Biobanco em Curitiba re�ne 30 mil amostras de tumores e cultiva alguns deles em camundongos

Biobanco em Curitiba re�ne 30 mil amostras de tumores e cultiva alguns deles em camundongos

Um prédio de pouco mais de 400 m2, em uma rua tranquila da região central de Curitiba, abriga cerca de 30 mil amostras de tumores. Esse acervo abastece pesquisas nacionais e internacionais sobre alguns dos cânceres mais raros em crianças. O Biobanco do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe (IPP) funciona desde 2015. O local, segundo sua administração, reúne uma das maiores coleções de tumores pediátricos destinadas à pesquisa do mundo. Ali, uma equipe de 15 pesquisadores (entre pós-doutores, doutores, mestres e técnicos de nível superior) recebe, cataloga e processa tecidos e líquidos tumorais provenientes de pacientes atendidos no Hospital Pequeno Príncipe, do outro lado da rua Desembargador Motta, uma referência em atendimento infantil. O biobanco, iniciativa do médico pernambucano Bonald Cavalcante de Figueiredo, 69, é o único no país usado exclusivamente para amostras pediátricas, e é intimamente ligado ao hospital filantrópico que atende crianças e adolescentes de média e alta complexidade. "Começou muito pequeno e foi se expandindo. Hoje temos capacidade para 200 mil amostras", diz o especialista em oncogenética. A inspiração para a versão brasileira foi o biobanco de Porto, em Portugal, que Figueiredo conheceu em 2014. "Toda vez que um pesquisador precisava de uma amostra, era Porto que respondia primeiro. Mas hoje uso muitas amostras de cânceres raros, e aí quem tem somos nós, eles não têm lá." Mas para que serve um biobanco? Assim como um banco de sangue armazena bolsas para uso clínico, um biobanco reúne tecidos e células destinados a estudos científicos. Várias vezes ao dia, integrantes da equipe, em sua maioria mulheres, atravessam as duas quadras entre o biobanco e o hospital munidas de coolers e equipamentos para coleta e armazenamento. Logo após a remoção dos tumores de pacientes, eles coletam e conservam os tecidos e outras amostras tumorais em meio líquido ou frascos, sem necessidade de refrigeração no curto percurso. No biobanco, são conservadas em freezers a -80°C, -30°C ou nitrogênio líquido a -150°C. Uma parte dessas amostras é mantida viva em camundongos do biotério —a parte do biobanco que abriga os animais—, onde crescem indefinidamente. "Os camundongos funcionam exatamente como a criança. Se o tumor cresce na criança malignamente, ele também será maligno no camundongo. Se é benigno na criança, também será benigno no camundongo", explica o diretor. Manter esses tumores vivos permite investigar fatores ligados à agressividade do câncer, alterações genéticas e possíveis terapias-alvo. E aí que se abre o leque, também, para colaborações internacionais. Hoje, 18 grupos de pesquisa, sendo cinco deles no exterior, mantêm parcerias com o biobanco de Curitiba. A estratégia consiste em implantar o tumor humano em camundongos geneticamente modificados. Para isso, quanto mais "fresco" o tumor, melhor, reduzindo assim a perda de atividade celular. Atualmente, 50 camundongos do biotério fazem parte da colônia reprodutiva. Outros 150, aproximadamente, têm os tumores implantados. Esses animais são modificados geneticamente para serem imunodeprimidos (a supressão do sistema imune possibilita o crescimento do tumor). Há, no entanto, capacidade para até dobrar o número de animais usados no experimento, diz Figueiredo. "Se for necessário acelerar o crescimento de tumores, nós conseguimos chegar até 400, mas preferimos trabalhar com um número abaixo, justamente por causa das normas de manutenção desse biotério, que são extremamente rigorosas." Ali, qualquer risco biológico pode gerar um prejuízo potencial à pesquisa. Por essa razão, cada indivíduo permanece em uma gaiola isolada. A ração e a água são esterilizadas, além do controle do ar via filtros. A paramentação total para todos que entram na sala limpa é obrigatória, reduzindo os riscos de contaminação cruzada. "No fim das contas, o próprio camundongo funciona como um biobanco. O tumor continua crescendo com as mesmas características que iria crescer na criança, sem precisar fazer nada", resume Figueiredo. Um dos exemplos do uso dos tumores crescidos em camundongos foi uma paciente, tratada no Hospital da Criança St. Jude’s, em Memphis (Estados Unidos), que não respondia bem a nenhum tratamento ou quimioterapia. "Eles nos procuraram, enviaram uma amostra e nós crescemos um pedaço do tumor no camundongo e outro pedaço preservamos em meio de parafina. Descobrimos que o tumor dela era extremamente resistente e agressivo, porque até o da parafina se desenvolveu. Então o biobanco tem um duplo papel, um de armazenar, e o outro de fazer essa experimentação que não seria possível em humanos." Temos metodologias sofisticadas que outros centros não têm. Vejo para o futuro do biobanco garantir esses serviços, sem fins lucrativos, para outros centros menores Outros projetos também se beneficiam do uso das amostras de biobanco. "Se não fosse o biobanco, meu projeto não existiria", afirma Cleber Machado, 56, dentista de formação e pesquisador em um projeto sobre a análise de biomarcadores em sarcomas. "Essa riqueza permite estudar doenças que, quando analisadas do ponto de vista do paciente, são raras, mas, quando você pega dez anos de amostras, consegue estudá-las", diz Machado. Até hoje a captação de recursos foi feita, em parte, por meio de editais públicos (do Ministério da Saúde e de agências de fomento, como Capes e Fundação Araucária) e privados (principalmente a partir de doações particulares ao hospital, que é filantrópico). Para o futuro do biobanco, Figueiredo enxerga uma sustentabilidade a partir de serviços ofertados. "Temos metodologias sofisticadas que outros centros não têm. Vejo para o futuro do biobanco garantir esses serviços, sem fins lucrativos, para outros centros menores." Para Ety Carneiro, diretora-geral do IPP e diretora-executiva do Hospital Pequeno Príncipe, o desejo do hospital sempre foi de fazer uma medicina translacional, isto é, a pesquisa médica aplicada ao cuidado do paciente. "Nós nascemos do desejo de atender melhor as crianças, e essa ponte entre pesquisa e assistência só é possível com essa infraestrutura que temos hoje." A jornalista viajou a convite do Instituto Pelé Pequeno Príncipe

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