Bipolares pela democracia

Bipolares pela democracia

Carrinho do terror subindo a montanha-russa! Ventinho na cara como lambidas libidinosas de fadas safadas. Meu cérebro comete poeminhas juvenis. Hálito de Halls de menta com chá de canela. Chá de minhápica. Não consigo parar de pensar em como é bonito o homem quando da barafunda da barba sai um beiço carnudo. É como se aquele beiço fosse um jovem do "Largados e Pelados" no meio da mata, e então ele vence a mata. Vencer a mata. Vencer a morte. Formigamento de prazer do esfíncter até o occipital. Sobe! Postes, batons, desodorantes, caneta de dez cores, maçaneta. Tudo é sexy e tudo é sexo. Neste dia, apenas uma certeza: é preciso novamente votar pela democracia. Carrinho do terror descendo a montanha-russa. Meu pai está sozinho em uma casa com escada. Ele pode estar caído agora mesmo, enquanto faço as unhas. Se eu prestasse, estaria agora deitada no chão, servindo de anteparo macio para a queda dos meus pais, que estão muito velhos e muito idosos. Escureceu lá fora. Por que todo mundo tem bafo de omelete e balão murcho de festa? Todo cantinho que eu olho está sujo. O teto está manchado. O que conversam perto de mim é completamente estúpido. Neste dia, apenas uma certeza: é preciso novamente votar pela democracia. Óbvio que você tem todo o talento do mundo, sua gênia, digo a uma conhecida recente. Anota aí todos os contatos que eu tenho de editoras, jornais, televisão, diretores de teatro, agentes, advogados e pais de santo. Vamos bombar seu livro sobre a história da sua frieira, tá? No Natal quero você na minha casa! Vamos lançar juntas podcasts e videocasts e vamos contar tudo uma para a outra e sermos irmãs? Neste dia, apenas uma certeza: é preciso novamente votar pela democracia. Ventinho na cara só presta para piorar a sinusite. A minha cama no escuro é a imagem que carrego tal qual a de uma santa beatificada em um escapulário imaginário. Voltar para ela, a cama no escuro, é a luta de cada hora. Faltam dez horas e pronto, dormir. Acabar. Descobri o que piora a minha enxaqueca: existir. Descobri o que piora a dor no corpo: a enxaqueca. De que serve caminhar num parque se, osteopênicos ou não, vamos parar? Neste dia, apenas uma certeza: é preciso novamente votar pela democracia. Eu me matriculei num curso de sapateado e estou aqui vendo preço para estudar desenho de observação com grafite. Neste dia, apenas uma certeza: é preciso novamente votar pela democracia. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Tenho que entregar uma crônica, mas só penso em mágoa, tristeza e raiva. A menina me abraçou tão forte que cheguei a descansar meu corpo. Ela me usou, falou com todos os meus contatos, mas saiu pelo mundo dizendo que não vai muito com a minha cara. Estou há 47 anos na fila para adotar uma irmã. Neste dia, apenas uma certeza: é preciso novamente votar pela democracia. Jaqueta de couro: que linda! Quatro mil reais em oito vezes sem juros. Tenho R$ 470 na conta. Já deu certo! Vender esse apartamento e ir para uma casa cheia de mato. Compro uma flauta doce. Neste dia, apenas uma certeza: é preciso novamente votar pela democracia. Não posso escrever sobre nada disso. Loucos só pioram a imagem da esquerda. Já sabemos o que farão comigo na internet. Eles estão sempre certos. Sou tão péssima, equivocada e flácida que não mereço tomar banho hoje. Descobri o que me dá refluxo: o remédio da enxaqueca. Neste dia, apenas uma certeza: é preciso novamente votar pela democracia. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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