Brasil negro oferece li��es de resist�ncia aos EUA de Trump

Brasil negro oferece li��es de resist�ncia aos EUA de Trump

[RESUMO] Autor americano põe em perspectiva as heranças da escravidão nos EUA e no Brasil, destacando o racismo e a violência nos baculejos promovidos pela polícia em Salvador e nas mortes cometidas por agentes do ICE do governo Trump. Iniciativas de valorização da memória negra na capital baiana e em Nova Orleans, por outro lado, lembram que o curso da história pode ser transformado. Em Salvador, a capital do Brasil negro, chamam de baculejo. Quando a polícia para uma pessoa sem motivo justificado para interrogar, revistar, assediar ou fazer algo pior, é um baculejo. Em um sábado há não muito tempo, presenciei um baculejo acontecer do outro lado da rua do principal museu de história da cidade, a Casa das Histórias de Salvador. Com submetralhadoras no peito, cinco policiais de cara fechada, com boinas pretas e coletes à prova de balas, cercaram um homem negro de meia-idade. Com as mãos atrás da cabeça e os cotovelos abertos, o homem permanecia absolutamente imóvel e a sua expressão facial revelava uma mistura de preocupação, exasperação e resignação diante de uma experiência nitidamente familiar. Pablo Lemos, então mediador cultural da Casa das Histórias, observava pelas janelas do térreo do museu. Jovem negro criado por uma mãe solteira em um barraco de madeira sobre palafitas à beira de águas poluídas, Pablo também conhecia muito bem os baculejos. Normalmente rápido em brincar e rir com os colegas, ele fervia de ressentimento agora. "Olha a camiseta dele", disse, se referindo à imitação da Nike que o homem abordado estava usando. "É óbvio que está trabalhando. Ele não vai roubar. Não está vendendo drogas. Agora, perdeu a dignidade." Não fosse o fato de esses policiais não esconderem o rosto, uma cena muito parecida poderia ter sido observada a milhares de quilômetros, em Minneapolis, Los Angeles ou qualquer outra localidade onde os agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) de Donald Trump vêm perseguindo pessoas pardas ou pretas. Embora os protestos em massa em Minneapolis no início deste ano tenham forçado o ICE a recuar —ou a aparentar recuar—, o recuo foi temporário. No fim de junho, agentes do ICE de todo o país estavam detendo 2.000 pessoas por dia, o que o jornal The New York Times descreveu como "uma grande onda decorrente de uma pressão interna da Imigração e Alfândega para aumentar as taxas de prisão". Em seguida, em uma semana no início de julho, agentes do ICE cometeram dois tiroteios fatais. Em 7 de julho, mataram em Houston Lorenzo Salgado Araujo, trabalhador da construção civil mexicano e pai de três filhos que vivia nos Estados Unidos havia mais de 30 anos sem status legal. Em 13 de julho, agentes do ICE em Biddeford, no Maine, mataram a tiros Joan Sebastián Guerrero, pai de 26 anos que tinha permissão de trabalho e número de Seguro Social. Nos EUA, bem como no Brasil, a violência extralegal contra pessoas negras tem uma longa história. Críticos da brutalidade do ICE —horrorizados ao ver esquadrões mascarados e fortemente armados arrastando pessoas para fora de carros, arrombando portas, detendo crianças de 5 anos e matando não apenas pessoas detidas, mas também supostos simpatizantes brancos— compararam a agência à Gestapo da Alemanha nazista. No entanto, para alguns observadores afro-americanos, como a deputada democrata Jasmine Crockett, do Texas, um paralelo melhor seria com as patrulhas de escravos, os grupos de justiceiros contratados no Sul dos EUA antes e durante a Guerra Civil para caçar pessoas escravizadas que haviam fugido e devolvê-las ao cativeiro. Exposições na Casa das Histórias de Salvador, que tem mais de 4 milhões de documentos e artefatos, iluminam como as pessoas negras no Brasil foram submetidas a todo tipo de violência desde que a escravidão se estabeleceu no país. O trabalho de africanos escravizados sustentou o açúcar, o cacau e outros empreendimentos extrativistas que, por séculos, fizeram de Portugal um dos países mais ricos do mundo. O primeiro ponto de desembarque de escravizados em Salvador ficava a poucos passos de onde o baculejo que Pablo e eu testemunhamos aconteceu. "Historiadores identificaram quatro ou cinco locais aqui onde pessoas escravizadas eram desembarcadas, mas este foi o primeiro", disse, apontando para o outro lado da praça do Mercado, a principal da Cidade Baixa. Cerca de 1 a cada 7 africanos escravizados não sobreviviam à travessia do Atlântico, amontoados uns sobre os outros, sem banheiros e com pouca comida, água ou ventilação. Em terra, as condições não eram muito melhores. A pessoa escravizada média não vivia além dos 23 anos, um reflexo da dieta escassa e dos perigos excepcionais da colheita e da fervura da cana-de-açúcar para transformá-la em cachaça, melaço e outros produtos. Escravizados considerados não obedientes o suficiente eram açoitados no famoso Pelourinho de Salvador. Durante boa parte da sua existência, o Pelourinho ficava no largo Terreiro de Jesus, o que ilustrava a profunda integração da Igreja Católica com o colonialismo português. Ainda hoje, igrejas imponentes ocupam três lados da praça —as fachadas ornamentadas e os interiores luxuosos personificam as riquezas geradas pelo tráfico de escravos. O Pelourinho acabou sendo transferido para alguns quarteirões de distância depois que o colégio jesuíta situado em uma das extremidades da praça reclamou dos gritos de agonia das vítimas. "Fico com tanta raiva quando penso no que os brancos fizeram aos meus ancestrais", Pablo disse. Apontando para o outro lado da praça, para um penhasco íngreme que separa a Cidade Baixa da Cidade Alta, ele mencionou uma rua que sobe o morro: "Os colonizadores deram um nome terrível: ladeira da Preguiça. Escravizados tinham que carregar cargas pesadas morro acima por essa rua e, quando não corriam, os colonizadores os chamavam de preguiçosos. Mas não é possível subir rápido um morro desses carregando peso. Não é possível!". Mesmo assim, Pablo insistiu: "Você não deve odiar os brancos". "Os brancos de hoje não são os colonizadores do passado. Você tem que odiar o sistema racista e as pessoas que perpetuam esse sistema. A minha melhor amiga é branca, mas ela reconhece e luta contra o privilégio branco ao meu lado." Uma forma de combater esse sistema, Pablo acrescentou, é compreender e honrar a história que levou às circunstâncias atuais. Ele tinha orgulho de trabalhar na Casa das Histórias e de ajudar pessoas de todas as origens a conhecer a verdade sobre o passado de Salvador. "Se as pessoas não têm memória do passado", afirmou, "não podem construir uma concepção melhor do futuro". Clarindo Silva, dono de um café e centro comunitário em frente à praça onde o Pelourinho ficou por muito tempo, ecoou o sentimento de Pablo. Com mais de 80 anos, olhos vivos e voz firme, Silva usava um terno branco e uma gravata rosa enquanto explicava uma faixa na parede do café: "Preservar para perpetuar". "Buscamos", ele me disse, "preservar para as gerações futuras a memória daqueles que foram tirados do continente africano e escravizados aqui e que construíram o centro histórico da cidade. Um povo que não preserva o passado não pode viver plenamente o presente e nunca conseguirá construir um grande futuro". Em outras palavras, a memória é uma forma de resistência. O mesmo vale para a música, como Pablo e eu fomos lembrados quando o som de tambores ecoou de repente pela praça. Em uma rua atrás do museu, uma roda de samba começou. Oito homens com camisas coloridas tocavam tambores enquanto outros agitavam chocalhos ou batiam palmas. Mulheres com vestidos estampados em tons de amarelo, vermelho e preto balançavam ao ritmo da música. Acima delas, uma faixa verde e roxa anunciava que a praça sediaria a Feira Preta naquele fim de semana. Os tambores voltaram a tocar, e a batida seca e sincopada me levou na hora para Nova Orleans. Era o mesmo ritmo que eu tinha ouvido inúmeras vezes enquanto trabalhava em um livro sobre a história da escravidão, da música e dos desfiles "second line" da cidade. Os desfiles "second line" evoluíram dos ritos fúnebres que os africanos escravizados trouxeram quando começaram a chegar a Nova Orleans em 1722. Ao descrever os desfiles de "second line" no meu livro "Big Red's Mercy", escrevi: "Impulsionadas por uma música percussiva, centenas de pessoas tomam as ruas por quatro horas de dança, bebida, comida, flerte e balanço. Uma ou mais bandas de metais conduzem a ação, com instrumentos estridentes e tambores retumbantes canalizando os ritmos animados que fizeram de Nova Orleans, nas palavras de Bruce Springsteen, 'esta grande cidade-mãe da música americana'. Os dançarinos exibem o seu talento em uniformes de cores exuberantes, realçados por leques de plumas, chapéus de penas e sombrinhas. Ao redor da banda e dos dançarinos, estão os espectadores que se juntam à festa —a segunda fileira do desfile". Os paralelos entre os desfiles "second line" de Nova Orleans e o que eu estava testemunhando em Salvador eram impressionantes: eram as mesmas batidas, os mesmos tambores e danças, as mesmas roupas e os mesmos rostos, a mesma recusa de uma divisão entre artista e público em favor de uma experiência comunitária em que todos são artistas e todos são público. Se moradores de Nova Orleans curtindo um desfile "second line" fossem magicamente transportados para um samba em Salvador ou vice-versa, a minha suspeita é que ambos os grupos se sentiriam em casa. As semelhanças eram surpreendentes, mas não inesperadas, dada a história similar das duas cidades. Assim como Salvador foi um grande mercado de escravizados da América do Sul, Nova Orleans foi o maior da América do Norte. A escravidão terminou oficialmente nos EUA em 1865 e no Brasil, em 1888, mas as heranças da escravidão —preconceito, discriminação, violência e desigualdade— persistiram em graus variados nos dois países, como o baculejo em frente à Casa das Histórias e os esquadrões do ICE de Trump ilustram. Essas heranças, porém, não são todos amargos, já que a experiência da escravidão também deu origem a alguns dos maiores gêneros musicais do mundo. Os músicos de Nova Orleans misturaram ritmos africanos com melodias europeias para criar o jazz, base da música popular do século 20, que deu origem ao R&B, ao rock, ao hip-hop e a outros gêneros. No Brasil, a conexão africana ficou expressa no próprio nome da música: "samba" difere por apenas uma letra de "semba", o nome da música em Angola, de onde vieram muitos dos escravizados que chegaram ao Brasil. "Durante o período da escravidão, essa música era proibida", Pablo disse enquanto curtíamos o samba atrás do museu. Um sorriso iluminou o seu rosto quando acrescentou: "Agora, nós a usamos para celebrar". Da mesma forma em Nova Orleans, os desfiles "second line" homenageiam os ancestrais cujos sacrifícios tornaram possível a relativa liberdade e prosperidade de hoje. "Quando você está em um 'second line', sente a sua história", Joe Maize, trombonista da To Be Continued, uma das principais bandas de metais da cidade, me disse. "Isso transparece nos movimentos que você faz e na forma como você toca o instrumento. Você consegue sentir os seus ancestrais ao redor." Por sinal, a reverência aos ancestrais anima "Mas, que Nada!", lançada por Jorge Ben em 1963 e que se tornou um hit global na versão de Sérgio Mendes & Brasil '66. A canção é uma oração exuberante de orgulho e gratidão. O verso de abertura invoca a deusa Obá três vezes, e a canção se encerra repetindo o nome dela várias vezes. Os versos exaltam o samba como um dom extraordinário dos ancestrais que vive hoje nas pessoas negras: "Sai da minha frente/ Que eu quero passar/ Pois o samba está animado/ E o que eu quero é sambar/ [...]/ É samba de Preto Velho/ Samba de Preto Tu". Com a roda de samba de Salvador agora a todo vapor, outro paralelo surpreendente com Nova Orleans se desenrolou. Primeiro, um par de crianças, depois um par de adolescentes e, por fim, um par de homens adultos entraram na roda e começaram uma série de movimentos de capoeira. Desenvolvida durante a escravidão, a capoeira era uma forma de autodefesa contra os senhores de escravos disfarçada de dança. O paralelo surpreendente é que a heroína de "Big Red's Mercy", a ativista local pelos direitos civis Deborah "Big Red" Cotton, também praticava capoeira. Aliás, ela a ensinava a jovens negros em Los Angeles antes de se mudar para Nova Orleans, onde cobria os desfiles "second line" para o jornal local de música. Como escrevi em "Big Red's Mercy", Deborah Cotton e eu nos conhecemos ao sermos baleados juntos. Em 2013, Deb e eu fomos duas das 20 vítimas do maior tiroteio em massa dos tempos modernos em Nova Orleans, há muito uma das capitais dos homicídios dos EUA. Tragicamente, o tiroteio aconteceu em um desfile "second line". Dois jovens negros, mirando um traficante rival, atiraram em uma multidão pacífica, quase toda composta de pessoas negras. Deb foi a mais gravemente ferida das 20 vítimas; os cirurgiões duvidavam que ela sobrevivesse até o dia seguinte. (Eu mesmo sofri só ferimentos superficiais na perna e nas mãos.) De alguma forma, Deb sobreviveu tempo suficiente para lançar uma declaração pública pedindo clemência e compreensão para os dois jovens atiradores. De forma alguma ela considerava a violência deles aceitável, mas a via em contexto. "Esses jovens foram separados de nós por tanto trauma", dizia a declaração, aludindo às desvantagens enfrentadas por muitos jovens negros em Nova Orleans: pais ausentes ou empobrecidos, escolas péssimas, violência desenfreada de gangues e da polícia, poucas possibilidades de emprego além do trabalho braçal ou do tráfico de drogas. Argumentando que "o racismo pode matar pessoas negras mesmo quando é um dedo negro que puxa o gatilho", Deb disse que os atiradores "fizeram escolhas horríveis que arruinaram [as suas vidas, mas] não fizeram isso em um vácuo. Esta cidade e este país criaram esse vácuo". Pablo expressou uma visão semelhante quando lhe fiz uma pergunta sobre o baculejo que havíamos testemunhado: quatro dos cinco policiais eram negros —então as ações deles ainda assim eram racistas? "Se uma pessoa não tem conhecimento da sua história, não pode entender o seu presente", respondeu Pablo. "Nos tempos da escravidão, havia capitães do mato que trabalhavam para os portugueses, oprimindo pessoas escravizadas, mesmo sendo eles próprios negros. É a mesma coisa com aqueles policiais. Eles não percebem que estão perpetuando um sistema racista." Enquanto os EUA celebram o 250º aniversário, sob a Presidência de um supremacista branco que não esconde as suas convicções e busca negar um relato preciso das origens da nação, lugares como Salvador e Nova Orleans lembram que as verdades históricas permanecem ao nosso redor. As forças do passado ainda moldam eventos individuais, como o baculejo a poucos passos de onde africanos escravizados pisaram pela primeira vez em solo brasileiro e as mortes de Lorenzo Salgado Araujo e Joan Sebastián Guerrero pelo ICE, bem como os sistemas sociais mais amplos que dão origem a tais eventos. Ao mesmo tempo, Pablo Lemos, Deborah "Big Red" Cotton e outros heróis do cotidiano lembram que a história não é destino: o seu curso pode ser alterado se pessoas suficientes agirem para mudá-lo, e a memória e a música são ferramentas poderosas para isso.

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