governos individualmente. RAIO-X | Bruno Lewicki, 51 Advogado formado pela Uerj, é head de políticas públicas para a América Latina da OpenAI. Já foi diretor global de políticas públicas do Airbnb e sócio do escritório BMA.

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