Brasil � 2� pa�s com mais empreendedores sociais e Chico Mendes foi 1� deles

Brasil � 2� pa�s com mais empreendedores sociais e Chico Mendes foi 1� deles

Chico Mendes foi o primeiro brasileiro reconhecido como empreendedor social pela Ashoka, organização que cunhou esse termo no mundo. Foi em novembro de 1988, um mês antes de ser assassinado na porta de sua casa, em Xapuri (AC). Em 2022, foi vez da filha do líder seringueiro, Ângela Mendes, ganhar o batismo da Ashoka. "Na época, conversei com pessoas que fizeram o processo de reconhecimento dele. Fiquei emocionada", lembra Ângela, 56, que falou com a Folha do escritório do Comitê Chico Mendes. A ativista atua desde 1989 em defesa de povos tradicionais e da floresta, acompanhando os desafios que a reserva extrativista enfrenta e, em 2015, passou a formar jovens lideranças ambientais. Ela integra a comunidade global de 4.000 lideranças chanceladas pela Ashoka, 10% delas brasileiras, que influenciam políticas públicas e mudanças setoriais com suas inovações socioambientais. "Eu fazia muita coisa e achava que não fazia nada. Então me reconheci também, fui entendendo um caminho de superação e luta que trilhei", diz Angela da Floresta, como se identifica nas redes sociais a ativista militante, como se define. Fundada na Índia pelo americano Bill Drayton em 1980, a Ashoka foi reconhecida globalmente quando Muhammad Yunus, integrante da comunidade, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 2006, por criar o banco dos pobres, modelo de microfinanciamento para combate à pobreza em Bangladesh. Yunus personificou para o mundo o que era um empreendedor social. Segundo a Ashoka, um termo relativo a "pessoas com habilidades empreendedoras, como criatividade, trabalho em equipe, liderança e forte fibra ética, usadas para enfrentar grandes problemas sociais e transformar os sistemas que geram desigualdades". A ONG completa agora 40 anos no Brasil com uma rede formada por nomes como Adriana Barbosa (Feira Preta e Preta Hub), Ailton Krenak, Celso Athayde (Cufa), Eliana Sousa (Redes da Maré), Denis Mizne (Instituto Sou da Paz), Eugênio Scannavino (Saúde & Alegria), Sueli Carneiro (Geledés), Suzana Padua (Ipê), Tasso Azevedo (Mapbiomas) e Wellington Nogueira (Doutores da Alegria). "O Brasil é o segundo país que mais concentra fellows Ashoka, vindo apenas depois da Índia. A Ashoka Brasil inventou e disseminou pelos continentes uma forma de criar coletivamente e de estabelecer parcerias com megaforças e territórios para transformar o mundo", afirma Drayton. Para o diretor da ONG no Brasil, Rafael Murta, o país é celeiro de inovação social. "Esse potencial de imaginar futuros e novos paradigmas pode ser aproveitado para impulsionar mudanças setoriais de ponta. O empreendedorismo social é uma engrenagem que move e alimenta políticas públicas inovadoras", diz ele. Exemplo disso é Frei David, fundador da Educafro, movimento que garantiu acesso ao ensino superior para milhares de estudantes vulneráveis no país. "Contribuiu para as leis de cotas, para o acesso à universidade. Assim como Sueli Carneiro, Cida Bento e Jurema Werneck [também fellows da Ashoka], turma que está redefinindo as relações étnico-raciais e políticas públicas mais significantes para essas populações." Ao ingressar na comunidade, essas lideranças se conectam e acessam eventos globais do setor de impacto —e 75% delas recebem recurso financeiro ao longo de três anos para impulsionar sua iniciativa. A Ashoka Brasil inventou e disseminou pelos continentes uma forma de criar coletivamente e de estabelecer parcerias com megaforças e territórios para transformar o mundo "Fazer conexões e alianças é a essência do que foi a luta do meu pai", diz Ângela Mendes. "Eu posso não chegar sozinha, mas chego acompanhada." Em 2019, a Ashoka ampliou o olhar para a juventude com o programa Jovens Transformadores no Brasil, acolhendo hoje 140 pessoas entre 13 e 19 anos que desenvolvem iniciativas de impacto em suas comunidades. É o caso de Mariana Nunes, 23, fundadora de uma rede de psicólogos voluntários que fez 2.500 atendimentos pelo país desde a pandemia. Ideia que nasceu quando ela tinha 13 anos e viu meninas se automutilando na escola. A indignação levou Mariana a criar um projeto de lei sobre saúde mental e a enfrentar o prefeito de Conceição do Almeida (BA), fundando depois a Rede Autoestima-se. A baiana foi reconhecida em 2021 pela Ashoka como Jovem Transformadora e, em 2024, pela Folha como destaque entre os Jovens Transformadores do Prêmio Empreendedor Social, categoria realizada em parceria com a organização há três anos. E, em abril deste ano, ela viajou a Washington (EUA) para conhecer o pai do empreendedorismo social, hoje com 83 anos. "Foi uma conversa de uma hora sobre saúde mental, filantropia para a juventude e o futuro da Ashoka", lembra Mariana, que levou imagem de Iemanjá e uma fitinha do Senhor do Bonfim para Drayton. "A Ashoka foi minha escola, está na minha história e ajudou a me reconhecer como agente de transformação." É justamente essa filosofia que a organização prega: nem todos precisam ser empreendedores sociais, mas todos podem ser transformadores. Por isso, além da identificação de lideranças, a Ashoka cultiva redes territoriais colaborativas e instituições como secretarias de educação e juventudes, faculdades de educação, sindicatos de professores e produtores e distribuidores de conteúdo. "O termo 'empreendedor social' fugiu do nosso controle de maneira positiva. Agora a gente orquestra um movimento global por transformação, em que todos se percebam como parte", diz Murta. Movimento que tem na bagagem figuras histórias como Chico Mendes, mas também novatos como Alexandre Silva, fundador de uma iniciativa que oferece cuidados paliativos em favelas do Rio, e Catarina Xavier, jovem que abre espaço para meninas negras no campo das exatas. "O que a gente faz é provocar esse despertar sem que ninguém fique para trás", conclui o diretor da Ashoka Brasil.

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