Brasil pode aproveitar 'powershoring' com energia limpa para atrair empresas, diz estudo

Brasil pode aproveitar 'powershoring' com energia limpa para atrair empresas, diz estudo

Às vésperas das eleições de 2018, o economista Bernard Appy percorreu comitês de campanha e grupos da sociedade civil ao lado de pesquisadores do CCiF (Centro de Cidadania Fiscal). O objetivo era colocar em pauta o tema da reforma tributária. O assunto não virou tema quente no período eleitoral, mas quando a discussão foi pautada no Congresso Nacional, ao longo dos governos de Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as propostas do CCiF tiveram influência decisiva. Ao longo desta semana, uma equipe liderada pelo economista Luiz Awazu Pereira da Silva chega a São Paulo com objetivo semelhante: colocar um tema no debate público. Eles apresentarão em diversos fóruns —entre eles Fiesp, Febraban, ONGs e entidades ligadas ao agronegócio— o estudo "Crescimento liderado pelo investimento na transição ecológica do Brasil", realizado com o apoio do Cetex (Centre for Economic Transition Expertise) da LSE (London School of Economics), e da organização não-governamental ICS (Instituto Clima e Sociedade). O estudo defende que, se tomar as decisões certas, o Brasil pode se aproveitar do "powershoring", conceito desenvolvido pelo economista Jorge Arbache, um dos coautores do texto. Indústrias que usam energia de forma intensiva estão se mudando para países ou regiões com oferta energética abundante. Num contexto geopolítico em que o acesso aos combustíveis fósseis é cada vez mais incerto, torna-se uma vantagem se essa oferta for de energia limpa. O estudo mostra que o Brasil tem várias condições para atrair elos de cadeias industriais que se beneficiam do "powershoring". Neutralidade geopolítica, distância de zonas de conflito, presença de minerais críticos, água e biomassa, e descoberta de novas reservas de petróleo que possam financiar a transição energética. Além, é claro, de abundância de energia hidrelétrica, eólica e solar. Seriam essas nossas "vantagens comparativas", segundo o conceito desenvolvido pelo economista britânico David Ricardo (1772-1823). O desafio seria transformar essas "vantagens comparativas" nas "vantagens competitivas" de que fala o americano Michael Porter, professor de Harvard. Isso envolveria transformar um "estoque passivo de riqueza" em "uma plataforma industrial de baixo carbono", para usar as palavras dos autores do estudo. "O desafio não é apenas explorar ou exportar esses recursos, mas industrializá-los: processar minerais, transformar biomassa em biocombustíveis e SAF (combustível sustentável de aviação), produzir aço verde, desenvolver a bioeconomia, agregar tecnologia e criar fornecedores e empregos qualificados no Brasil", enfatizam os autores. "Caso contrário, o país poderá cair numa nova ‘maldição verde dos recursos naturais’: exportar commodities mais limpas, mas continuar com baixa produtividade e pouco valor agregado". Os autores citam, entre outros, o exemplo do Canadá, onde plantas industriais estão se mudando para a região de Quebec para ficarem próximos de centros de produção de energia limpa. "Não é que estejamos inventando o ‘powershoring’, a gente está observando que existem esses novos fatores nas decisões de negócios", disse Awazu à Folha. Não é milagre, as coisas não vão vir espontaneamente, mas o Nordeste, por exemplo, tem um potencial eólico e solar enormes. No estudo temos uma tabela que mostra o custo baixo da energia renovável no Brasil. Isso entra como um fator de atratividade para o investimento estrangeiro direto Como os autores destacam, os investimentos para essa transformação teriam que vir principalmente do setor privado, num país que sofre com endividamento crescente e restrições orçamentárias. "A Europa e a China têm abundância de investimento estatal na transição energética, mas nós não temos espaço fiscal para isso", diz o economista Manoel Pires, coautor do estudo. Segundo ele, algumas ferramentas de financiamento já disponíveis no Brasil poderiam funcionar como catalisadores para uma "política industrial verde". "O ajuste fiscal é importante, mas a gente não acredita que tal ajuste, por si só, produza espontaneamente crescimento", afirma Awazu. Para ele, há na política brasileira um debate que enfatiza a importância do acerto das contas públicas de um lado, e de outro um modelo em que o crescimento vem do consumo das famílias, de transferências sociais e do orçamento público. "Nossa proposta, intermediária, é usar nossas vantagens para criar nossa inserção na economia mundial". A ideia de estabelecer o Brasil, no plano internacional, como uma "potência verde" —ancorada em agricultura sustentável, industrialização turbinada por energia limpa e preservação de ativos ambientais como a Floresta Amazônica— vem sendo desenvolvida há mais de uma década por coalizões que unem setores produtivos, universidades e organizações não-governamentais ligadas ao clima. Ela esbarra sempre na falta de lideranças capazes de colocar o tema no debate público. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Em entrevista na sexta-feira (28) ao Jornal Nacional, o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) questionou o consenso científico em torno da mudança climática, justificando a ausência do tema no próprio programa de governo. Já Lula usa a descoberta de petróleo na Margem Equatorial para conseguir apoio político, sem nunca fazer a ligação entre a exploração de combustíveis fósseis e a transição para energia limpa. "No fundo de recursos do pré-sal, que foi aprovado em 2010, já tinha um uso destinado para mudanças climáticas", relembra Manoel Pires. "Acho que podemos aproveitar a oportunidade atual para refazer isso, propondo o uso da Margem Equatorial para financiar a transição energética". "Pessoas do Tesouro, pessoas do BNDES, equipes do Ministério da Fazenda e do Ministério do Meio Ambiente já receberam o estudo", comenta Awazu. "Já tivemos também rodadas de encaminhamento prelimnar para pessoas do governo e pessoas que participam do debate público. A gente tem feito um trabalho bastante amplo e extenso de divulgação e coleta de impressões. A ideia é colocar esse tema na pauta".

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